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Por que a França bloqueou um site de bets que aceita apostas em dinheiro sobre quase tudo
Embora as operações do Polymarket já estivessem proibidas para usuários franceses desde 2024, as autoridades decidiram impedir também o acesso à página
A França determinou o bloqueio de uma plataforma de bets que permite apostar em praticamente qualquer acontecimento, de eleições e guerras a julgamentos e mortes de personalidades. Embora as operações do site já estivessem proibidas para usuários franceses desde 2024, as autoridades decidiram impedir também o acesso à página. A medida foi justificada por preocupações com jogos ilegais, dependência, manipulação de informações e possíveis fraudes associadas a apostas sobre eventos reais.
O Polymarket é uma plataforma norte-americana criada em 2020 que permite apostar dinheiro na ocorrência de acontecimentos futuros. O serviço oferece mercados relacionados a eleições, processos judiciais, conflitos armados, decisões políticas e diversos outros temas da atualidade. Com isso, usuários podem investir em previsões sobre fatos reais e lucrar caso o desfecho apostado se concretize.
A França ampliou nesta sexta-feira 17 sua ofensiva contra a plataforma ao determinar o bloqueio de seu acesso em todo o país. A medida foi anunciada pela Autoridade Nacional dos Jogos (ANJ), órgão regulador do setor, que informou ter ordenado na véspera às operadoras francesas de internet que impeçam o acesso ao site.
As apostas realizadas por residentes na França já eram proibidas desde novembro de 2024. Na ocasião, após intervenção da ANJ, a empresa implementou um sistema de bloqueio geográfico para impedir apostas feitas a partir do território francês.
Apesar disso, o portal continuava acessível. Qualquer usuário podia consultar sua página principal, visualizar os eventos disponíveis e acompanhar em tempo real as cotações atribuídas a cada cenário.
Segundo a autoridade reguladora, essa exposição mantinha a promoção de uma atividade cuja exploração não é autorizada no país.
Regulador considera serviço incompatível com legislação francesa
A legislação francesa proíbe, como regra geral, jogos de azar com dinheiro, salvo em modalidades especificamente autorizadas pelo Estado, como determinadas apostas esportivas e atividades exploradas por operadores licenciados. O entendimento da ANJ é que o modelo de negócios do Polymarket não se enquadra nessas exceções.
Em novembro de 2024, o órgão iniciou tratativas com a empresa e concluiu que os serviços oferecidos não respeitavam as normas francesas sobre jogos de azar. Como consequência, a plataforma deixou de aceitar apostas originadas da França.
Segundo Jean-Baptiste Vila, professor e diretor da Faculdade de Direito da Universidade da Polinésia Francesa, foi com base nesses princípios que a autoridade francesa determinou a proibição da oferta do serviço aos consumidores do país.
Ainda assim, a ANJ avaliou que a permanência da página inicial acessível ao público continuava funcionando como instrumento de divulgação da plataforma.
Por isso, decidiu avançar para uma etapa adicional e ordenar o bloqueio integral do acesso ao site.
Popularidade continuou crescendo
De acordo com a própria ANJ, o interesse pelo Polymarket não diminuiu após a restrição imposta em 2024. O órgão estima que a plataforma recebeu 578.751 visitas provenientes da França em junho deste ano, além de 205.057 visitantes únicos.
Esses números dizem respeito a usuários que acessaram o site, mas que, em teoria, não podiam realizar apostas.
Na prática, porém, especialistas apontam que restrições geográficas podem ser contornadas com o uso de uma VPN, ferramenta que permite alterar virtualmente a localização de um dispositivo conectado à internet.
Por meio desse recurso, usuários conseguem aparentar estar conectados a partir de outro país e, assim, acessar serviços indisponíveis em sua região.
Segundo o advogado Pascal Reynaud, especialista em jogos online, eventuais punições penais recaem principalmente sobre operadores de plataformas ilegais, e não sobre os apostadores.
Dependência e suspeitas de fraude preocupam autoridades
Além dos riscos associados à dependência em jogos, a ANJ afirma que determinados mercados de apostas podem criar incentivos para manipulações e fraudes.
Um dos casos citados pelo regulador envolve apostas relacionadas à meteorologia. Em abril deste ano, suspeitas de manipulação atingiram equipamentos utilizados para registrar dados climáticos na França.
O episódio chamou a atenção porque determinadas apostas da plataforma dependiam justamente dessas medições para definir seus resultados.
A controvérsia levou o serviço meteorológico francês Météo-France a apresentar uma denúncia formal.
A ANJ também manifesta preocupação com possíveis casos de uso de informação privilegiada.
Nos Estados Unidos, um militar norte-americano foi denunciado após obter mais de 400 mil dólares em ganhos ligados a apostas realizadas no Polymarket. Segundo a acusação, ele começou a apostar milhares de dólares em dezembro de 2025 em mercados relacionados a uma possível operação contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro.
O caso alimentou críticas sobre a possibilidade de pessoas com acesso antecipado a informações sensíveis obterem vantagens indevidas em plataformas desse tipo.
Ao justificar o bloqueio, a ANJ afirmou que busca impedir a promoção de uma atividade considerada ilegal em território francês e reduzir a exposição dos consumidores a riscos financeiros associados a esse modelo de bets.
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