ToqueTec

CodeHerBot: O Boticário entra na luta contra a violência digital contra mulheres

Em um cenário onde a IA amplia a violência digital, iniciativa nos lembra que a internet não é terra sem lei – e tampouco nossos corpos

CodeHerBot: O Boticário entra na luta contra a violência digital contra mulheres
CodeHerBot: O Boticário entra na luta contra a violência digital contra mulheres
Apoie Siga-nos no

A inteligência artificial prometia organizar o caos: otimizar rotinas, automatizar tarefas, ampliar o repertório criativo. Mas, como costuma acontecer com toda tecnologia vendida como solução universal, ela também encontrou uma forma mais eficiente de escalar problemas antigos. Entre eles, um dos mais persistentes: a exposição indevida da imagem de mulheres. A diferença é que agora não dá mais para chamar de exceção. O que antes exigia algum domínio técnico, ou no mínimo esforço, virou prompt. Uma frase, um comando simples, e pronto: a violência ganha forma, escala e, talvez o mais preocupante, naturalidade.

Os números não deixam muito espaço para relativização. Dados da SaferNet Brasil mostram que, em 2026, as denúncias de misoginia, violência e discriminação contra mulheres cresceram 224,9%. Não é só um salto estatístico, é um sintoma. Um indicativo de que a tecnologia não inaugura esse tipo de violência, mas a profissionaliza. O corpo feminino, como sempre, segue sendo território em disputa. A novidade é o mediador: algoritmos que não precisam entender contexto, ética ou consentimento; apenas executar.

Leia também:

Se antes a manipulação exigia habilidade, agora exige intenção. E, convenhamos, intenção nunca foi exatamente um recurso escasso especialmente para homens machistas, misóginos e mal intencionados. É nesse terreno que começam a surgir respostas que tentam jogar o jogo com as mesmas regras. Não como solução definitiva, longe disso, mas como tentativa de reequilibrar uma equação que claramente saiu do eixo – por tempo demais.

Quando a tecnologia precisa consertar sua própria bagunça

O CodeHerBot, lançado pelo O Boticário, nasce desse desconforto: o encontro direto entre inovação e vulnerabilidade. Ele surge depois de uma campanha da marca com a cantora Marina Sena ser publicada nas redes sociais. Mas o que era para ser apenas uma belíssima foto da artista divulgando sua parceria com a linha Her Code se tornou – pasmem – alvo de um crime: homens passaram a pedir para que o Grok (inteligência artificial do X) recriasse a foto de Marina, só que com ela nua, seminua e em posições sexuais.

O episódio não aconteceu no vácuo. O próprio Grok já vinha sendo alvo de críticas e investigações por permitir a geração de imagens íntima, principalmente de mulheres, sem consentimento delas, expondo uma fragilidade estrutural da ferramenta. Antes mesmo de qualquer contenção mais séria, a reação de Elon Musk ajudou a dar o tom do problema: em resposta à repercussão, o bilionário compartilhou uma versão gerada por IA de si mesmo de biquíni, como se a questão fosse apenas um meme mal interpretado, e não um padrão de violência direcionado. A tentativa de ironizar a situação escancara um descompasso difícil de ignorar entre quem desenvolve essas tecnologias e quem, de fato, arca com suas consequências. Quando a resposta vem em forma de piada, o recado implícito é claro: o problema ainda não está sendo levado a sério por quem tem poder para mudá-lo.

E é justamente por isso que nós, mulheres, não pudemos contar com o (aqui, adicione o adjetivo que preferir) Musk como um catalisador da solução do problema. Ela veio da proposta simples e, justamente por isso, reveladora do O Boticário. A ferramenta opera dentro do X monitorando imagens publicadas por usuárias e identificando tentativas de manipulação por IA, especialmente via Grok. Detectou intervenção? O conteúdo é automaticamente ocultado.

Existe uma ironia quase elegante aí. Para proteger a própria imagem, é preciso convocar outro sistema automatizado, uma espécie de vigilância consentida. Basta marcar o bot e delegar a ele o papel de guardião digital. Prático, sim. Mas também sintomático de um cenário em que a autoproteção virou mais uma tarefa mediada por tecnologia.

O bot não só bloqueia, como também orienta. Ao identificar uma tentativa de manipulação, dispara alertas com caminhos de denúncia e informações sobre direitos. Há ainda uma cartilha digital que reforça o óbvio que muitas vezes se perde: o problema não é só técnico, é jurídico e estrutural. O ponto interessante aqui é a inversão de lógica. Em vez de reagir ao dano, a ferramenta tenta interceptá-lo antes que ele circule. Em um ambiente onde a viralização é praticamente instantânea, agir antes deixou de ser diferencial e virou necessidade básica.

Créditos: Reprodução/X

Legenda: A foto da campanha do O Boticário com Marina Sena que sofreu ataques digitais

Terra sem lei…?

Se a violência digital já era um problema consolidado, a inteligência artificial não só adiciona complexidade, ela muda a escala do jogo. Ferramentas capazes de sexualizar, distorcer ou recriar imagens em segundos transformam qualquer foto pública em matéria-prima para abuso. Com custo próximo de zero e esforço mínimo. O episódio envolvendo Marina Sena é quase didático nesse sentido: não é desvio de comportamento. É padrão emergente.

A mudança aqui não é só qualitativa, é estrutural. O que antes circulava em fóruns obscuros ou exigia softwares específicos agora acontece dentro das próprias plataformas sociais, integrado ao fluxo cotidiano. A violência deixa de ser marginal e passa a ser funcional. E isso altera tudo: velocidade de disseminação, capacidade de contenção e, principalmente, a sensação de normalidade. Quando tudo vira ferramenta, qualquer limite parece opcional.

No papel, o Brasil não está desprotegido. Leis como a Carolina Dieckmann, o Marco Civil da Internet, a Lei do Stalking e a Lei Rose Leonel formam um arcabouço robusto para lidar com violações desse tipo. A Lei Rose Leonel, em especial, tenta acompanhar o presente: responsabiliza a criação, manipulação e divulgação de conteúdos íntimos sem consentimento, incluindo aqueles gerados por IA. É uma atualização necessária, e ainda assim insuficiente diante da velocidade das plataformas.

Porque o problema raramente é a ausência de lei. É o timing. Quando a denúncia é formalizada, o conteúdo já circulou, foi replicado, remixado e, muitas vezes, perdeu qualquer possibilidade de rastreio efetivo. A justiça chega, mas chega depois. E é justamente nessa lacuna que ferramentas como o CodeHerBot tentam se encaixar. Não substituem o sistema jurídico, mas encurtam o intervalo entre a tentativa de violação e a reação. E, hoje, esse intervalo é tudo.

Posicionamento vira produto

Há também um deslocamento interessante, e estratégico, no papel das marcas. Durante anos, causas sociais foram tratadas como discurso: campanhas bem produzidas, manifestos emocionais, posicionamentos cuidadosamente roteirizados. Impacto simbólico alto, efeito prático discutível. O CodeHerBot opera em outra lógica. Ele não fala sobre o problema, ele interfere nele. Atua dentro da plataforma, altera o fluxo e entrega uma funcionalidade concreta. Deixa de ser narrativa e passa a ser infraestrutura.

Isso responde a uma expectativa que já não é nova, mas agora é mais explícita: não basta reconhecer a questão, é preciso operar sobre ela. Especialmente quando o tema é segurança digital e violência de gênero, ou seja, quando o impacto não é abstrato, é cotidiano. Ao entrar nesse território, O Boticário expande seu campo de atuação. Sai da conversa sobre estética e entra em uma discussão sobre autonomia, controle e presença digital. Não é exatamente uma ruptura, é mais uma adaptação ao momento. E, de certa forma, ao mercado que começa a cobrar esse tipo de movimento. Ferramentas como o CodeHerBot não resolvem o problema, mas deixam claro que ignorá-lo já não é uma opção.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo