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E se o botão do fim do mundo desligasse toda forma de Inteligência Artificial do planeta?
No período da Guerra Fria, no século passado, proliferaram livros e filmes sobre a existência de um botão do fim do mundo. Ele seria um único botão, colocado em um bunker superprotegido que, ao sinal de um ataque de uma superpotência faria com que um […]
No período da Guerra Fria, no século passado, proliferaram livros e filmes sobre a existência de um botão do fim do mundo. Ele seria um único botão, colocado em um bunker superprotegido que, ao sinal de um ataque de uma superpotência faria com que um revide imediato de enormes proporções geraria a hecatombe que aniquilaria a humanidade. Vilões de todas as estirpes e heróis de todos os tipos já defenderam a humanidade de botões semelhantes em obras de ficção. Mais recentemente as grandes crises globais apareceram como a possibilidade de um vilão ou corporação global dominasse os sistemas de comunicação e transações globais. Com um computador (mas sempre com uma tecla definitiva) toda a comunicação do mundo estaria sob controle.
Na nova ficção botão do fim do mundo desligaria toda forma de Inteligência Artificial. Se existisse tal botão a cena a seguir não seria poética nem tecnológica: seria um colapso silencioso. Não veríamos robôs caindo no chão nem telas azuis apocalípticas. Veríamos algo mais desconcertante: a descoberta de que a nossa vida digital só funciona porque, há anos, terceiramos decisões para sistemas que insistimos em chamar de “algoritmos”, como se não fossem justamente isso, Inteligências Artificiais espalhadas por todo lado.
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A ironia é que essa história não começa com o ChatGPT, nem com a onda de IA generativa que tomou conta das manchetes, dos nossos smartphones, tablets computadores. A IA, como campo de pesquisa, se formaliza nos anos 1950, vira promessa, depois decepção, depois infraestrutura. Durante décadas, ela viveu escondida atrás de nomes pouco populares: sistema de recomendação, modelo de risco de crédito, motor de busca e até filtro de spam. Tudo isso é IA. Só não chamávamos assim porque dava menos medo fingir que era apenas software.
Entrou em sua casa. E não vai sair
Quando falamos que a IA chegou para todos, o que realmente aconteceu foi outra coisa: ela ganhou rosto. Passamos a reconhecer a ferramenta quando ela começou a conversar em linguagem natural, escrever textos, responder dúvidas da escola, resumir relatórios e muitas outras coisas. De repente, a IA virou colega de trabalho, colega de classe sabido e parceiro de brainstorming. Mas, muito antes disso, ela já mandava no que aparece em muitas de suas atividades, orientando caminhos e definindo se você poderia ter aumento em seu limite do cartão de crédito.
Desligar tudo isso de uma só vez seria, em primeiro lugar, um choque de identidade. Descobriríamos, da forma mais dura possível, que parte considerável das nossas escolhas era mediada por máquinas treinadas para prever nosso comportamento. Existem coisas banais sem as quais viveríamos sem problema nenhum. O streaming deixaria de recomendar filmes para nosso perfil. As redes sociais deixariam de direcionar conteúdo. Os buscadores que parecem entender o que perguntamos por uma afinidade de contexto anterior nos dariam listas de recomendações infinitas e sem filtros. Mas viveríamos muito bem sem isso.
Claro que teríamos que nos adaptar aos processos de compra em marketplaces, que sem IA seriam muito mais problemáticos, como entrar em um supermercado gigantesco que não conhecemos para comprar qualquer produto. E teríamos que nos adaptar a vivermos sem os aplicativos de mapas de trânsito. Teríamos nas telas dos celulares apenas mapas. Sem voz, inclusive, pois sem a IA não teríamos a atualização dos dados. Aquelas compras estranhas em seu cartão de crédito não seriam mais notadas.
No mundo do trabalho voltaríamos às calculadoras e planilhas, às revisões de texto e de números feitas “na unha” e às agendas de reuniões em papel. Anotações digitais de eventos e transcrições de conversas deixariam de existir. A educação sobreviveria sem problemas como sobrevive a séculos. Mas teríamos alguns passos para trás. A tecnologia não seria mais aliada, seria entrave. Os games deixariam de existir. Os alunos conviveriam mais entre si. É verdade. Somos saudosistas pensando que nossa infância há 30 ou 40 anos foi muito melhor. Mas nós adoraríamos ter as máquinas disponíveis da época em casa. A tecnologia gera encantamento. Eu trocaria meu álbum de figurinhas por uma máquina de fliperama na sala sem pestanejar.
A dimensão mais incômoda está na segurança e na infraestrutura. Sistemas de detecção de fraude em bancos, filtros de spam em e-mails, análise automatizada de padrões suspeitos em redes corporativas, tudo isso depende de IA. Descobrir onde aconteceu um apagão, as causas e a reação, idem. Alertas de catástrofes dependes de sistemas de medição e análise probabilística de riscos e recomendações. Ao desligar essas engrenagens, renunciaríamos a defesas que, hoje, são invisíveis, mas decisivas.
Não é possível retornar ao passado. Nem desejável
Por trás dessa ficção, há uma provocação. Passamos anos tratando IA como futuro, como se fosse algo que chegaria amanhã. Enquanto isso, ela se infiltrou em todas as camadas do cotidiano. Agora, quando a tecnologia ganha uma interface falante e nos encara de frente, fingimos que o problema começa ali. Não começa. O que começa agora é a nossa responsabilidade de discutir regulação, transparência, limites éticos e, principalmente, dependência.
Desligar todas as IAs hoje seria um desastre, e isso é precisamente o ponto: já não temos a opção de fingir que dá para simplesmente voltar atrás. A questão não é se vamos viver com IA, mas como. Fingir que é só uma moda de aplicativos é confortável e falso. A Inteligência Artificial já é parte do micélio da sociedade conectada. O mínimo que podemos fazer, então, é parar de tratála como truque de mágica e encarála pelo que é: uma infraestrutura de poder, tão decisiva quanto a eletricidade ou a internet. E, como toda infraestrutura de poder, ela precisa menos de encantamento e mais de vigilância crítica em a ilusão de que ela não seguirá avançando sobre usuários e a cognição humana. O homem das cavernas não nos salvará.
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