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A moda está aprendendo a testar o futuro antes de produzi-lo
Com inteligência artificial e modelagem 3D, marcas de moda podem experimentar roupas virtualmente antes de fabricar amostras, mudando a lógica de criação e abrindo espaço para uma indústria mais precisa
Imagine uma coleção que começa a ser produzida sem tecido, máquina de costura ou sequer uma peça física. Antes de chegar à fábrica, uma roupa pode existir como modelo digital, ganhar diferentes cores, proporções e materiais e ser avaliada em uma tela. Se a ideia não funcionar, ela pode ser descartada sem que uma amostra precise ser cortada. Se funcionar, pode avançar para as etapas seguintes com mais informações sobre o que realmente vale a pena produzir.
Durante décadas, experimentar uma ideia de moda significou materializá-la. O processo envolve desenho, modelagem, escolha de tecido, confecção de amostras, ajustes, fotografia e novas versões até que a peça esteja pronta para chegar ao mercado. Cada tentativa exige tempo, mão de obra, matéria-prima e logística, inclusive quando o resultado final é uma roupa que nunca será vendida. A inteligência artificial e as ferramentas de criação em 3D começam a deslocar parte desse processo para o ambiente digital.
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É nesse ponto que surge uma contradição interessante. Uma tecnologia capaz de gerar centenas ou milhares de possibilidades pode não estar necessariamente empurrando a moda para produzir mais, mas ajudando a indústria a decidir melhor o que deve chegar à produção. Para Adriana Hoppenbrouwer-Pereira, cofundadora e diretora da The Fabricant, essa foi justamente uma das perguntas que deram origem à empresa. “Por que é que a moda precisa de produzir uma peça física para descobrir se a ideia funciona?”, questiona. A partir dessa provocação, a tecnologia passa a ser menos uma ferramenta para criar imagens e mais uma forma de repensar o próprio processo de desenvolvimento de produtos.
E se a melhor roupa fosse aquela que nunca chegou a ser fabricada?
A questão não é imaginar um armário inteiramente virtual, mas entender o que acontece antes de uma peça chegar até ele. Para criar uma roupa, equipes precisam tomar decisões sobre silhueta, proporção, tecido, cor, estampa e acabamento. Tradicionalmente, muitas dessas escolhas são testadas por meio de amostras físicas, que precisam ser produzidas, avaliadas e modificadas. Quando uma alternativa é descartada, parte dos recursos empregados naquele teste também deixa de ter utilidade.
A The Fabricant nasceu a partir dessa lógica. Segundo Adriana, antes de fundar a empresa, ela passou duas décadas trabalhando na indústria da moda e do varejo, nas áreas de marketing e comercial. Em 2018, a empresa começou trabalhando com roupas digitais, em um momento em que esse conceito ainda era frequentemente associado a experiências criativas e virtuais. Para a executiva, porém, o valor estava em outro lugar: uma peça poderia existir e ser avaliada antes de ser produzida fisicamente. “Quanto é que uma marca gasta ao descobrir o que não vai vender”, resume.
Essa ideia ajuda a explicar uma mudança importante na trajetória da empresa. Como conta Adriana, a moda digital deixou de ser entendida apenas como um produto final e passou a funcionar como método de trabalho. “No início a peça digital era o fim. Agora é uma etapa: serve para decidir, testar e preparar a produção”, afirma. A transformação também aproxima a tecnologia de áreas que tradicionalmente não estavam associadas à moda digital, como design e cadeia de fornecimento.
O movimento ocorre em um momento em que a inteligência artificial já começa a ser incorporada a diferentes áreas da indústria. Segundo a edição de 2026 do relatório State of Fashion, produzido por McKinsey e Business of Fashion, mais de 35% dos executivos consultados disseram que suas empresas já utilizavam IA generativa em funções como criação de imagens, atendimento, redação, busca e descoberta de produtos. O relatório também aponta que as empresas estão deslocando parte das funções para atividades de maior valor criativo e analítico. A adoção, portanto, não está restrita à criação de campanhas ou imagens para redes sociais. A tecnologia começa a participar de processos internos de decisão e desenvolvimento.
A IA pode criar milhares de roupas antes de uma única chegar à fábrica
No processo de criação, a inteligência artificial pode ser usada para testar variações de uma mesma proposta sem que cada uma delas precise virar imediatamente uma amostra. Uma silhueta pode ganhar novas proporções, uma peça pode ser visualizada em diferentes cores e materiais e uma ideia pode ser observada em diferentes contextos antes da produção. A modelagem tridimensional acrescenta outra camada ao processo ao permitir simular aspectos como caimento e construção da roupa. A combinação dessas tecnologias transforma a tela em um espaço de experimentação.
A própria The Fabricant descreve sua plataforma atual como uma ferramenta voltada a profissionais de moda, com recursos para visualizar coleções, digitalizar tecidos e criar ativos de comércio eletrônico. Segundo a empresa, sua tecnologia também permite trabalhar com prototipagem virtual e visualizar aspectos como caimento, textura e ajuste. Esses números são divulgados pela própria companhia e, portanto, devem ser entendidos como métricas apresentadas pela fornecedora da tecnologia, não como uma avaliação independente. Ainda assim, mostram como o mercado está tentando transformar a criação digital em uma etapa operacional do desenvolvimento de produtos.

Créditos: Divulgação
Legenda: Adriana Hoppenbrouwer-Pereira, cofundadora e diretora da The Fabricant
Para Adriana, o ponto central está justamente em não confundir capacidade de geração com avanço para a indústria. “A maior contribuição da IA será criar mais produtos ou ajudar a decidir melhor o que vale a pena produzir? Decidir melhor”, afirma. Na avaliação dela, criar milhares de alternativas é relativamente simples diante das possibilidades atuais da tecnologia, enquanto o problema histórico da moda está relacionado ao excesso de produtos que não encontram demanda. A IA, nesse sentido, pode funcionar como uma espécie de filtro anterior à fabricação.
Essa mudança também aparece na evolução das ferramentas de criação digital. Em 2026, a The Fabricant passou a apresentar soluções que conectam diferentes etapas, como geração de roupas, edição de peças, aplicação de referências visuais e criação de imagens com modelos virtuais. A empresa também desenvolveu fluxos em que um esboço pode ser transformado em uma representação mais próxima do produto final sem que cada etapa precise ser executada isoladamente. Isso indica uma tentativa de aproximar a IA do fluxo de trabalho real de uma equipe de moda. A questão deixa de ser apenas “o que a IA consegue imaginar?” e passa a ser “em que momento essa imagem pode ajudar uma decisão de produto?”.
O novo protótipo pode existir apenas na tela
Se o protótipo deixa de ser obrigatoriamente físico, muda também o significado de testar uma roupa. Adriana afirma que, nesse cenário, “o protótipo físico deixa de ser o instrumento de descoberta e passa a ser a confirmação de uma decisão já tomada”. Em outras palavras, a amostra não desaparece necessariamente, mas pode chegar mais tarde ao processo, quando a equipe já eliminou virtualmente parte das alternativas. O objetivo é reduzir a quantidade de tentativas materiais necessárias para chegar ao produto final.
Uma revisão científica publicada em 2025 na revista Textile Research Journal analisou o impacto de tecnologias de amostragem em 3D, incluindo soluções como CLO 3D, Optitex, Lectra e Browzwear. O estudo revisou aplicações dessas ferramentas em relação à amostragem física e apontou seu potencial para reduzir desperdícios de materiais, custos e tempo de desenvolvimento. A pesquisa também destaca a relação entre digitalização, eficiência e sustentabilidade na indústria de vestuário. O trabalho não trata a tecnologia como solução automática para os problemas ambientais da moda, mas como uma ferramenta capaz de alterar uma etapa específica da cadeia produtiva.
Outro estudo publicado em 2025 analisou, por meio de avaliação simplificada do ciclo de vida, diferentes cenários de desenvolvimento de uma camiseta com uso de amostragem virtual em 3D. Na comparação feita pelos pesquisadores, o cenário totalmente digital apresentou uma redução aproximada de 95% na carga ambiental agregada em relação ao método convencional analisado. O resultado, porém, está relacionado ao caso estudado e não significa que toda aplicação de prototipagem virtual produzirá a mesma redução. O próprio estudo também aponta que ainda existem desafios para conectar os dados gerados no ambiente 3D a sistemas mais amplos de rastreabilidade.
Na visão de Adriana, uma das mudanças mais importantes está justamente no que acontece antes de qualquer roupa chegar à loja. “O protótipo passa a ser barato e reversível”, afirma. Segundo ela, quando testar deixa de exigir tecido, tempo e transporte em cada tentativa, os designers podem experimentar mais sem necessariamente aumentar o desperdício material. A digitalização também pode reduzir o chamado time to market, permitindo que as equipes ajustem produtos com base em informações mais próximas do comportamento atual do consumidor.
Isso não significa, porém, que a tecnologia transforme automaticamente a indústria em um modelo sustentável. Adriana é direta sobre o risco: “A tecnologia não tem uma direção moral própria”. Se uma marca utilizar as ferramentas para multiplicar o número de coleções e referências, a eficiência digital pode simplesmente acelerar uma lógica de produção excessiva. A diferença está na decisão tomada a partir da ferramenta, e não na ferramenta isoladamente. “Quem quer produzir menos e melhor agora tem os dados para o justificar. Quem quer produzir mais também”, afirma.

Créditos: Divulgação
Legenda: A interface da plataforma The Fabricant
Do provador virtual à fábrica virtual
Há um paralelo cada vez mais evidente entre a experiência do consumidor e o processo interno das marcas. No comércio eletrônico, tecnologias de provador virtual permitem que uma pessoa visualize como determinada roupa pode ficar antes de decidir pela compra. Em 2025, a evolução da IA generativa ampliou esse tipo de recurso, tornando as representações mais realistas e permitindo que varejistas explorem novas formas de apresentar produtos digitalmente. O consumidor passa a experimentar antes de comprar.
Do outro lado da cadeia, a indústria pode começar a experimentar antes de fabricar. A lógica é parecida, mas aplicada em uma etapa anterior: em vez de perguntar apenas se determinada pessoa compraria uma peça, a empresa pode testar diferentes versões antes de decidir qual delas merece investimento físico. Isso aproxima design, dados e produção em um mesmo fluxo. A roupa digital deixa de ser apenas uma representação para divulgação e passa a funcionar como uma ferramenta de decisão.
Adriana resume essa transformação ao falar sobre o trabalho que normalmente não aparece para o consumidor. Fichas técnicas, moldes, variações de cor e adaptações para diferentes mercados podem consumir semanas de trabalho manual, segundo ela. Com ferramentas digitais, parte dessas tarefas pode ser acelerada ou automatizada. “O consumidor vê a imagem final e assume que a mudança é estética. A mudança real está no processo que a antecede”, afirma.
A conexão entre criação e fabricação ainda é, no entanto, uma das fronteiras que a indústria precisa resolver. Adriana explica que a tecnologia já avançou na representação visual, mas o próximo passo está em transformar o que foi desenhado digitalmente em informações que uma fábrica consiga utilizar sem retrabalho. Isso envolve moldes, fichas técnicas e outros elementos necessários para transformar uma representação em produto. A The Fabricant trabalha nessa direção e prevê um lançamento relacionado a essa etapa para o fim de 2026.
Se todo mundo pode criar, quem decide o que merece existir?
A democratização das ferramentas também muda a relação entre moda e autoria. Um profissional que antes precisava de recursos para produzir amostras, contratar fotografia e desenvolver protótipos pode conseguir visualizar uma ideia com menos investimento inicial. Para Adriana, essa redução de custo pode alterar a porta de entrada da indústria. “O que travava um designer independente não era a ideia, era o custo de a tornar visível e reproduzível”, afirma. Com a diminuição dessas barreiras, ela vê espaço para o crescimento de mais micro marcas e, consequentemente, para uma maior diversidade no mercado.
Dados de 2026 também mostram que o impacto da IA sobre as profissões da moda é uma questão em aberto. Uma pesquisa da Vogue Business com mais de 300 profissionais e estudantes de moda e beleza mostrou que 43% dos participantes se sentiam positivos ou muito positivos sobre o impacto futuro da IA em suas carreiras, enquanto 32% tinham uma percepção negativa ou muito negativa e 25% permaneciam neutros. O levantamento revela uma divisão que vai além da discussão sobre produtividade. A adoção da tecnologia também envolve expectativas sobre formação profissional, segurança no trabalho e mudança de funções.
Nesse cenário, a criatividade pode mudar de lugar. “Na escolha, e no critério”, responde Adriana quando questionada sobre onde estará a criatividade diante da capacidade de geração da IA. Para ela, produzir mil alternativas não é a principal dificuldade, porque saber qual delas tem significado, para quem e por quê continua dependendo de uma perspectiva humana. “O que a máquina não tem é ponto de vista”, afirma. A frase sintetiza uma mudança de função: quanto mais fácil fica gerar possibilidades, mais importante pode se tornar saber selecionar entre elas.
Esse desafio também aparece na questão da identidade. Adriana reconhece o risco de uma moda visualmente homogênea se diferentes profissionais utilizarem as mesmas ferramentas, de maneira semelhante e alimentadas pelos mesmos dados. Para ela, a resposta está no material de origem, como arquivos próprios, tecidos, moldes e referências de cada marca. “A homogeneidade não vem da tecnologia, vem de usá-la sem nada de próprio para lhe dar”, afirma. Assim, a tecnologia pode ampliar a capacidade de criação, mas não elimina a necessidade de repertório, identidade e direção.
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