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A euforia da película: como a Kodak virou o selo de luxo do streaming
Da iminência da falência ao topo das produções de prestígio, a marca de 138 anos se apoia na estética analógica para ditar o tom visual de 2026
A trajetória da Kodak no século XXI é um estudo de caso fascinante sobre gestão de marca e resiliência. Após o pedido de concordata em 2012, a empresa parecia destinada aos livros de história. Contudo, em 2026, a marca vive um momento de relevância cultural inesperada.
O motor dessa recuperação não é a tentativa de competir com a nitidez extrema do digital, mas a decisão estratégica de se tornar a guardiã do suporte analógico, transformando a textura orgânica do filme em um símbolo de status para grandes produções.
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Pacto de diretores: filme em acetato
A sobrevivência da Kodak deve muito a um grupo de “advogados de peso” em Hollywood. Em 2014, um acordo histórico foi firmado entre a Kodak e os grandes estúdios (Disney, Warner, Sony, Paramount e Universal), impulsionado por diretores como Christopher Nolan, Quentin Tarantino e J.J. Abrams. Eles se comprometeram a comprar uma cota anual de película para garantir que a produção não fosse interrompida.
Recentemente, o CEO Jim Continenza, em entrevista à CNBC, reforçou essa narrativa ao mencionar pedidos diretos de Nolan para manter a fábrica de acetato operando. Nolan, um defensor ferrenho do formato IMAX 70mm, entende que a película não é apenas um suporte, mas uma ferramenta de reputação artística. Para esses diretores, filmar em digital seria como um pintor abrir mão das telas para usar apenas tablets: o resultado pode ser nítido, mas a “alma” da textura se perde.
Esse modelo de negócio hoje sustenta a divisão de entretenimento da companhia, com filmes premiados na última edição do Oscar, como Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another) e Pecadores (Sinners), ambos registrados em película Kodak.
Efeito Euphoria: o analógico como tendência Gen Z
Se os diretores veteranos salvaram a fábrica, a série Euphoria (HBO) salvou a relevância estética da marca para as novas gerações. O diretor de fotografia Marcell Rév tomou uma decisão audaciosa na segunda temporada: abandonar o digital e filmar inteiramente com a película Ektachrome 35mm. O resultado foi um visual onírico e saturado que se tornou a identidade visual da série e influenciou toda a estética das redes sociais.
Para a terceira temporada, a parceria se aprofundou. A Kodak desenvolveu novos estoques de filme em colaboração direta com a produção da série. Esse movimento prova que a estética analógica — com sua suavidade e o famoso aspecto granulado — deixou de ser um nicho para se tornar uma ferramenta de marketing visual. Ao escolher o filme físico, o streaming não está apenas capturando imagens, está comprando uma skin de autenticidade que o público jovem, saturado pela perfeição dos filtros de IA, consome como algo raro e real.
Pra fechar!
Celebrar a Kodak em 2026 é reconhecer que a tecnologia mais avançada nem sempre é a que entrega a melhor experiência emocional. A película sobreviveu porque oferece algo que o código binário ainda não replicou com perfeição: a finitude. Cada rolo tem um limite e cada imperfeição é orgânica.
A provocação para esta semana é: em um mundo onde a IA pode gerar imagens infinitas, qual o valor de um suporte que exige tempo, química e cuidado físico para existir? O amanhã pode até ser digital, mas ele ainda busca na química do passado a alma que os algoritmos esqueceram de programar.
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