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Espiar o futuro começa pelo jeito de enxergar
Entre estética, tecnologia e saúde, os óculos deixam de ser coadjuvantes e passam a ocupar o centro de uma nova experiência híbrida, onde ver bem é também se posicionar no mundo
Em um cotidiano atravessado por telas, sensores e interfaces digitais, enxergar deixou de ser apenas uma função biológica: virou experiência. Hoje, visão envolve tecnologia, comportamento e linguagem estética. Aquilo que antes era invisível, como a lente corretiva, passa a integrar uma narrativa mais ampla sobre performance, identidade e presença no mundo contemporâneo.
Se os smartphones redefiniram a comunicação e os relógios inteligentes passaram a monitorar a saúde em tempo real, os óculos deixam de ser apenas dispositivos corretivos ou acessórios de moda e passam a funcionar como ponto de contato constante entre corpo e tecnologia. É um movimento que acompanha a ascensão dos wearables e a digitalização da saúde, criando um novo território de convergência entre função e expressão.
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Nesse cenário, enxergar bem deixa de ser uma necessidade pontual. Torna-se uma performance cotidiana, que envolve eficiência visual e construção de imagem. A forma como se vê o mundo e como se é visto por ele se tornam dimensões inseparáveis e reposicionam os óculos como protagonistas de uma nova cultura visual.
As telas como ponto de virada
O aumento do tempo de exposição às telas já provoca mudanças concretas na relação com a visão. Em 2024, uma pesquisa do portal Electronics Hub colocou o Brasil no segundo ligar do ranking de tempo de uso de telas, com uma média de 9 horas por dia. Essa situação intensifica a demanda por soluções ópticas mais precisas e acessíveis. Mais do que ampliar a necessidade de correção, esse cenário reposiciona o cuidado ocular como parte da rotina de bem-estar.
Nesse contexto, os óculos deixam de ser um produto isolado e passam a fazer parte de um ecossistema mais amplo, que conecta dados, tecnologia e personalização. A lente, antes pensada apenas para pessoas com algum grau de alteração na visão, ganha protagonismo como elemento de proteção e desempenho, especialmente diante da exposição contínua à luz azul.
Para Jaime Oriol, CEO e cofundador da LIVO, o movimento reflete uma mudança estrutural no setor. “Quando nós definimos iTech, o que estamos dizendo é que controlamos tudo: design, exame de vista, produção, laboratório, entrega. É alterar uma plataforma de visão por um one stop shop dos seus olhos, que traz tecnologia de ponta para valorizar o que temos de mais humano”, afirma. Aqui, a tecnologia não aparece como fim, mas como meio para integrar experiência, estética e cuidado.
Quando a ótica vira ecossistema
O conceito de eyetech marca uma virada no mercado óptico, que passa a operar menos como varejo tradicional e mais como plataforma integrada de serviços. A lógica fragmentada, em que exame de vista, escolha da armação e produção do óculos acontecem em etapas separadas, começa a dar lugar a jornadas contínuas e centralizadas. O resultado é menos fricção e novas expectativas de tempo e eficiência.
No modelo tradicional brasileiro, o processo pode levar semanas. Segundo Oriol, esse é um dos principais gargalos. “No geral, no Brasil, demora um mês para ter óculos. São duas semanas para ir ao oftalmo, voltar, para depois comprar e esperar outras duas semanas”, explica. A proposta de integração é encurtar esse ciclo, concentrando etapas em um único fluxo.
A verticalização aparece como peça-chave. Ao controlar toda a cadeia, da concepção ao produto final, as empresas ganham velocidade e capacidade de adaptação. “Em vez de um mês, você faz tudo isso em um dia. O exame dura 15 minutos, de graça na loja, e a entrega acontece em 24 horas”, afirma. Essa agilidade não se limita ao atendimento: impacta também o desenvolvimento de coleções e a resposta a movimentos culturais.
O controle da cadeia também afeta custo e inovação. Menos intermediários significam mais eficiência e possibilidade de oferecer produtos com melhor relação entre qualidade e preço. “Quando você não controla todo o processo, isso não só reduz a velocidade como aumenta o custo. O que trazemos são óculos com qualidade muito alta a um preço justo”, diz. A vantagem competitiva, aqui, está na experiência integrada.

Créditos: Divulgação
Legenda: Jaime Oriol, CEO e cofundador da LIVO
A estética do olhar
A consolidação dos óculos como marcador de identidade acompanha uma mudança mais ampla na relação com moda e acessórios. Se antes um único modelo acompanhava o usuário por anos, hoje a lógica se aproxima do vestuário, com variações que respondem a contexto, ocasião e estado de espírito. O olhar passa a ser construído de forma deliberada.
Esse movimento é impulsionado pela presença constante em ambientes digitais, onde a imagem ganha centralidade. Reuniões virtuais, redes sociais e produção de conteúdo transformam o rosto em um espaço contínuo de comunicação. Nesse cenário, os óculos funcionam como assinatura visual.
Oriol resume essa mudança ao comparar o uso dos óculos com roupas. “Antes você comprava um óculos e usava durante cinco anos. Você não usa a mesma camisa todos os dias. Óculos é identidade, é uma parte forte da linguagem cultural”, afirma. O design, então, deixa de ser apenas forma e passa a dialogar com referências culturais e estilos de vida.
Ao mesmo tempo, a engenharia óptica continua sendo a base. O equilíbrio entre estética e funcionalidade acontece na integração entre armação e lente. “Não tratamos moda como pilar isolado. Fazemos essa parte lifestyle na armação, enquanto a lente concentra a parte funcional, o exame e a entrega rápida”, explica. A tecnologia, nesse contexto, viabiliza uma personalização mais precisa.
Gen Z, tecnologia vestível e valores
A geração Z tem papel central na redefinição do consumo de tecnologia vestível. Ao naturalizar dispositivos no corpo, esse público amplia as possibilidades de integração entre função e expressão. Os óculos passam a ser consumidos ao mesmo tempo como ferramenta de saúde, acessório de moda e extensão da identidade digital.
A valorização de marcas com propósito também orienta o consumo. Sustentabilidade, rastreabilidade e impacto social deixam de ser diferenciais e passam a ser expectativa básica. Nesse contexto, ampliar o acesso à saúde visual ganha peso. “Cerca de 35% da população nunca fez um exame de vista e 80% não tem acesso adequado ao cuidado com os olhos”, destaca.
A comunicação acompanha essa virada. Em vez de influenciadores tradicionais, entram artistas e criativos, reforçando autenticidade e relevância cultural. “A ideia é contar histórias relevantes no presente, olhando para o futuro sem esquecer do passado. Não estamos disputando no preço, mas no valor cultural”, afirma.

Créditos: Divulgação
Legenda: A lógica fragmentada, em que exame de vista, escolha da armação e produção do óculos acontecem em etapas separadas, começa a dar lugar a jornadas contínuas e centralizadas
Tecnologia para humanizar
A incorporação de tecnologia no atendimento óptico não significa distanciamento. Quando bem aplicada, ela amplia a capacidade de cuidado e personalização. Automatizar processos operacionais libera tempo para interações mais qualificadas. Para Oriol, esse é o ponto central. “A tecnologia aproxima quando elimina o barulho do processo. Quando reduz a pressão, quando traz precisão e permite personalização”, diz. A integração entre canais físicos e digitais contribui para uma experiência mais fluida e alinhada às expectativas atuais.
A oferta de exames gratuitos e rápidos aparece como porta de entrada para ampliar acesso e estimular prevenção. Em um país onde grande parte da população nunca realizou um teste de visão, simplificar o processo é determinante. A proximidade física, somada à tecnologia, reduz barreiras.
Nesse cenário, a tecnologia deixa de ser substituta do humano e passa a atuar como suporte. Não automatiza a relação, qualifica. Ao integrar dados, acelerar processos e ampliar acesso, cria condições para um atendimento mais preciso e centrado no indivíduo.
O olhar como interface do futuro
As transformações apontam para um cenário em que o olhar se consolida como interface entre humanos e tecnologia. Avanços em inteligência artificial, biometria ocular e realidade aumentada indicam um futuro em que os óculos podem assumir funções ainda mais complexas, integrando informação, saúde e experiência em tempo real.
Segundo Jaime, esse caminho já está em curso. “Vamos ter descobertas em IA para personalização, com 3D da face do cliente, dados biométricos, materiais mais inteligentes e realidade aumentada para experimentar tanto na loja quanto no online”, afirma. A tendência é de integração crescente entre físico e digital.
O desafio será manter o equilíbrio. A tecnologia precisa funcionar como facilitadora de confiança, não como barreira. e traduzir dados em cuidado efetivo será o ponto-chave. Nesse contexto, o papel das chamadas iTechs se expande. “Não é viver no futuro, é ajudar a construir o futuro possível”, finaliza Oriol.
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