Sustentabilidade

Lavoura arcaica

Ruralistas aproveitam a seca e as queimadas para expandir o cultivo de soja no Pantanal Sul

“Oportunidade”. Com os preços do grão em alta e a seca forte, os produtores aproveitam para avançar um pouco mais na área do Pantanal - Imagem: Portos do Paraná/GOVPR e Riccardo Pravettoni/Grid-Arental
“Oportunidade”. Com os preços do grão em alta e a seca forte, os produtores aproveitam para avançar um pouco mais na área do Pantanal - Imagem: Portos do Paraná/GOVPR e Riccardo Pravettoni/Grid-Arental
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O avanço da soja no Pantanal ameaça uma parte do bioma localizada em Mato Grosso do Sul. Apesar de ser uma região caracteristicamente alagada e praticamente inviável para a sojicultura, muitos ruralistas aproveitam a devastação provocada pelas queimadas de 2020 e 2021 e o longo período de seca para investir no cultivo do grão. Na terça-feira 12, o preço da saca de 60 quilos valia em torno de 190 reais, ou 36 dólares. Só no primeiro semestre deste ano, o Brasil exportou à China, maior mercado, 35,2 milhões de toneladas.

Segundo a ONG SOS Pantanal, existem ao menos 3 mil hectares de produção de soja na planície pantaneira sul, localizados nos municípios de Coxim, Miranda e Aquidauana. Uma quantidade relativamente pequena, considerada a extensão territorial do local, mas que preocupa ambientalistas e acadêmicos por conta da velocidade de expansão da área cultivada. Em 2016, havia pouco mais de 50 hectares. “O Pantanal passa por regimes de cheias e secas ao longo dos anos. Nas últimas três décadas, a seca tem predominado. O regime de inundação que era bem previsível, geralmente passava metade do ano entre cheia a vazante, hoje está desregulado. Os períodos de cheias ficaram mais curtos e a área alagada é cada vez menor. De 2021 para cá, aumentou muito a produção de soja. Com o solo seco é mais fácil avançar por áreas onde antes não tinha como, porque a água protegia”, explica Gustavo Figueiroa, do SOS Pantanal. O plantio, diz, exige extensas áreas desmatadas e necessita do uso de defensivos agrícolas para viabilizar a produção em grande escala, o que coloca em risco o bioma pantaneiro e a biodiversidade do local.

Embora no Pantanal Sul o cultivo do grão seja recente, o Mato Grosso do Sul tem uma tradição na sojicultura. É o quinto maior produtor do Brasil, com 3,7 milhões de hectares utilizados, equivalentes a 11% do território estadual. O vizinho Mato Grosso, que abriga 35% do Pantanal, lidera o ranking nacional de produção de soja (10,294 milhões de hectares). Apesar da liderança, o Mato Grosso aprovou uma lei que impede o cultivo na região pantaneira do lado de lá. Obras de infraestrutura têm, no entanto, sido realizadas no Pantanal Sul, o que, dizem os ambientalistas, tem por finalidade atender à demanda dos produtores de soja. São estradas, aterros e até a construção de um porto. “O Pantanal é um lugar com uma logística muito complicada, muitas áreas alagadas e terrenos irregulares. Para transitar precisa de estradas boas. O governo de Mato Grosso do Sul tem investido em infraestrutura e, conforme isso avança, as estradas ficam melhores, os acessos para áreas mais inóspita ficam mais fáceis, e a tendência é de que se consiga plantar, produzir e escoar essa produção com mais facilidade. Lugares que hoje ainda não têm soja porque ficam muito longe, com uma infraestrutura melhorada passam a ser viáveis”, destaca Figueiroa.

Ambientalistas alertam para os riscos ao bioma causados pelos agrotóxicos usados na produção

Em nota, o governo estadual nega o avanço da soja em áreas de conservação e justifica as obras de infraestrutura. As vias de escoamento de produção agropecuária, diz o texto, são objeto de manutenção. “Da mesma forma, também têm sido realizadas obras de melhoria e manutenção de pontes e estradas de acesso aos atrativos de turismo no Pantanal de Corumbá. No caso da região pantaneira, o tráfego em boas estradas também auxilia os produtores na retirada do gado de áreas da planície (baixas) que foram inundadas ou que podem receber água dos afluentes do Rio Paraguai.”

Edna Scremin Dias, bióloga e professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, ressalta as alterações que o Pantanal tem sofrido ao longo dos anos, seja pela pecuária, seja pelo cultivo. “A partir de 2018, começou a aparecer soja nas áreas de planície. Já existia ali no limite com o planalto, mas, com o ciclo de seca intensa em 2021, a maior dos últimos 50 anos, os proprietários acharam que podiam aproveitar para avançar ainda mais.” A pesquisadora lembra que os agroquímicos utilizados na sojicultura vão comprometer a qualidade do solo e da água dos rios e destruir os polinizadores que prestam um grande serviço ao meio ambiente. A ação de inseticidas, fungicidas, herbicidas e nematicidas utilizados para controlar pragas e doenças na plantação possui compostos poluidores, entre eles metais pesados, surfactantes e emulsificantes que em contato com o solo superam qualquer barreira física. A acadêmica cita o exemplo de Bonito, distante apenas 100 quilômetros do Pantanal Sul. Conhecida pelas águas cristalinas dos rios e cachoeiras e procurada por turistas do mundo todo, a cidade fica na região da Bacia do Miranda, que desemboca no Pantanal, e seus principais rios estão ameaçados pelo avanço do cultivo de soja. Antes, a água era transparente e, mesmo quando chovia, não demorava muito para voltar a ficar cristalina. Com as lavouras de soja, a transparência foi substituída pelo amarronzado provocado pelos agentes químicos. A professora defende a proibição do plantio de soja não apenas no Pantanal, mas na região fronteiriça com o planalto. “Nas áreas do planalto, se houver plantio de soja, tem de ser muito bem fiscalizado em termos de uso e conservação do solo, plantio direto para que a enxurrada não leve partículas de solo para a água. Se alteramos as características naturais dos rios, afetamos toda a cadeia do ecossistema.”

Malu Ribeiro, da ONG SOS Mata Atlântica, destaca a importância do bioma pantaneiro na relação com a comunidade local. “Na medida em que você tira a mata nativa, potencializa a escassez hídrica. Não vai ter agricultura irrigada e afasta a participação da sociedade. Você impõe a essa área outra cultura, outro valor em relação às alternativas socioeconômicas e socioambientais, atitude que pode mudar completamente o futuro da região, inclusive trazendo a aceleração do processo de desertificação.” Ângelo Lima, pesquisador do Instituto Gaia de Educação Ambiental do Pantanal, reforça a importância de pensar a região a partir do desenvolvimento sustentável e socialmente viável. “Quando você combina uma monocultura como a soja com desmatamento, coloca em risco todo o ecossistema e compromete a saúde das comunidades do entorno. É preciso fazer esse debate a partir de qual modelo queremos. Ele precisa considerar a questão ambiental, econômica e social.”

Santuários. A biodiversidade está ameaçada, assim como o ecoturismo. As águas de Bonito não andam tão cristalinas como antes – Imagem: Redes sociais e iStockphoto

Na opinião de Edna Dias, na sojicultura o ganho concentra-se em um pequeno grupo que não sociabiliza os benefícios com a comunidade local, o oposto de uma atividade econômica como o turismo. “Dizem que geram impostos. Mas a que preço?”, pergunta, antes de acrescentar que o pantaneiro tradicional tem sido substituído por especuladores imobiliários e investidores de outros estados que compram grandes propriedades, retiram toda a vegetação e revendem as terras. “Os descendentes dos pantaneiros tradicionais não querem viver da pecuária. Mas o gado, assim como a soja, também tem o preço baseado no dólar. Então, manter a pecuária, a partir de uma prática de sustentabilidade e manejo da pastagem, dá para ser feito e vai gerar um valor diferenciado. O mercado internacional quer sustentabilidade e o Pantanal tem como vender isso. Esse produtor pode comercializar os créditos de baixo carbono por ter deixado a mata e os campos nativos em pé. O ecoturismo e o turismo rural também ganham mais com a vegetação em pé do que com a alteração da biodiversidade. Se isso não acontecer, não haverá mais o Pantanal para as gerações futuras.”

O avanço da soja na porção sul acompanha a escalada na produção da oleaginosa no estado. Nos últimos quatro anos, o cultivo aumentou 24%, de 2,98 milhões de hectares para 3,7 milhões, segundo dados da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar. A estimativa é de que o plantio do grão chegue a 4,5 milhões de hectares nos próximos três anos. A maior parte da soja produzida em Mato Grosso do Sul tem como destinos China, Bangladesh, Tailândia, Argentina, Vietnã, Paquistão e Coreia do Sul.

De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, as fazendas de soja do Pantanal seguem à risca o Código Florestal e preservam um total de 39,8 milhões de hectares de vegetação nativa. O gerente de sustentabilidade da entidade, Bernardo Pires, reconhece que a região não é apropriada para a lavoura do grão. “O Pantanal tem poucas áreas com alta aptidão agrícola, quando comparado ao Cerrado e a Mata Atlântica, por não possuir boas condições edafoclimáticas para o plantio da soja, por isso não haverá uma expansão significativa da oleaginosa nesse importante bioma, que ainda possui mais de 80% de sua área preservada.”

Edna Dias, bióloga e acadêmica: “O mercado internacional quer sustentabilidade e o Pantanal tem como vender isso”

Maior planície inundável do planeta em extensão contínua, o Pantanal é a “casa” de ao menos 4,7 mil espécies, incluídos 3,5 mil tipos de plantas, 650 de aves, 124 de mamíferos, 80 de répteis, 60 de anfíbios e 260 de peixes de água doce, alguns em risco de extinção. “Não podemos permitir que esse equilíbrio seja abalado por uma atividade altamente destrutiva como o plantio de soja em larga escala”, pontua Gustavo Figueiroa. O SOS Pantanal ressalta a vocação pantaneira para a pecuária, que convive com o bioma há mais de 200 anos e mantém uma relação de equilíbrio. Para o cultivo da soja permanecer sem adentrar no território pantaneiro, a entidade sugere converter os 8 milhões de hectares de áreas degradadas existentes no estado em lavoura da oleaginosa.

A ONG acaba de lançar a campanha #PantanalNãoÉLugarDeSoja, na plataforma de petições Avaaz, com o objetivo de pressionar o governo do estado e o Legislativo a produzirem uma lei que ­proíba a sojicultura no Pantanal, assim como existe no vizinho Mato Grosso. Além disso, está em elaboração uma proposta de Projeto de Lei que deverá ser apresentada à Assembleia Legislativa no segundo semestre, após o recesso parlamentar, para coibir qualquer tentativa de produção da oleaginosa na região pantaneira.

Em 2016, foi publicada a Carta ­Caiman, documento assinado pelos governos dos dois estados com cinco compromissos a serem seguidos. O objetivo era a conservação e desenvolvimento econômico do Pantanal. Entre os compromissos está a proibição da monocultura na região, incluído, portanto, o cultivo da soja. Como se vê hoje, a carta foi rasgada pelo Mato Grosso do Sul. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1217 DE CARTACAPITAL, EM 20 DE JULHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Lavoura arcaica “

Fabíola Mendonça
Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco

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