Sustentabilidade

Cúpula de meio ambiente de Estocolmo sofre com esvaziamento

Sediada na capital sueca meio século depois da conferência que colocou a preocupação ambiental na agenda global, Estocolmo+50 impressiona com discursos fortes e poucas ações concretas

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A lista de tarefas que os governos levam para casa depois dos dois dias da Conferência Estocolmo+50, cúpula sobre meio ambiente que comemorou as cinco décadas da primeira reunião do tipo feita no mundo, é carregada de termos bastante familiares.

Respeito aos direitos humanos e ambientais, maior velocidade no cumprimento de acordos e metas já assumidas, e mais dinheiro para projetos sustentáveis fazem parte das recomendações-chave aprovadas no documento ao fim das plenárias, nesta sexta-feira (03/06), na capital da Suécia.

Para o governo sueco, que presidiu a conferência, a sensação é de dever cumprido. “Acreditamos que mobilizamos e aproveitamos – coletivamente – o potencial deste encontro. Agora temos um plano de aceleração para ir mais longe”, declarou a ministra sueca do Meio Ambiente, Annika Strandhäll, após a leitura do documento.

Strandhäll defende que Estocolmo+50 foi um marco “no nosso caminho rumo a um planeta mais saudável para todos, não deixando ninguém para trás”.

Para os demais participantes, a sensação é de que os discursos, unânimes quanto à urgência de mudanças para a continuidade da vida humana na Terra, não vão muito além das palavras de efeito.

A ex-ministra do Meio Ambiente brasileira Izabella Teixeira, por exemplo, percebe que as tensões políticas e relações complexas entre os países mais ricos e mais pobres não desaparecem. Sem dinheiro e com menor participação nos processos de negociações, é difícil para os menos desenvolvidos fazerem o esperado dever de casa.

“Não há como avançar se o multilateralismo ambiental não tiver um papel mais estratégico na construção dos processos de desenvolvimento. Tem que ter capacidade de intervir (como o Fundo Monetário Internacional) para ajudar os países expostos e vulneráveis. É preciso mudar métricas, escalas e a governança ambiental-climática para o rumo da prosa mudar”, diz Teixeira à DW, em Estocolmo.

Um senso de esvaziamento da conferência também esteve presente. “Há um certo sentimento de perda, de que falta alguma coisa aqui, mas acho que tem a ver com o momento histórico que estamos vivendo. Há uma guerra aqui do lado, e os temas mudanças climáticas e biodiversidade estão separados, setorizados, com seus caminhos próprios”, comenta o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Antonio Herman Benjamin, bastante atuante na área ambiental, fazendo referência às convenções específicas dentro das Nações Unidas que têm suas próprias negociações diplomáticas.

Sem discursar na tribuna ou participar dos debates promovidos ao longo da conferência, Joaquim Leite, atual ministro do Meio Ambiente, recusou-se a dar entrevista ao ser abordado pela reportagem quase no fim do evento.

Jovens brasileiros quebram barreiras

Mencionados como “próximas gerações” na reunião inaugural sobre Meio Ambiente em 1972, jovens movimentaram os corredores da edição de 2022. Entre eles estava Samela Sateré Mawé, de 25 anos, indígena do estado do Amazonas.

“É praticamente impossível, inacessível, para jovens como eu estar aqui”, afirma à DW. “A nossa geração está muito preocupada com o futuro e com a atualidade. A gente vive num país onde mais se desmata, mas que tem a maior diversidade. E nos preocupamos com isso, queremos que todos tenham possibilidade de vida, de respirar ar limpo”, adiciona.

Mikaelle Farias, 19 anos, decidiu pelo ativismo depois de ver o impacto nas comunidades pesqueiras trazido pelas manchas de petróleo na cidade onde mora, João Pessoa, na Paraíba. Em 2019, um derramamento misterioso atingiu parte da costa brasileira, crime ambiental que, mais tarde, foi atribuído a um navio grego pela Polícia Federal.

Ela deseja agora ser ouvida por quem decide. “As conferências da ONU sempre foram ocupadas por pessoas brancas, por homens de terno. É muito difícil para as mulheres negras, para povos indígenas chegarem dentro desses espaços e conseguirem colocar suas vozes. Eles decidem nosso futuro, mas não nos incluem no debate”, critica.

Karina Penha, ativista e bióloga de 26 anos do Maranhão, tem assistido ao aumento da participação jovem em eventos do tipo desde 2016. “Ainda assim, é super complexo chegar aqui. A gente está sempre buscando vaquinha, apoio, nunca é fácil, ainda mais trazer os jovens para esses países muito caros”, diz ela sobre a ida à Suécia, país que tem um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano e um custo de vida elevado – principalmente quando comparado ao Brasil.

De tema desconhecido a prioridade

Aos 89 anos, o diplomata sueco Jan Martenson viu a preocupação ambiental ir do “zero” ao “topo da agenda global”. Em 1972, ele recebeu do governo, que tomou a iniciativa de levar o tema à ONU, a missão de organizar a histórica Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano.

“Muito foi feito e criado desde então, mas é verdade que tem havido muita conversa, nem tanta ação. E a degradação do meio ambiente continua”, diz ele em entrevista à DW. “Veja o caso do Brasil, onde a Floresta Amazônica está sendo cortada, queimada. As pessoas parecem que não estão muito conscientes das consequências disso.”

Para Martenson, um dos ganhos mais valiosos da Declaração de Estocolmo, documento que saiu ao fim daquela reunião há 50 anos, foi a inserção do meio ambiente humano como um direito humano. “Naquele tempo, a questão ambiental era inexistente. Fumaça densa saindo de chaminés altas e rios concretados eram considerados sinais de progresso, de desenvolvimento, de riqueza. Ninguém via a parte destrutiva desse processo”, relembra.

Martenson acredita que a edição de 2022, apesar das críticas, será lembrada como importante no futuro. “Ela traz um novo ar, um novo impulso a esse processo que começou lá atrás”, explica.

Greta nas ruas

Presença constante às sextas-feiras em frente ao Parlamento sueco desde 2018 como forma de protesto contra a falta de ação contra as mudanças climáticas, a jovem Greta Thunberg não participou de qualquer evento oficial da Estocolmo+50.

Enquanto a reunião se aproximava do fim, Thunberg marchava com outros manifestantes de todas as idades pelas ruas de Estocolmo, erguendo placas que pediam mais ação, fim do ecocídio climático, justiça climática e proteção dos defensores do meio ambiente.

Ao fim da marcha, jovens ativistas de diferentes regiões do globo contaram no microfone as dificuldades enfrentadas em seus países. A brasileira Adriani Maffioletti, do movimento Greve pelo Clima Brasil, foi uma delas.

“Como vocês se preocupam em proteger as árvores, mas não em proteger as pessoas que estão sendo assassinadas por protegerem toda essa biodiversidade da Floresta Amazônica?”, questionou ao público internacional, que a aplaudiu.

Deutsche Welle

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