Saúde

Aposta na doença: plataforma cria mercado para resultados de tratamentos médicos

A Kalshi, do ramo de ‘mercados preditivos’, defende que usuários possam colocar dinheiro na possibilidade que medicamento seja efetivo em pacientes terminais

Aposta na doença: plataforma cria mercado para resultados de tratamentos médicos
Aposta na doença: plataforma cria mercado para resultados de tratamentos médicos
Kalshi (Foto: Laura Brett / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP)
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A Kalshi, uma das principais plataformas de apostas em eventos do mundo real — os chamados “mercados de predição” — abriu uma nova fronteira para esse tipo de negócio: os tratamentos médicos. Desde julho, usuários podem apostar em resultados de pesquisas clínicas e decisões da FDA, agência responsável pela regulação de medicamentos e pela proteção da saúde pública nos Estados Unidos. A novidade provocou reações negativas nas redes sociais e reacendeu o debate sobre os limites éticos de transformar acontecimentos da vida real em ativos financeiros.

A principal diferença entre cassinos online tradicionais e plataformas como a Kalshi e a Polymarket está no modelo de funcionamento. Em vez de apostar contra a casa, os usuários compram e vendem entre si os chamados “contratos de eventos”, em uma dinâmica semelhante à de uma bolsa de valores. O valor desses contratos oscila conforme aumenta ou diminui a percepção de que determinado acontecimento ocorrerá.

Nesse mercado, praticamente qualquer evento futuro pode se tornar objeto de especulação: eleições, fenômenos climáticos, oscilações da economia e do mercado financeiro e, agora, o sucesso ou o fracasso de tratamentos médicos.

Mercados de previsão: a Kalshi quer que você aposte na eficácia de tratamento de pacientes médicos (Foto: Reprodução / Site oficial da Kalshi) Mercados de previsão: a Kalshi quer que você aposte na eficácia de tratamento de pacientes médicos (Foto: Reprodução / Site oficial da Kalshi)

Segundo a empresa, cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, o programa piloto da aba Health permite apostas apenas em resultados de pesquisas clínicas em estágio avançado. Em parceria com a AppliedXL, a Kalshi oferece mais de uma dúzia de contratos relacionados ao setor. Entre eles estão apostas sobre a aprovação do medicamento experimental contra o câncer anito-cel, da Gilead Sciences, e do ivonescimab, tratamento experimental contra o câncer de pulmão desenvolvido pela Summit Therapeutics.

Para especialistas ouvidos por CartaCapital, porém, colocar preço sobre as chances de sucesso de um tratamento ultrapassa a discussão sobre inovação financeira.

“O que mais me choca é o lucro com a dor alheia”, afirma Luciana Dadalto, bioeticista, doutora em Ciências da Saúde e mestre em Direito Privado. A pesquisadora considera eticamente problemático transformar a expectativa de pacientes e familiares diante de um tratamento em um ativo negociável.

A entrada da saúde nesse mercado acrescenta ainda uma camada de risco a uma plataforma já alvo de críticas nos Estados Unidos. Além da gamificação de processos médicos sensíveis, surgem preocupações sobre os incentivos criados quando informações capazes de alterar o preço de uma aposta estão sob domínio de médicos, pesquisadores, laboratórios ou funcionários de empresas farmacêuticas.

Rafael Zanatta, diretor executivo da Data Privacy Brasil, alerta justamente para esse ponto. “Criar mercados sobre resultados de pesquisas clínicas em contratos negociáveis pode criar incentivos para ilícitos de quebra de confidencialidade e múltiplas violações da lei de dados pessoais”, afirmou a CartaCapital.

Especializado em proteção de informações pessoais, Zanatta acrescenta que, caso existam indícios de obtenção de vantagem econômica ou de tratamento ilegal de dados pessoais sensíveis, indivíduos envolvidos podem ser responsabilizados civilmente por violações ao direito fundamental à proteção de dados.

“O Superior Tribunal de Justiça já decidiu que acesso ilegal de dados de saúde dispensa prova de dano, cabendo reparação pelo mero tratamento ilegal”, afirma.

A expansão da Kalshi para a área da saúde ocorreu em um momento particularmente controverso para a empresa. O anúncio foi feito no mês passado, no mesmo dia em que o operador de teleprompter de Donald Trump foi preso após ganhar mais de 100 mil dólares na plataforma com apostas sobre o que o presidente dos Estados Unidos diria.

Antes da saúde, a Kalshi já permitia contratos relacionados a esportes, clima e acontecimentos políticos. É nesse último campo que o modelo revela outra de suas zonas mais controversas: decisões capazes de afetar milhões de pessoas — incluindo guerras, crises humanitárias e invasões territoriais — podem também se transformar em oportunidades de lucro para apostadores.

Tarek Mansour, CEO da Kalshi, apresenta outra interpretação. Para ele, os mercados de predição podem ampliar a transparência sobre o desenvolvimento de medicamentos.

“Os dados, que determinam quais drogas avançam, ficam em grande parte restritos às pessoas que mais precisam”, afirmou. “Trazer informação à superfície é para que serve a Kalshi, e estamos empenhados em fazê-lo corretamente”, declarou no anúncio oficial do lançamento.

Luciana Dadalto contesta esse argumento. Para a bioeticista, a promessa de transparência não elimina os interesses econômicos envolvidos no funcionamento da plataforma.

“‘Ah, eu vou ter mais transparência?’ Depende. Eu posso manipular a transparência”, afirma.

Mesmo que existam restrições sobre quem pode negociar contratos relacionados a pesquisas médicas, diz Dadalto, a resposta continuaria sendo essencialmente “de mercado”, e não ética. Nem mesmo uma regulamentação estatal, na avaliação da pesquisadora, seria suficiente para colocar os interesses dos pacientes no centro dessa engrenagem.

“O paciente, a pessoa que está doente, é uma pessoa vulnerável”, explica. “Você pode prometer qualquer coisa para essa pessoa, que ela vai topar.”

Dadalto chama atenção ainda para uma particularidade do sistema de saúde dos Estados Unidos. Em um país sem um sistema público e universal de saúde nos moldes do SUS brasileiro, o custo de tratamentos pode levar pacientes e famílias a vender bens ou comprometer parte significativa de sua renda.

Nesse contexto, afirma a pesquisadora, transformar expectativas sobre tratamentos em sinais financeiros pode produzir efeitos que ultrapassam o universo dos apostadores. A cotação de um contrato, por exemplo, pode passar a ser interpretada como uma espécie de indicador sobre as chances de sucesso de determinado medicamento — ainda que resulte apenas das expectativas e do dinheiro movimentado por quem decidiu apostar.

A fronteira brasileira

No Brasil, os mercados de predição ainda ocupam uma posição marginal quando comparados à expansão das bets esportivas e de outras modalidades de apostas. Ainda assim, o site oficial da Kalshi pode ser acessado em português, embora a conta da empresa no Instagram esteja indisponível para usuários brasileiros.

Em seu site, a companhia informa que ainda não possui operação fora dos Estados Unidos, mas apresenta como alternativa uma plataforma semelhante chamada MercadoPred.

Para Dadalto, a experiência brasileira com a regulamentação das bets deveria servir de alerta. A pesquisadora defende que o poder público adote medidas preventivas antes que modelos semelhantes aos da Kalshi se consolidem no País — sobretudo quando envolvem apostas ligadas à saúde.

“Não vai ser por essa plataforma, mas vai ser por outra”, afirma, ao projetar a possível chegada de serviços semelhantes ao mercado brasileiro.

Caso esse modelo se expanda, diz, o risco é ultrapassar a discussão sobre apostas e alcançar a própria maneira como uma sociedade se relaciona com a doença e o sofrimento.

“Nós vamos nos tornar uma sociedade que lucra com o fracasso no cuidado de saúde de outra pessoa.”

Rafael Zanatta segue na mesma direção ao defender uma resposta regulatória que ultrapasse a proteção de dados.

“Não podemos aceitar a plataformização do vício e a expansão de plataformas e tecnologias que possuem design de incentivo ininterrupto às apostas em eventos futuros”, afirma.

“Para além da Agência Nacional de Proteção de Dados, há necessidade de atuação direta do Ministério da Fazenda e Secretaria de Prêmios e Apostas”, conclui o diretor executivo da Data Privacy Brasil.

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