Da internet ultrarrápida às cirurgias remotas, entenda a revolução e os desafios do 5G

Atrasado, o Brasil se prepara para o polêmico leilão da nova rede e tem mais uma oportunidade de democratizar o acesso tecnológico

Foto: Justin Tallis/AFP

Foto: Justin Tallis/AFP

Sociedade,Tecnologia

Clicar em um link e abri-lo quase instantaneamente. Dar o play em um filme ou série e perceber as cenas se desenrolando sem qualquer espera. Ao mesmo tempo, tornar possível que carros autônomos ‘dialoguem’ com semáforos e permitir que cirurgias sejam realizadas sem a presença física de um médico. Tudo isso parece, na mesma medida, desconectado e ficcional. Mas são promessas  interligadas,  parte de um próximo salto tecnológico nas telecomunicações: o 5G.

 

 

À primeira vista, o 5G pode parecer mero sucessor de tecnologias já bem conhecidas pelos brasileiros, como o 3G e o 4G. A novidade, no entanto oferece muito mais que conexão rápida à internet no celular. O 5G tem o potencial de estabelecer em definitivo a chamada ‘internet das coisas’ e de tornar as cidades cada vez mais inteligentes. O objetivo é fazer com que tudo esteja conectado: dos celulares aos carros, das geladeiras às máquinas industriais, dos semáforos às câmeras de segurança.

Em 2020, a operadora Claro anunciou no Brasil o início da operação do 5G DDS (Compartilhamento Dinâmico de Espectro, na sigla em inglês), uma espécie de etapa híbrida entre o 4G e o 5G. Essa, no entanto, está longe de ser uma demonstração clara do poder desse novo padrão de velocidade.

Segundo o professor Vivaldo José Breternitz, da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma enorme gama de setores poderá se beneficiar da implementação da tecnologia 5G no Brasil. Um bom exemplo é a indústria.

“Eu vou ter informações sobre as minhas máquinas em tempo real. Por exemplo, um sensor pode ‘avisar’ a uma central de manutenção que essa máquina está operando com uma temperatura alta demais e, portanto, pode ter uma pane a qualquer momento”, diz Breternitz a CartaCapital. “Se uma máquina parar repentinamente, por qualquer motivo, pode automaticamente acionar outra máquina backup. Isso seria importante, por exemplo, para um gerador.”

Mas, para tornar o 5G realidade, o País ainda precisa realizar um leilão específico para a frequência, o que deve acontecer neste ano.

Transmissão instantânea

Uma das mudanças mais marcantes do 5G, explica Paulo Spaccaquerche, presidente da Associação Brasileira de Internet das Coisas, é a latência: o tempo entre você fazer um pedido e receber a resposta. Como, por exemplo:

Chegar em um restaurante, pedir um macarrão e ter o prato imediatamente na sua mesa

De acordo com o presidente da Abinc, o tempo de latência no 5G é, no mínimo, dez vezes menor que no 4G. “Não é um upgrade, mas uma nova tecnologia, que traz desde equipamentos novos, até a criptografia dos dados. Essa conectividade facilita novos tipos de negócio, de aplicações.”

Essa velocidade, reforça Spaccaquerche, é fundamental para a inovação possibilitada pelo 5G. Ele usa como exemplo as operações médicas feitas a distância. “Você precisa de uma resposta rápida. Não pode esperar, no 4G, cinquenta milissegundos para aquele robozinho responder a uma atuação no órgão do paciente.” A tecnologia atual, explica, demanda um intervalo de cinquenta milissegundos entre clique e resposta. No 5G, são menos de cinco milissegundos. “É um novo mundo, coisas que estavam adormecidas.”

 

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Teste para realização de cirurgia remota via 5G na China. (Foto: Reprodução/YouTube/CGTN)

 

Paulo Rogério Foina, presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação,  destaca ainda o alcance das novas antenas.

“Uma torre na estrada, que teria no 4G um raio de 5 a 10 quilômetros, pode chegar a 50 quilômetros no 5G. Posso ter menos torres para cobrir a mesma área”, afirma. “Até hoje, muitas fazendas não têm acesso à comunicação por celular, porque as torres não chegam até lá. Com a 5G, teremos comunicação por celular no meio de um pasto”.

 

“Vai me permitir controlar um trator remotamente ou coletar dados para agricultura de precisão remotamente, sem depender de uma rede local na fazenda”.

Os desafios da implantação

A democratização do acesso ao 5G depende das regras do iminente leilão das frequências. Se as condições da disputa forem bem estabelecidas, diz Foina, o Brasil terá não só uma ampla oferta da nova rede, mas uma evolução geral na infraestrutura. Ele critica o fato de o País ser um celeiro para o mundo, mas incapaz de levar a tecnologia ao campo.

O leilão do 5G alcançará quatro faixas de radiofrequência: 700 MHz, 2,3 GHz, 3,5 GHz e 26 GHz. A que levanta mais polêmicas é a de 3,5 GHz, em que funciona a TV parabólica. No dia 1º de fevereiro, a Anatel adiou a aprovação da proposta de edital para o leilão, após pedido de vista de conselheiros. Até aqui, há três votos favoráveis (entre cinco possíveis) ao relatório apresentado pelo conselheiro Carlos Baigori.

A proposta de Baigori engloba, entre outras coisas, a oferta de cobertura 4G ou superior em cidades que hoje não têm essa velocidade de conexão. Também há uma tentativa do governo federal de fazer com que as empresas que operarem no espectro de 3,5 GHz criem uma chamada ‘rede segura’ para comunicações de órgãos federais.

As teles não estão satisfeitas com as condições. Além da construção da ‘rede segura’, podem ter de lidar com obrigações como a expansão das redes no Norte e no Nordeste e o pagamento de custos de migração de emissoras de TV transmitidas por antenas parabólicas. Isso porque, ao assumir a frequência de 3,5 GHz para desenvolver a rede 5G, as empresas ‘jogariam’ os satélites para a frequência de banda Ku.

Diante desse cenário, as operadoras desejam apenas ‘deslocar’ o sinal das TVs para uma faixa paralela na mesma frequência de 3,5 GHz e instalar um filtro nas antenas, a fim de tornar o processo mais barato. Se não tiverem a demanda atendida pela Anatel, as teles ainda deverão arcar com a distribuição e a instalação de kits para recepção do sinal de TV aberta via banda Ku.

Em meio a esse debate, Paulo Spaccaquerche endossa a conclusão de que o Brasil já está atrasado na articulação pelo 5G, não apenas na comparação com países como Coreia do Sul e Estados Unidos, mas até em relação a integrantes do BRICS.

“Politicamente, tem os interesses das operadoras. Nós não temos muita competição. Se você não vai para a Claro, a Tim ou a Vivo, para onde vai? Há quase um oligopólio, e elas brigam pelos seus interesses. 5G para elas, agora, não tem o menor atrativo, porque o 4G ainda tem muito a oferecer”, pondera. “Tanto é que, em alguns lugares e não há sequer 4G. Mal e porcamente tem um 3G funcionando – e olhe lá. O Brasil já está atrasado”.

Paulo Rogério Foina, por sua vez, aposta que algumas cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e possivelmente Brasília podem ter acesso ao 5G já no início de 2022. Para que a tecnologia se espalhe nacionalmente, porém, podem ser necessários até seis anos.

 

Esta é a primeira reportagem de uma série sobre o 5G. Na próxima edição, você conhecerá o que há por trás do aspecto geopolítico da nova tecnologia, protagonizado por China e Estados Unidos.

 

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Editor do site de CartaCapital

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