Chico Whitaker

[email protected]

É arquiteto e ativista social, foi vereador em São Paulo pelo PT, secretário executivo da Comissão Brasileira Justiça e Paz, cofundador do Fórum Social Mundial, membro da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares, Premio Nobel Alternativo de 2006.

Opinião

Usina nuclear em Itacuruba: que venham as Cassandras!

‘Que os pernambucanos se informem das aflições vividas pelos moradores de Angra dos Reis’, escreve Chico Whitaker

Ato contra a instalação de usina nuclear em Itacuruba (Foto: Comissão Pastoral da Terra)
Apoie Siga-nos no

Está esquentando em Recife a discussão sobre as usinas que a Eletronuclear pretende construir na pequena cidade de Itacuruba, à beira do rio São Francisco. 

Quem logo saiu a campo contra os críticos foi Carlos Henrique Mariz, o vice-presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear —  que existe obviamente para promover essa forma de produzir eletricidade. Soube que um professor da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco se juntou a ele, já falando na “volta das Cassandras”.

Quando o professor diz “a volta”, provavelmente pensa nos deputados que em 1989, quando elaborada a Constituição do Estado de Pernambuco, tiveram a sabedoria de estabelecer que usinas nucleares não poderiam ser construídas no estado enquanto não se esgotassem a exploração de todas as outras fontes de energia  como o vento e sol, dos quais o Nordeste é particularmente rico).  

Me atrevo a entrar nesta polêmica sem ser pernambucano porque todo o povo brasileiro tem que agradecer a esses deputados – espero um dia saber quem são, para propor homenagens a eles. Catástrofes nucleares podem, por um simples capricho dos ventos ou dos mares, fazer mal a muita gente. E o Brasil inteiro pode pagar pela insanidade de construir usinas nucleares em Itacuruba.

A nuvem radioativa que saiu de Chernobyl cobriu toda a Europa. A água radioativa que escapou das usinas de Fukushima foi levada à outra margem do oceano pacífico.

Para superar esse obstáculo constitucional, os promotores das usinas pretendem emendar à Constituição, e uma PEC, já em discussão entre os deputados estaduais pernambucanos. Mas, para que ela seja aprovada, é preciso domesticar a população. Ou então, o conjunto de eleitores pode convencer os deputados indecisos de que seria uma loucura permitir que monstros nucleares sejam implantados em Itacuruba, para ficar (na melhor das hipóteses) adormecidos durante muitos anos. Até que um dia se levantem e mostrem toda a sua fúria.  

Que os pernambucanos se informem das aflições vividas pelos moradores de Angra dos Reis – lá, por via das dúvidas, as sirenes nos arredores da usina soam ao simples sinais ou riscos identificados de vazamentos.

Em Chernobyl, mais de 70.000 “vizinhos” da usina deixaram para sempre suas casas. E em Fukushima foram evacuados 300 mil moradores da região. 

Cassandras? Que se multipliquem por favor! Depois, será tarde demais. Quando o Carnaval for de novo possível, será até o caso de formar um bloco das Cassandras, alertando o povo…  Seu papel é exatamente esse, o de nos alertar de tragédias previsíveis. Quando o Cavalo de Troia entrou na cidade, com a barriga cheia de soldados inimigos, o mal já estava feito.

Alarmistas? É o que infelizmente disse há pouco o Poder Judiciário sobre os que resistiam a outra loucura em curso da Eletronuclear, em Angra dos Reis. Ela pretende implantar na praia da Pedra Podre, onde estão as usinas, depósitos de seu combustível usado – um lixo altamente radioativo que se manterá radioativo por centenas ou mesmo milhares de anos, mesmo depois do desaparecimento das próprias usinas! Belo legado para várias gerações de angrenses… Talvez valha também um bloco de “alarmistas”…

Aliás, o que farão do lixo radioativo das usinas de Itacuruba? Que Deus nos proteja dessas usinas mas, se construídas, seus operadores podem decidir – tanta insanidade acontece no Brasil! – jogar seu combustível usado no rio São Francisco, se a Bahia não aceitar que o coloquem no Raso da Catarina, na outra margem do rio, ainda que seja em modernas “unidades de armazenamento” como as de Angra.

Muito lixo radioativo já foi lançado, no início da tecnologia do nuclear no mundo, no Mar Mediterrâneo e no Canal da Mancha, ou outros lugares de que seus usuários nem estão sabendo… A loucura nuclear é antiga e internacional.

Mas para entrar mesmo na polêmica de Recife, teria que abordar várias outras questões. Que parecem ter recebido da Eletronuclear o mesmo manual com listas de inverdades a citar, como por exemplo o de número de mortos nos acidentes a que me referi acima – raros, mas nem tanto (três em pouco em mais de 40 anos)… 

Um bom professor universitário não se fiaria no manual e pesquisaria um pouco mais. E em vez de repetir ingenuamente (seria mesmo tão ingênuo?) que em Chernobyl houve “menos de 70” mortos, descobriria que a Agencia Internacional da Energia Atômica, em relatório conjunto com a OMS, já falava em 2005 de 9.000 mortos e 200.000 doentes a partir da catástrofe, segundo o estudo que a Academia de Ciências de Nova York publicou nos seus Anais de 2009 (volume 1181). 

Esse estudo de 327 páginas, de cientistas russos, ucranianos e bielorrussos, que se apoiaram em mais de 30.000 publicações, diz que o número de mortes provocadas até então em todo mundo, por esse acidente, era provavelmente de 832.000. E diz também que “os números quanto às vítimas de Chernobyl continuarão a crescer por muitas gerações”, porque, como se sabe, o câncer fica muito tempo escondido, e radiações que destroem moléculas de DNA podem provocar problemas em outras gerações. 

A energia nuclear não está em expansão, mas em declínio no mundo. O Relatório Anual de 2020 sobre a Indústria Nuclear no Mundo, cujo coordenador ganhou o Prêmio Nobel Alternativo por seu trabalho, diz que fontes renováveis como a solar, o vento e a biomassa geraram em 2019 mais eletricidade que as usinas nucleares, pela primeira vez na história, e que em 2020 o número delas em operação no mundo baixou das 438 de 2019 para 408.

E há uma ou duas semanas, um relatório da própria Agencia Internacional de Energia Atômica balançou muitas certezas – e acendeu muitas esperanças para os que lutam contra o nuclear – dizendo: “um cenário de energia 100% renovável é ‘tecnicamente possível’ na França”, o país conhecido como o mais “nuclearizado” do mundo. 

Mas infelizmente, como se não bastassem outras vergonhas que o Brasil passa atualmente no mundo, com a “Presidemência” que temos (como diz o poeta Augusto de Campos), estamos entre entre os países incautos que ainda querem construir usinas, a vítima da vez da propaganda promovida pelo lobby nuclear internacional. 

Mas fico por aqui. Deixo, para outra vez indicar a verdadeira desgraceira que uma grande obra como essa – seis usinas num só local – trará para os moradores da pequena cidade de Itacuruba: ribeirinhos, indígenas, quilombolas e muitos outros. Assim como falar do nervosismo dos “nucleopatas” (como ouvi de um conhecido professor universitário), com os “alarmistas” e “cassandras” que, segundo eles, só querem pôr medo na população. 

Eles usam, com todo o dinheiro de que dispõem, os mesmos métodos dos que contratam cientistas como “mercadores da dúvida”, para levar as pessoas a não acreditarem que o cigarro provoca câncer (como fizeram em tempos idos, mas com resultados até hoje) e a não acreditarem que a Terra está se aquecendo demais (como fazem em tempos atuais).

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor…

O bolsonarismo perdeu a batalha das urnas, mas não está morto.

Diante de um país tão dividido e arrasado, é preciso centrar esforços em uma reconstrução.

Seu apoio, leitor, será ainda mais fundamental.

Se você valoriza o bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando por um novo Brasil.

Assine a edição semanal da revista;

Ou contribua, com o quanto puder.