Sociedade
Vazamento na Foz do Amazonas atingiria costa, diz Petrobras
Modelagem apresentada pela empresa ao Ibama traça cenários de derramamento de óleo que poderiam atingir o litoral do Amapá
Um eventual vazamento nos poços onde a Petrobras vem buscando petróleo na Foz do Amazonas poderia atingir a costa, segundo conclusão da própria empresa, em relatório apresentado ao Ibama, ao qual a DW teve acesso.
Segundo os novos estudos de modelagem de derrame de óleo no mar apresentados pela petrolífera, há chance de que manchas de óleo atinjam o litoral do Amapá, em Calçoene e Oiapoque.
Até então, a empresa afirmava que as análises feitas para licenciar a pesquisa exploratória do bloco FZA-M-59, autorizada em outubro de 2024, demonstravam que as correntes marítimas levariam um hipotético derrame em direção contrária à costa brasileira.
O relatório atualizado também mostra que um estrago maior seria observado além dos limites da bacia marítima da Foz do Amazonas. No Caribe, são maiores as chances de o óleo chegar a Trinidad e Tobago, Granada, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia, Martinica e Barbados.
No continente sul-americano, o litoral da Venezuela, do Suriname, da Guiana e da Guiana Francesa também poderiam ser atingidos.
Em todos esses locais, a probabilidade varia conforme o período analisado: de dezembro a junho ou de julho a novembro. As simulações feitas pela Petrobras consideraram esses dois intervalos por conta das variações nas condições ambientais como correntes, ventos e marés.
“Em ambos os períodos considerados no estudo de modelagem, as áreas de probabilidade de ocorrência de óleo se estendem para regiões além do limite da Bacia da Foz do Amazonas, com altas probabilidades, alcançando as Zonas Econômicas Exclusivas (ZEEs) de vários países da América do Sul e do Caribe”, afirma o documento.
Segundo o relatório, o estudo simula o pior cenário de um derramamento para identificar as áreas de maior risco e planejar a resposta de emergência.
Margem Equatorial Brasileira se estende do Rio Grande do Norte ao Amapá – Imagem: Petrobras/Divulgação
Licenciamento em curso
A simulação faz parte do Estudo de Impacto Ambiental da perfuração dos blocos FZA-M-57, FZA-M-86, FZA-M-88, FZA-M-125 e FZA-M-127, todos na bacia marítima da Foz do Amazonas.
Como parte do processo de licenciamento ambiental, o Ibama havia solicitado estudos atualizados que considerassem a dinâmica oceanográfica da Margem Equatorial, região marítima que se estende do Amapá ao Rio Grande do Norte.
O novo documento, protocolado junto ao órgão ambiental no começo de abril, incorporou dados mais recentes sobre o meio socioeconômico, projetos em andamento e literatura científica.
Segundo a análise de vulnerabilidade, o trecho da costa brasileira entre Calçoene e Oiapoque apresenta probabilidade de toque de óleo no caso de vazamento no período entre dezembro e junho. O Parque Nacional do Cabo Orange, importante unidade de conservação por sua biodiversidade, também seria atingido.
“A manutenção da integridade ambiental depende da adoção de uma gestão ambiental sistemática e eficaz, fundamentada na implementação dos programas e projetos ambientais recomendados neste estudo, bem como no estrito cumprimento da legislação ambiental brasileira e das normas internacionais aplicáveis à atividade”, diz o documento.
Impactos locais da perfuração
Em condições normais de operação, a perfuração nos sete blocos deverá gerar impactos nos meios físico, biológico e socioeconômico, segundo o estudo. Os efeitos são previstos para todas as fases do empreendimento e estão associados principalmente à circulação de rotina do navio-sonda e das embarcações de apoio.
Além das bases de apoio a serem usadas pela Petrobras, do porto de Belém e do aeródromo de Oiapoque, outros 26 municípios na área de influência do empreendimento, espalhados pelo Amapá, Pará, Piauí, Maranhão e Ceará, deverão ser afetados.
Eles “terão a pesca, a aquicultura, o turismo, demais atividades econômicas e recreativas e unidades de conservação sujeitos à interferência da atividade (…) considerando as ações (rotas, manobras, fundeio etc.) de todas as embarcações”, diz o relatório.
A região é altamente sensível por abrigar espécies ameaçadas de extinção e funcionar como um corredor migratório. Essa parte da costa amazônica também é lar de comunidades indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e extrativistas.
Perfuração em andamento
Depois de anos de tentativas, a Petrobras foi a primeira a conseguir autorização para perfurar na bacia marítima da Foz do Amazonas, no chamado bloco FZA-M-59. Assim que a licença do Ibama foi concedida, em outubro de 2025, a empresa tentou usar o mesmo processo de licenciamento para perfurar outros três poços adjacentes.
O estudo de impacto ambiental atualizado submetido pela petroleira se refere ao processo de outros cinco blocos (FZA-M-57, FZA-M-86, FZA-M-88, FZA-M-125 e FZA-M-127). No local, está prevista a perfuração de quinze poços a uma distância média de 160 quilômetros da costa, em profundidades que vão de 4,8 a 5,9 quilômetros.
Em fevereiro de 2026, um vazamento liberou cerca de 18 mil litros de fluido de perfuração no bloco 59. Um relatório do Ibama, ao qual a DW teve acesso à época, concluiu que a toxicidade do produto à base de óleo que escapou para o mar provocou impactos negativos no ambiente, podendo levar animais afetados a perder funções básicas como respiração e capacidade de se alimentar. Outros organismos-chave podem ter sido eliminados na área atingida, o que altera a dinâmica de toda a cadeia.
O que diz a Petrobras
A Petrobras informou que aguarda a análise do órgão ambiental referente ao processo de licenciamento dos 15 poços da Bacia do Foz do Amazonas. A campanha de exploração deve investir R$ 13 bilhões até 2030.
Sobre os resultados do estudo de modelagem atualizado, a empresa disse que apresentou o relatório dentro do processo de licenciamento e que ele foi aprovado pelo órgão ambiental.
A petroleira não informou se localizou petróleo nas operações exploratórias no bloco 59, em andamento desde outubro. As operações, afirma a nota enviada à DW, ocorrem dentro “previsto e dentro da variabilidade natural para um projeto desta categoria, conduzido com todo o zelo e segurança”.
O término da perfuração está estimado para o mês de agosto de 2026.
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