Com queimadas na Amazônia, Brasil vai contra o mundo na diminuição de gases estufa na pandemia

Junho bateu recordes dos últimos 13 anos em relação aos focos de incêndio no bioma, outro impacto da ausência do governo

Amazônia em chamas (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Amazônia em chamas (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Sustentabilidade

Apesar dos impactos desastrosos da pandemia de coronavírus nas vidas, culturas e economias mundo afora, cientistas têm observado quais serão os resultados do isolamento social para a emissão de gases estufa na atmosfera, que havia registrado quedas importantes e melhorado a qualidade do ar nas grandes metrópoles.

No entanto, parece que o Brasil nada contra a corrente mais uma vez – e, neste caso, o crescimento das queimadas na Amazônia piora o posicionamento do País no ranking de emissões.

Segundo dados compilados pelo Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais), os focos de calor na Amazônia no mês de junho ultrapassaram recordes dos últimos 13 anos. Foram 2.248 registros, o que representa um aumento de 19,57% em relação ao registrado em junho de 2019 (1.880).

“As queimadas contribuem simultaneamente para as crises globais do clima, da biodiversidade e com a catástrofe sanitária na região. O Brasil precisará fazer mais, muito mais, se quiser detê-las, fortalecendo os órgãos de controle, com planos permanentes e metas claras, e não de operações pontuais e custosas”, afirmou Rômulo Batista, da campanha de Amazônia da organização internacional Greenpeace, referindo-se ao decreto da Garantia de Lei e Ordem (GLO) de maio, que levou as Forças Armadas para combater o desmatamento da floresta.

Apesar de ser apresentada como solução, a GLO tem um custo de R$ 60 milhões mensais, o que corresponde a cerca de 80% do orçamento do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que tem sido desmantelado em relação aos seus cargos de chefia e planejamento de ações, além do baixo contingente de servidores para dar prosseguimentos nas multas e processos ambientais.

Todo esse cenário já tem contribuído para uma emissão maior de gases na atmosfera, segundo um relatório do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Pesquisadores mapearam uma redução, entre março e abril, de 33% nas emissões do NO2, o dióxido de nitrogênio, relacionado à emissão de gases industriais e dos transportes. Porém, o acentuamento das queimadas deve levar o Pais a ir na direção contrária à tendência mundial.

“Devido à continuidade da atividade de desmatamento, mesmo durante o período de pandemia, há uma projeção, para o Brasil, de crescimento entre 10% e 20% das emissões de GEE [gases de efeito estufa] para o ano de 2020 em comparação com 2018 (último ano com dados disponíveis), enquanto que, nas projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), as emissões mundiais de GEE devem decrescer cerca de 8% em 2020”, afirmam os pesquisadores da Unicamp, que também dão destaque para o uso da terra no agronegócio.

O relatório também destaca o perigo que os ataques constantes ao meio ambiente representam para os negócios e a imagem do Brasil no exterior, duas alegadas preocupações das equipes de Paulo Guedes (Economia), Tereza Cristina (Agricultura) e do próprio presidente Jair Bolsonaro, que já culpou veículos internacionais de imprensa de serem “de esquerda” ao propagarem notícias negativas sobre o País.

O diagnóstico dos pesquisadores vai mais afundo e cita a já memorável frase de Ricardo Salles sobre “passar a boiada na pandemia” – plano que parece estar dando certo.

“Cabe verificar até que ponto esta anulação das responsabilidades com o meio ambiente irá degradar ainda mais as condições do país no aspecto ambiental com graves consequências para as atuais e futuras gerações de brasileiros.”, concluem.

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