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Discord no Brasil: da comunidade gamer à crise após morte de adolescente de 13 anos
O Discord está novamente no centro de uma polêmica no Brasil. O que é a plataforma e como ela funciona? O Estado e a família precisam ficar atentos. E agir
O Discord, plataforma de comunicação criada em 2015 para gamers, está no centro de uma investigação federal no Brasil após a morte de uma adolescente de 13 anos em Naviraí (MS), segundo as denúncias, induzida à automutilação em um grupo virtual.
O que é o Discord e quando foi criado?
O Discord foi fundado em maio de 2015 pela empresa Hammer & Chisel, de Jason Citron e Stan Vishnevskiy, que originalmente desenvolvia o jogo Fates Forever e precisava de uma ferramenta de chat de voz estável para jogadores. O nome, escolhido de forma irônica pelos fundadores, remete à palavra inglesa para “discórdia”, mesmo com o propósito da plataforma sendo unir pessoas por meio da comunicação.
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Quantos usuários o Discord tem no mundo?
Embora não existam números precisos, sabe-se que o Discord soma entre mais de 700 milhões de contas registradas globalmente, com 200 a 260 milhões de usuários ativos por mês. É como se mais do que toda a população brasileira estivesse no Discord mensalmente. O crescimento mais acelerado vem de mercados fora do eixo anglófono — Sudeste Asiático, América Latina e região MENA somaram 61 milhões de novos usuários só entre janeiro e outubro de 2025.
Qual é o caso de Naviraí envolvendo o Discord?
Em 22 de julho último, uma adolescente de 13 anos foi encontrada morta em Naviraí (MS) após, segundo as denúncias, ser pressionada por um grupo virtual a cumprir desafios de automutilação, incluindo a ordem de matar quatro gatos. A Operação Lívia, deflagrada em 4 de agosto pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, apura se o grupo usava Discord e Telegram para atrair vítimas, majoritariamente meninas, e disseminar conteúdo neonazista e misógino, com mandados cumpridos em cinco estados.
Como o governo brasileiro reagiu ao caso?
A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu processo de fiscalização contra o Discord por possíveis falhas na proteção de menores contra conteúdos ligados a suicídio e automutilação. A ANPD também determinou a suspensão da função “Go Live” do Discord no Brasil, como medida preventiva diante de evidências de que a ferramenta vinha sendo usada recorrentemente em episódios de violência, assédio e indução à automutilação e ao suicídio envolvendo menores de 18 anos. Segundo a ANPD, a arquitetura técnica do Discord impede o acesso da própria empresa ao conteúdo das transmissões durante sua exibição, o que inviabiliza mecanismos de análise em tempo real para detectar violações.
A Advocacia-Geral da União (AGU) também cobrou da empresa um plano de adequação às exigências do ECA Digital, com prazo definido para apresentação de medidas corretivas.
Para entender o tamanho do problema: quantas crianças e adolescentes usam internet no Brasil?
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil, 93% da população de 9 a 17 anos já usa internet, o equivalente a 24,5 milhões de pessoas, com 95% acessando a rede diariamente. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, o uso diário chega a 98%, e 29% dos jovens de 11 a 17 anos já enfrentaram situações ofensivas online.
O Discord tem controle parental? Como ativar
Sim. O recurso chamado Central de Família permite que responsáveis vinculem a conta do filho via QR Code e recebam relatórios semanais de atividade. O passo a passo básico é:terra.com+1
- No app do adolescente, acessar o perfil e abrir “Central da Família”.
- Selecionar “Conectar com o responsável” para gerar o código QR.
- No app do responsável, ir em “Central da Família > Minha Família” e escanear o código.
- Acompanhar o painel com servidores acessados, contatos frequentes e tempo em chamada.
Outros ajustes recomendados incluem ativar “Mantenha-me Seguro”, que faz varredura automática de imagens recebidas contra conteúdo explícito, e desativar mensagens diretas de desconhecidos em servidores.
O que o Discord mudou após os escândalos?
A partir de março de 2026, o Discord passou a exigir verificação de idade por identificação facial e documento para liberar áreas específicas da plataforma, além de criar um Conselho de Adolescentes para opinar sobre políticas futuras. A mudança ocorre em meio à vigência do ECA Digital no Brasil, que obriga plataformas a confirmar idade, responsabiliza redes por conteúdo ilegal e permite supervisão parental.
Guia prático para lidar com a vida digital de crianças e adolescentes
Diante do avanço de casos como o de Naviraí, especialistas em segurança digital infantil recomendam uma abordagem estruturada, que combine diálogo, ferramentas técnicas e acompanhamento constante — sem transformar a relação com os filhos em vigilância policialesca. Abaixo, um roteiro prático organizado por etapas.
Antes de liberar o acesso
- Estabeleça a idade mínima com critério: quanto mais nova a criança, maior a necessidade de supervisão direta. Plataformas como o Discord recomendam 13 anos como idade mínima, mas isso não significa maturidade emocional para lidar com estranhos online.
- Combine regras em conjunto, não como imposição: defina horários de uso, tipos de conteúdo permitidos e em quais ambientes o celular ou computador pode ser usado (evitar quarto fechado à noite, por exemplo).
- Crie a conta junto com o filho, usando um e-mail supervisionado, para acompanhar processos de verificação e recuperação de senha.
Configurações técnicas essenciais
- Ative os controles parentais nativos do Discord, do sistema operacional e do roteador de internet doméstico, restringindo contato de desconhecidos e mensagens diretas.
- Restrinja quem pode enviar solicitações de amizade e mensagens privadas, deixando essa opção limitada a “amigos de amigos” ou desativada para estranhos.
- Desative o compartilhamento automático de localização e a entrada em servidores públicos sem aprovação prévia de um adulto.
- Instale ferramentas de monitoramento de atividade (sem necessariamente ler cada mensagem), que alertam para padrões de risco, como uso excessivo à noite ou picos de atividade incomuns.
Diálogo e educação digital
- Converse sobre riscos sem gerar medo paralisante: o objetivo é que a criança recorra a você diante de qualquer situação estranha, não que evite o assunto por vergonha ou medo de punição.
- Explique o conceito de “pegadinha emocional” usado por aliciadores — promessas de amizade, pertencimento ou até “desafios” que escalam gradualmente até pedidos de conteúdo íntimo ou atos de automutilação.
- Reforce que nenhuma pessoa confiável pede segredo absoluto, fotos íntimas ou que a criança se afaste da família e amigos reais.
- Ensine a diferenciar perfis reais de perfis falsos, observando inconsistências, poucas interações antigas e pressa em aprofundar a relação.
Sinais de alerta para observar
- Isolamento social repentino, queda no rendimento escolar ou abandono de atividades que antes davam prazer.
- Uso do celular escondido, ansiedade visível ao ser interrompido durante o uso ou troca constante de senhas.
- Mudanças de humor associadas a determinados horários de uso, especialmente à noite.
- Presença de novos “amigos” online que a criança não quer identificar ou descrever.
Em caso de suspeita ou incidente
- Não apague as conversas: elas são prova essencial para investigação policial e para o próprio Disque 100 ou Safernet.
- Denuncie imediatamente pelo canal da Safernet (safernet.org.br) ou pelo Disque 100, além de registrar boletim de ocorrência.
- Acione apoio psicológico especializado em trauma digital, evitando culpar a criança pelo ocorrido — isso é fundamental para que ela continue confiando nos adultos.
- Reporte o conteúdo e o perfil diretamente na plataforma, usando as ferramentas de denúncia do próprio Discord.
O papel compartilhado
Nenhuma dessas medidas substitui a combinação entre supervisão ativa dos pais, ferramentas de segurança das plataformas e fiscalização do Estado via ECA Digital — os três pilares precisam funcionar juntos para reduzir a exposição de crianças e adolescentes a riscos que, como mostrou o caso de Naviraí, podem ter consequências fatais.
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