Você sabe o que é militância asiática?

Sociedade

Exposição de microagressões, defesa da solidariedade antirracista e da descolonização, além da busca por representatividade e visibilidade para os asiáticos e descendentes que vivem no Brasil.

Essas são algumas das bandeiras de coletivos e grupos de discussão política integrados por homens e mulheres descendentes de japoneses, chineses, taiwaneses, coreanos, indianos e outros grupos minorizados cujas famílias saíram da Ásia para o Brasil.

No exterior, a questão é discutida já há algum tempo pela mídia e pela academia, mas o assunto ainda recebe pouca atenção no contexto brasileiro.

Segundo dados do Censo 2010, 2 milhões de residentes no País se autodeclaram de raça ou cor “amarela”. Apesar de proporcionalmente pequena, o grupo cresceu 177% em uma década, passando de 0,45% de asiáticos e descendentes em 2000 para 1% da população em 2010.

O fenômeno é explicado tanto pelos novos fluxos migratórios quanto pela identificação maior dos descendentes com as suas origens.

Em coletivos e páginas do Facebook como o Perigo Amarelo, Asiáticos pela Diversidade, Lótus Power e Yo Ban Boo, os jovens discutem as opressões específicas sofridas por esses grupos no Brasil — que vão desde piadinhas, passam pela objetificação das mulheres e chegam até discussões sobre os estereótipos de personagens asiáticos em produções audiovisuais — ao mesmo tempo em que expõem textos teóricos, resgatam personalidades e fatos históricos e debatem o papel da chamada “minoria modelo” na sociedade brasileira.

“A assimilação das comunidades asiáticas serve para fundamentar vários mitos do capitalismo, como a meritocracia. Por exemplo, é comum ouvir que se os imigrantes asiáticos chegaram em condições de vulnerabilidade, mas conseguiram alcançar o status de classe média ou de elite, significa que todos podem fazer isso também”, explica Fabio Ando Filho, educador popular e descendente de japoneses e de okinawanos (uchinachu).

Gabriela Shimabuko, colaboradora do Perigo Amarelo e do blog Outra Coluna, explica que, no senso comum, os asiáticos são colocados como uma minoria esforçada e estudiosa, capaz de ascender economicamente sem assistencialismo. Já os negros são colocados do outro lado, como oposição.

“Usam duas histórias completamente diferentes para argumentar a favor da democracia racial, contra cotas e ações afirmativas, como se realmente não existisse racismo estrutural no Brasil”, critica.

 

Apesar de questões como a representatividade ajudarem a chamar a atenção para a militância asiática, grupos como o Perigo Amarelo não pretendem deixar de lado o viés político. “O pessoal adora quando a gente vai falar de novela, mas não acompanha quando falamos de política”, conta Ando, também fundador do Perigo Amarelo e colaborador do Outra Coluna.

O educador popular acredita que é importante resgatar e entender o histórico da integração das comunidades asiáticas no Brasil e, ao mesmo tempo, como esse processo foi marcado pela violência do Estado. Ele cita como exemplo os discursos racializados do final do século 19 que pautaram a imigração japonesa para o Brasil e o tratamento dado a essa mesma comunidade no contexto da Segunda Guerra, quando houve perseguições. 

“A invisibilização da raça amarela e das comunidades asiáticas gera esse apagamento histórico. Trazemos a visibilidade para conseguir se situar como agente político, que pode e deve intervir politicamente na sociedade hoje”, afirma.

Trabalho coletivo

Sediados em São Paulo, os grupos trabalham, de uma forma ou de outra, de maneira coletiva. É comum o compartilhamento de conteúdos e a indicação de textos ou ideias expostas em outras páginas. Um dos vídeos com mais visualizações no canal do YouTube Yo Ban Boo, por exemplo, é baseado em um texto publicado no Outra Coluna, sobre o papel dos asiáticos no racismo anti-negro.

No vídeo, veiculado no canal criado pelo cineasta Leonardo Hwan e os amigos Kiko Morente e Beatriz Diaféria, é contada a história de quando, ao filmar cenas de ações com réplicas de armas nas ruas de Osasco, o grupo foi abordado pela polícia, mas não sofreu maiores problemas porque estavam de terno e eram “japoneses”.

“Muitas vezes você para e pensa: por que estou reclamando [de ser estereotipado como asiático] se com isso a polícia me trata melhor? Acho que devemos reclamar justamente por isso, porque temos um privilégio em detrimento de outras pessoas. Nas próprias famílias existe muito racismo”, conta Hwan, que é descendente de taiwaneses.

O canal nasceu diante da informação de que apenas 3% dos personagens em produções audiovisuais brasileiras pertencem à categoria “asiáticos/indígenas/outros”, ante uma esmagadora maioria branca.

Um exemplo dessa subrepresentação calcada em estereótipos foi a composição de elenco da novela global “Sol Nascente”, focada na história de duas famílias de imigrantes, japonesa e italiana. O maior escândalo aconteceu porque um dos personagens principais, o patriarca japonês Kazuo Tanaka, foi interpretado pelo ator Luís Melo, sem qualquer ligação com o Japão na vida real.

A novela foi acusada da prática de “yellowface”, isto é, de usar atores ocidentais para interpretar asiáticos, uma analogia à prática racista “blackface”, quando personagens negros eram interpretados de maneira depreciativa por brancos com os rostos pintados. Tal dinâmica, comum em Hollywood, não raro, vem acompanhada de uma boa dose de estereótipo e de racismo.

Inicialmente, conta Leonardo, a ideia era criar um espaço para atores descendentes no Brasil. Com o tempo, porém, o canal abriu espaço para vídeos como “Coisas que os asiáticos brasileiros sempre ouvem” ou “Situações que os mestiços asiáticos já passaram”.

“Queremos mostrar como nos sentimos, o que pensamos, quais são as nossas histórias que não estão na televisão”, afirma. Ao mesmo tempo, apenas contratar atores asiáticos não é suficiente.

“Só colocar atores asiáticos não basta. É muito mais complexo e demanda um esforço muito maior nos retratar de maneira fiel. Para isso, é preciso roteiristas, editores, produtores e diretores asiáticos também”, critica Kiko Morente. 

No começo, conta Hwan, era comum o Yo Ban Boo receber críticas quando se falava de assuntos considerados sérios. “Mas logo as pessoas começaram a entender qual papel queremos ter e começaram a ouvir mais”

Aliança pela diversidade

A ajuda mútua também se deu entre a Lótus PWR e o grupo Asiáticos pela Diversidade, uma página nas redes sociais e grupo de estudo que busca acolher asiáticos LGBTs. Juntos, promoveram um encontro para discutir o feminismo no contexto asiático.

Rodrygo Tanaka, descendente de japoneses, criou o Asiáticos pela Diversidade em 2015, e também já promoveu encontros para falar sobre a militância e a conciliação entre identidade asiática e LGBT, este, sediado na Casa 1, espaço de acolhimento para LGBTs em situação de vulnerabilidade. “Muitas vezes a gente tem que viver vidas diferentes, não conseguimos ser os dois ao mesmo tempo, é um ou outro”, afirma Tanaka.

O grupo é, contudo, essencialmente virtual, o que representa uma vantagem neste caso. “Muitos são pessoas que só existem em internet, em ambientes fechados, não vão à Parada do Orgulho LGBT ou ambientes mais públicos. Até por isso a solidão é uma característica muito comum entre esses asiáticos que não conseguem viver plenamente a sua identidade de gênero ou sexualidade”.

Encontrar pessoas com o mesmo tipo de vivência e sofrimentos é um alento. “Em grupos de asiáticos a questão LGBT fica diluída. Em grupos LGBTs quase nunca é possível conversar sobre fetichização, identidade e cultura, exclusão social, e família asiática”, explica Tanaka, afirmando que um comentário muito recorrente no grupo é de que os integrantes não conheciam outros asiáticos na mesma luta e não encontravam espaços seguros onde pudessem falar e encontrar acolhimento — até conhecerem o Asiáticos pela Diversidade.

Para Fabio, do Perigo Amarelo, a militância asiática é um espaço que traz, ao mesmo tempo, a convergência política e a possibilidade de compartilhar histórias e experiências próprias dos descendentes. “É interessante, porque gera um outro tipo de debate, que eu não tinha com outros companheiros de militância. Eu consigo me reconhecer neste grupo”.

Leonardo Hwan reflete que, com o fortalecimento dos movimento identitários, torna-se cada vez mais possível refletir sobre a sua identidade, seus privilégios e não normalizar situações de discriminação.

“Nós não somos obrigados a ouvir piadinhas. Quando você toma consciência de que não é branco, começa a entender várias outras coisas. O principal ponto é assumir e entender quem você é”.

* A ilustração foi gentilmente cedida pela artista de ascendência norte-coreana Ingrid Sá Lee

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