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A ciência que fez a K-beauty conquistar o mundo (inclusive o mercado de falsificações)

Nos últimos anos, a beleza coreana deixou de ser apenas uma tendência curiosa para se consolidar como uma das forças mais influentes da indústria global de cosméticos. O fenômeno, conhecido como K-beauty, combina pesquisa científica, cultura de cuidados com a pele e uma comunicação altamente […]

A ciência que fez a K-beauty conquistar o mundo (inclusive o mercado de falsificações)
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Nos últimos anos, a beleza coreana deixou de ser apenas uma tendência curiosa para se consolidar como uma das forças mais influentes da indústria global de cosméticos. O fenômeno, conhecido como K-beauty, combina pesquisa científica, cultura de cuidados com a pele e uma comunicação altamente sofisticada para oferecer produtos que prometem não apenas resultados estéticos imediatos, mas saúde cutânea no longo prazo.

O movimento se transformou em um mercado bilionário. Segundo o relatório K-Beauty Products Market Trends, publicado pela consultoria Towards Healthcare, o setor global de produtos de K-beauty deve atingir cerca de US$ 131,5 bilhões em 2026, impulsionado pela demanda crescente por rotinas de cuidado contínuo e por fórmulas consideradas mais suaves e tecnológicas.

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Mas, à medida que a popularidade cresce, surge também um efeito colateral: a expansão de um mercado paralelo que replica embalagens, discursos científicos e até ingredientes famosos, sem garantia de procedência. O resultado é um cenário em que inovação cosmética, cultura digital e comércio global se misturam, exigindo cada vez mais informação e atenção do consumidor.

Quando a ciência vira tendência global

Parte do diferencial da K-beauty está menos no produto isolado e mais na filosofia que sustenta a rotina de cuidados. Em vez de buscar soluções rápidas, a abordagem coreana prioriza um processo contínuo de manutenção da saúde da pele, com resultados construídos ao longo do tempo.

Segundo Jimmy Lee, diretor da KS Cosméticos, essa mudança é relativamente recente dentro da própria Coreia do Sul. “Antigamente, na cultura coreana, as pessoas buscavam resultado imediato. A aparência sempre foi muito observada, inclusive em entrevistas de emprego. Mas cosmético não é milagre”, afirma. De acordo com ele, foi apenas na última década que o mercado passou a valorizar mais o cuidado contínuo.

Não demorou até que o mundo se interessasse pelos resultados luminosos e lisos das peles coreanas e, portanto, surgisse o desejo de usar os mesmos produtos que usavam os influenciadores asiáticos. Mas grande parte do fascínio internacional pela K-beauty também está ligada aos ingredientes e às tecnologias presentes nas fórmulas. Biofermentação, extratos vegetais raros e ativos biotecnológicos costumam aparecer como símbolos de inovação cosmética.

Segundo Jimmy, muitos desses ingredientes surgem de pesquisas científicas sobre espécies naturais abundantes na Coreia. “Existem plantas e algas que são consideradas pragas no país. Os cientistas estudam essas espécies e tentam extrair algum ingrediente que possa fazer bem”, explica. A partir dessas investigações, compostos com potencial dermatológico passam a ser incorporados às formulações.

Foi nesse contexto que surgiram alguns dos ativos mais conhecidos da K-beauty, como a Centella asiática, popularmente chamada de Cica, e o PDRN, substância associada à regeneração celular. “Na Coreia usam muitos ingredientes considerados exóticos no Brasil, mas que realmente têm resultados”, afirma Lee.

Segundo ele, a forma como esses ingredientes são apresentados também faz parte da estratégia das marcas. “É muito marketing. As empresas colocam o ingrediente na embalagem, criam a linha com o nome do ingrediente e mostram testes clínicos com resultados reais”, diz. Essa combinação entre narrativa científica e design de produto ajuda a construir credibilidade.

No comércio eletrônico, essa comunicação costuma ser ainda mais detalhada. “No e-commerce colocamos muitas informações, documentos oficiais e resultados de laboratório mostrando que o ingrediente funciona”, explica Lee. As evidências incluem testes laboratoriais, estudos clínicos e avaliações feitas com voluntários humanos.

Créditos: Divulgação

Legenda: Jimmy Lee, diretor da KS Cosméticos

O outro lado do sucesso: a explosão de falsificações

A popularidade global da K-beauty também abriu espaço para um problema crescente: produtos falsificados ou importados irregularmente. Segundo Lee, nem sempre as próprias marcas tem conhecimento de que seus produtos estão circulando em determinados países. “Existem lotes que as próprias marcas não sabem que estão sendo vendidos no Brasil”, afirma.

De acordo com ele, há diferentes tipos de irregularidade no mercado. “Existem lotes falsificados e também importadores que sonegam impostos”, explica. Esse cenário cria desafios para empresas que operam dentro das regras, fazendo com que o controle se torne ainda mais difícil

Como identificar um produto confiável

Em um mercado cada vez mais internacionalizado, a rastreabilidade dos cosméticos se tornou um fator central para garantir segurança e eficácia. Jimmy Lee explica que o primeiro passo é verificar se o produto possui rotulagem adequada. “A etiqueta da Anvisa é obrigatória em português, com CNPJ do importador, lote e informações claras”, afirma. Outra recomendação é consultar diretamente o banco de dados da agência reguladora. “Consultar o site da Anvisa também ajuda”, diz.

O preço também pode funcionar como alerta. “Preço muito barato é sinal de atenção”, afirma Lee. Ele relata que já houve casos em que consumidores compraram produtos falsificados acreditando que eram originais. “Já tivemos cliente que comprou produto falso e alegou ter comprado da KS. O número do pedido não batia e não tinha nota fiscal”, conta. Nesses casos, a nota fiscal e o registro da compra são essenciais para rastrear a origem do produto.

O jeito é encontrar revendedores que demonstrem estar com todas as normas aplicadas. “Na KS Cosméticos, produzimos fotos próprias, material próprio, mostramos lote, validade e processo da Anvisa. Os produtos chegam na casa do consumidor em poucos dias, já que nossos lotes são armazenados no Brasil”, diz Lee.

O risco invisível do skincare falsificado

A falsificação de cosméticos não é apenas um problema comercial: pode representar riscos reais para a saúde da pele. Segundo Jimmy, um produto irregular pode não conter os ingredientes prometidos. Além disso, os efeitos podem ser imprevisíveis. “Pode causar alergia, pode não funcionar, pode conter ingredientes diferentes do que promete”, afirma.

Quando se trata de produtos originais, há protocolos de acompanhamento. “Se alguém compra um produto original e tem reação, analisamos o caso. Na etiqueta está indicado que, em caso de reação, deve procurar um médico”, explica Lee. Segundo ele, um fator positivo é que o consumidor está mais informado. Ele comenta: “hoje, percebo que muitas consumidoras já têm dermatologista, sabem o tipo de pele e quais ingredientes podem ou não usar”.

Ele ainda observa que as empresas estão investindo tanto em ingredientes com eficácia comprovada quanto em dispositivos que ampliam os efeitos dos cosméticos. “Os consumidores exigem resultados reais, e as empresas vão usar ingredientes com eficácia comprovada.” Nesse cenário, transparência e regulação tendem a ganhar ainda mais peso. “A Coreia exige muito: originalidade, regularização e aprovação na Anvisa”, finaliza Lee.

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