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Errar é humano. Será que isso torna a inteligência artificial uma de nós?
A inteligência artificial provoca discussões em todas as rodas. Desde o Bar do Anibal, instalado em um rincão da Zona da Mata, até as mais altas rodas das universidades. Discussões que, muitas vezes, dialogam com a posição de “não é possível chamar de inteligência” até […]
A inteligência artificial provoca discussões em todas as rodas. Desde o Bar do Anibal, instalado em um rincão da Zona da Mata, até as mais altas rodas das universidades. Discussões que, muitas vezes, dialogam com a posição de “não é possível chamar de inteligência” até posições que debatem a provável bolha do setor. Apesar das discussões, o fato de milhões de pessoas estarem falando sobre seu uso e, outras, normalizando a ferramenta em seu cotidiano, deixa claro que ela deixa de ser um fenômeno de curta direção e passa a ser onipresente na vida das pessoas.
A inteligência artificial não é nova. Na década de 40 no século passado começaram as discussões sobre as redes neurais. O termo inteligência artificial foi proposto em uma conferência na Universidade de Dartmouth, nos EUA, em 1956. Dez cientistas formularam a ideia de que máquinas poderiam ser programadas para simular a inteligência humana. Aqui vale a primeira ressalva: eles não disseram que as máquinas pensariam como humanos mas sim que simulariam a inteligência humana. Simulações do objeto nunca são o objeto. Nesse campo sempre é preciso resgatar o inglês Alan Turing, que com sua “máquina universal” deu as bases para a inteligência artificial de maneira objetiva.
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Durante todo esse período a Inteligência artificial foi personagem de ficção no cinema, na literatura e começou a entrar no cotidiano das famílias. Muitas vezes sem falar abertamente seu nome. Lembra dos assistentes voz? Surgiram e ganharam uso em 2008. Usam inteligência artificial. Como você acha que funcionam os aplicativos que oferecem rotas, avisam para você se existem acidentes ou indicam tempestades? Aliás, você não imagina que os avisos de tempestades sejam disparados de uma sala de reuniões em que meteorologistas ficam sentados discutindo o que vai acontecer. Equipamentos fazem as análises, compilam os dados, disparam alertas e outras coisas mais. Enfim, você já usa a IA mesmo sem usar. Se não quiser chamar de inteligência, tudo bem. Pode adotar outro nome. Eu sugiro Iaia. Acho musical, carnavalesco e com certa leveza.
A entrada da inteligência artificial na vida de todas as pessoas é inevitável. Carrega os mesmos problemas das redes sociais e os riscos de monopólio de opiniões da internet. Mas demonizar sem compreender não vai fazer o processo refluir. O Brasil tem mais celulares do que pessoas. A enorme maioria da população, 84% dos brasileiros com mais de 10 anos, segundo o a pesquisa TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) desenvolvidas pelo Cetic.br – Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, tem acesso â internet. São 159 milhões de pessoas. Em 60% dos casos a conexão é feita por celulares. Isso significa que a estrutura de uso já está pronta. Já existem os equipamentos, a infraestrutura e o conhecimento de uso. Quem pesquisava no Google vai pesquisar com facilidade nas outras ferramentas. O Google, aliás, já responde pesquisas usando mecanismos de IA. Quer uma prova disso? No início do mês do mesmo Cetic.br divulgou que 50 milhões de brasileiros já incorporaram o uso de IA em seu cotidiano.
Uma das maiores críticas é de que a inteligência artificial erra muito. É fato. Mas é preciso compreender que ela erra menos se o ambiente de coleta de dados for fechado. Analisar uma planilha fechada é mais seguro do que soltar uma pergunta em mar aberto. Então, em ambientes fechados as respostas tendem a ser cada vez mais assertivas. Hospitais analisam seus prontuários e procedimentos, coletam e tratam os dados e fornecem respostas a dúvidas frequentes. Potencialmente reduzem erros pois compilam experiências reais.
Já navegando em mar aberto os riscos são maiores e, por isso merecem sempre o uso cuidadoso e revisado com frequência. A inteligência artificial alucina, colhe dados em fontes que podem ser produtoras de notícias falsas, confunde palavras se os prompts não forem semanticamente cuidadosos e outros problemas. Faz tudo isso com a conivência de humanos, que erram nas perguntas, usam de maneira equivocada e, pior, não olham os resultados. A lei do menor esforço nunca é um bom caminho.
O fato é que a inteligência artificial, Iaia para os íntimos, é um caminho sem volta. Não é humana, não é infalível e é preciso confiar desconfiando. Mas vai entrar mais a cada dia na vida de todos. Negar isso é um erro e um risco de submergir em um mundo que muda a cada dia. Não entender como ela funciona é um erro. Embora errar seja humano, lembre-se que o ditado falava sobre persistir no erro de maneira pouquíssimo elogiosa.
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