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A ação os EUA na Venezuela pelos olhos da tecnologia de guerra
A ação cinematográfica dos EUA na prisão de Nicolas Maduro incendiou o debate mundial sobre a intervenção americana na Venezuela. Uma face, porém, merece atenção: o uso da tecnologia interferindo diretamente no resultado da operação militar. ToqueTec apresenta uma visão sobre a tecnologia da operação […]
A ação cinematográfica dos EUA na prisão de Nicolas Maduro incendiou o debate mundial sobre a intervenção americana na Venezuela. Uma face, porém, merece atenção: o uso da tecnologia interferindo diretamente no resultado da operação militar. ToqueTec apresenta uma visão sobre a tecnologia da operação que envolveu cyber ataques, drones quase indetectáveis, helicópteros com altíssima tecnologia e sistemas de comunicação criptografados.
Drones praticamente indetectáveis
No centro da arquitetura tecnológica estava o RQ‑170 Sentinel, drone furtivo fabricado pela Lockheed Martin para a Força Aérea dos Estados Unidos, projetado para missões de inteligência, vigilância e reconhecimento em áreas fortemente defendidas. O RQ‑170 , segundo estimativas de sites especializados, pode voar a uma altitude de 15 mil metros com uma velocidade de cruzeiro de 950 km/h. Com formato de asa delta a identificação por radares, mesmo os mais avançados, é difícil. O equipamento foi desenhado para “voar sem ser visto”. Isso acontece pelo seu design. Ao eliminar a cauda vertical e fundir as asas com o corpo, o drone reduz drasticamente os ângulos de 90° que refletem ondas de radar de volta à origem.
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A “pele” do drone é composta por materiais que convertem a energia das ondas de radar em calor, “engolindo” o sinal em vez de refleti-lo. O escapamento é projetado para resfriar rapidamente os gases de seu escapamento, evitando mísseis guiados por calor. Seus próprios radares e sistemas de comunicação emitem sinais tão fracos e codificados que se confundem com o ruído de fundo do ambiente.
Meses antes da ofensiva final, o Sentinel teria orbitado silenciosamente sobre Caracas, mapeando rotinas de Nicolás Maduro, rotas de segurança e o comportamento das defesas antiaéreas venezuelanas, numa vigilância persistente semelhante à já usada em operações no Irã e no Paquistão. Na noite da captura, pelo menos um RQ‑170 permaneceu em voo, alimentando, em tempo quase real, as telas de centros de comando e observadores em solo americano com vídeo e dados de ação.

O drone RQ‑170 Sentinel em teste de voo
Ataque cibernético
O “apagão” em Caracas surgiu como primeiro ato dessa coreografia, com o U.S. Cyber Command executando, segundo relatos de sites especializados, uma intrusão nos sistemas da estatal elétrica venezuelana para provocar cortes coordenados em subestações que alimentam áreas estratégicas da capital, incluindo o entorno de Fort Tiuna. Relatos técnicos apontam para um roteiro que lembra a tática militar utilizada em ataques na guerra da Ucrânia.
O método consiste em invadir a rede corporativa, avançar até os sistemas de controle industrial e enviar comandos falsos a controladores lógicos programáveis. Isso permitiria abrir disjuntores e redistribuir cargas, de forma a derrubando trechos da malha de alta tensão pouco antes da entrada da força aérea e dos helicópteros. Em discurso, Donald Trump sugeriu que “as luzes de Caracas foram em grande parte desligadas graças a uma certa expertise que nós temos”, reforçando a leitura de que o blecaute foi menos efeito colateral de bombas e mais resultado de uma capacidade cibernética utilizada de maneira estratégica.
Uma revoada de aeronaves de guerra
Para abrir o caminho da Força Delta, os Estados Unidos mobilizaram mais de 150 aeronaves de combate de fabricantes como Lockheed Martin, Boeing e Northrop Grumman. Caças furtivos F‑22 Raptor e F‑35 Lightning II, ambos produzidos pela Lockheed Martin, foram empregados para garantir superioridade aérea e neutralizar radares e baterias antiaéreas, reduzindo o risco para os helicópteros de infiltração. Bombardeiros B‑1B Lancer, fabricados pela Rockwell/Boeing, entraram em ação contra alvos estratégicos, enquanto caças F/A‑18E/F Super Hornet.
As aeronaves de guerra eletrônica EA‑18G Growler, da Boeing, atuaram na supressão de comunicações e sensores ao lado dos aviões de alerta aéreo antecipado. O EA-18G é a ponta de lança da guerra eletrônica moderna. Baseado no caça Super Hornet, sua função principal é “cegar” o inimigo. Utilizando receptores AN/ALQ-218, ele detecta e localiza radares e comunicações adversárias com precisão. Para o ataque, usa pods de interferência que emitem ondas poderosas, criando “estática” que anula sistemas de defesa.

Foto de um avião F-22 Raptor
Diferente de aviões antigos, o Growler é veloz , cerca de cerca de 1.900 km, e letal. Pode destruir radares fisicamente com mísseis HARM. Em segundo plano, aeronaves de reabastecimento e inteligência completaram uma malha aérea em rede, coordenada por sistemas de comando e controle que integram dados de múltiplos sensores em tempo real.
A aproximação final ficou a cargo dos helicópteros do 160th Special Operations Aviation Regiment, os “Night Stalkers”, que operam plataformas de fabricantes como Sikorsky (subsidiária da Lockheed Martin) e Boeing. Imagens e relatos apontam para o uso de MH‑60 Black Hawk modificados, derivados da família UH‑60 da Sikorsky, e MH‑47G Chinook, versão de operações especiais do transporte pesado produzido pela Boeing, voando em baixa altitude a partir de navios e bases avançadas para contornar radares e valendo‑se de sistemas de navegação de precisão e contramedidas infravermelhas direcionais contra mísseis portáteis.
Em alguns casos, essas aeronaves operaram em configuração “Direct Action Penetrator”, com metralhadoras pesadas e lançadores de foguetes nas laterais, enquanto, em solo, os comandos desceram equipados com óculos de visão noturna, miras térmicas, rádios criptografados e tablets táticos conectados à mesma rede que recebia dados de drones e aviões de vigilância.
Muito investimento em tecnologia para guerra
A sofisticação tecnológica exibida na operação é apenas a face visível de uma indústria bélica que vive um ciclo de expansão acelerada. Segundo o instituto sueco SIPRI, o gasto militar global atingiu 2,718 trilhões de dólares em 2024, o maior patamar desde o fim da Guerra Fria, com os Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha e Índia respondendo por 60% do total. Só o orçamento militar americano beirou 1 trilhão de dólares, enquanto os 100 maiores fabricantes de armas do mundo registraram receitas recordes de cerca de 679 bilhões de dólares em 2024, puxados por grupos como Lockheed Martin, Northrop Grumman e General Dynamics, que concentram contratos bilionários em programas de caças, drones, mísseis e plataformas navais.
Relatórios das Nações Unidas alertam que esse volume de recursos destinado a armamentos ameaça desviar investimentos de áreas sociais e de desenvolvimento, mas, do ponto de vista industrial, sustenta um ecossistema de pesquisa, inovação e produção que tem na tecnologia militar um de seus segmentos mais intensivos em capital e ciência aplicada; em operações como a de Caracas, essa economia se materializa em asas furtivas, helicópteros voando rente ao mar na escuridão total, redes de dados e ciberataques capazes de apagar uma metrópole inteira por algumas horas.
Este conteúdo foi criado com auxílio de inteligência artificial e supervisionado por um jornalista do ToqueTec
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