Sociedade

‘Todo o progresso dos primeiros 15 anos do milênio foi perdido’

O neurocientista Sidarta Ribeiro se une ao time de colunistas de CartaCapital e dá uma pequena amostra dos debates que pretende encampar

Sidarta Ribeiro fundou o Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Foto: Luiza Mugnol Ugarte)
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Com pós-doutorado pela Duke University, Sidarta Ribeiro passou mais de uma década nos EUA debruçado em pesquisas sobre a fisiologia do cérebro humano. Ao retornar ao Brasil, fundou o Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde passou a concentrar os estudos no universo onírico, desvendando a importância do sonho para o bem-estar e melhor compreensão do ser humano.

Autor do best seller Oráculo da noite: a história e a ciência do sonho (Cia das Letras), o neurocientista jamais se furtou a participar do debate político e a defender um maior investimento do Estado na Educação e na Ciência, áreas estratégicas para qualquer nação com ambição de se desenvolver e ocupar um lugar de destaque no mundo. Foi justamente com esse propósito que Ribeiro aceitou o convite para se unir ao time de colunistas de CartaCapital. A partir da próxima edição, o neurocientista passa a escrever mensalmente, e não apenas com o propósito de difundir os resultados de suas pesquisas e outros achados sobre o funcionamento do cérebro humano, como fez durante a sua recente colaboração para a Folha de S.Paulo.

“Enxerguei o convite de CartaCapital como uma oportunidade de participar do debate público nesse ano do bicentenário da Independência e também de eleições, com consequências muito sérias para o futuro do Brasil”, afirma Ribeiro, que também é conselheiro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC. “Este é o momento de sonhar e construir um projeto de nação. O Brasil é um quase país. A maior parte dos brasileiros não pertencem, de fato, a este país, pois estão excluídas. Vivemos em uma sociedade extremamente desigual e é sobre isso que pretendo falar, apontando alternativas para superar essa situação.”

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista. A íntegra, em vídeo, está disponível abaixo e em?feature=oembed" frameborder="0" allowfullscreen> nosso canal no YouTube. 

O DESMONTE DO ESTADO

A prioridade do governo atual e do anterior, do golpe contra Dilma Rousseff até hoje, é desmontar o Estado brasileiro. Houve um esforço bastante eficaz de desmonte na área de Ciência, Tecnologia e Inovação, mas em outras áreas também, na Cultura, nos Esportes, na Saúde, na Educação. Esse processo se dá em benefício de grupos muito restritos, que estão enriquecendo bastante. O Brasil está sendo predado. Na área de CT&I, isso é muito evidente, porque todo o progresso dos primeiros 15 anos do milênio foi perdido. No ano passado, tivemos menos investimentos do que havia em 2003, 2004. Todo o percurso avançado foi, depois, retrocedido, em tempo recorde.

Construir é difícil, destruir é muito fácil. O desafio é não apenas retomar o que tínhamos antes, mas fazer ainda melhor, com mais ênfase, com mais vigor. Cuidar melhor da formação das nossas crianças, dos nossos jovens, de toda a população brasileira.

CRIME DE LESA PÁTRIA

O Teto de Gastos foi completamente desmoralizado no governo de Jair Bolsonaro. As mesmas pessoas que o aprovaram no Parlamento são as que depois permitiram que ele fosse vazado. Evidentemente, esse mecanismo não é do interesse da população, é um crime de lesa pátria. Um país que quer se desenvolver precisa ampliar investimentos naquilo que precisa, no capital humano, nas pessoas. Deixamos de fazer isso completamente, com consequências trágicas durante a pandemia.

Essa anomalia precisa ser derrubada para permitir a construção de um projeto de nação. Como será possível fazer planejamentos de cinco anos, dez anos, 15 anos com essa amarra? Veja o caso da China, que faz projetos de 50 anos. O Teto de Gastos que nos foi imposto pode ser do interesse da China, da Rússia, dos EUA, da União Europeia, mas certamente não é do Brasil.

IMPACTOS NA PANDEMIA

A asfixia financeira prejudicou fortemente o combate à Covid-19 no Brasil. Por que não fomos capazes de produzir rapidamente uma vacina? Por que não fizemos isso de maneira solidária, atendendo a demanda de países pobres na África e no Caribe? Isso certamente teria acontecido em governos anteriores. Não foi possível porque o orçamento foi desfigurado, os recursos estavam contingenciados. Havia um projeto de desenvolvimento em curso que sofreu um ataque brutal, quase um aborto.

A RESISTÊNCIA CIENTÍFICA

Bolsonaro não conseguiu, porém, destruir o sistema. Ele está vivo, pulsante. Muitos pesquisadores envolvidos desde o primeiro momento no combate à Covid-19 estavam sem bolsa, desenvolvendo projetos de mestrado e doutorado. Em diversos momentos, a comunidade científica precisou se mobilizar para que a bolsa do mês seguinte pudesse ser paga. Isso desmoraliza um país que tinha planos de ser uma potência mundial.

OS PREDADORES ECONÔMICOS

Esse arco de alianças que está se formando em torno da candidatura de Lula e Alckmin, políticos com trajetórias bem diferentes, que foram adversários no passado, só será benéfico ao Brasil se sinalizar para outro modelo de desenvolvimento. Os predadores econômicos que hoje controlam o processo têm interesse de desmembrar o Brasil em capitanias geradoras de commodities e mais valia, e nada mais. A essas pessoas, também deveríamos imputar o crime de lesa pátria. É assim que queremos nos manter? Ou pretendemos construir uma sociedade mais igualitária, que permita a existência de uma República com democracia de fato?

INCERTEZAS ELEITORAIS

Tenho muitos temores em relação aos próximos meses. Primeiro, teremos eleições? Muito provavelmente sim, mas essa não é uma certeza absoluta, de 100%. Segundo: havendo eleições, o resultado será respeitado? Não sabemos a resposta. Dependerá muito da qualidade do debate e da nossa capacidade de formar uma robusta aliança de pessoas bem intencionadas no País, de várias cores do espectro político. É isso o que espero desse centrismo, que não pode ser deslocado para a direita, pois o que estava fazendo o Brasil crescer e se desenvolver eram as políticas redistributivas e de inclusão social.

Eu realmente acredito que Lula ganhará de lavada, no primeiro turno, se as eleições ocorrerem em um ambiente democrático e republicano. Da mesma forma, acredito que ele conseguirá governar, pois é um excelente formador de equipes, basta olhar as fotos dos ministérios dele em suas duas gestões, repletos de pessoas competentes e comprometidas. Mas também acho que ele pode governar melhor, sem copiar modelos de outros países e colocando o meio ambiente no centro da discussão política. Lula precisa levar em conta que existem a Amazônia, o Pantanal, a Caatinga, o Cerrado, essa costa incrível, mais de 200 povos originários, com os quais precisamos estabelecer uma relação de ganha-ganha, que nos permita conviver em harmonia com toda essa riqueza ambiental.

O ORÁCULO DA NOITE

Os sonhos perderam muito da sua importância social nos últimos séculos, em um mundo urbano, capitalista e contemporâneo. Ainda assim, de vez em quando, esse oráculo muito antigo, que tem um caráter probabilístico, e não determinista, nos surpreende com previsões do futuro. Esse oráculo é, na verdade, uma espécie de simulador de possibilidades, baseado em experiências passadas e de olho no futuro.

Você pode ter um sonho que tem tudo a ver com o que pode, de fato, acontecer ou aquilo que você não quer que aconteça, então você se move para tentar evitar aquele desfecho. Essa função de acoplar o passado e o futuro é uma função muito antiga, que evolui desde o início da evolução dos mamíferos, há 200 milhões de anos, e que nos seres humanos adquiriu outra feição, porque somos capazes de compartilhar sonhos uns com os outros. Os sonhos refletem os nossos desejos e medos. Quando a gente compartilha isso com outras pessoas, a gente constrói sonhos coletivos, mas também medos coletivos.

SONHAR É PRECISO

Parte dos nossos problemas, hoje em dia, é que as pessoas estão com muito medo. Alguns deles são reais, outros imaginários, como é o caso das pessoas que adquiriram pavor de se vacinar contra a Covid-19. O grande mal estar do século XXI reside em alguns paradoxos. Por um lado, temos a percepção de que a tecnologia é muito poderosa, você pode fazer quase tudo. Por outro, há uma sensação de que ela nos conduz a um futuro muito ruim e não há saída. Também existe a percepção de que, se a gente acelera a economia, o meio ambiente vai colapsar. Mas se a gente freia o desenvolvimento econômico, a sociedade colapsa. Tenho argumentado que o fato de dormirmos menos, sonharmos menos, não nos lembrarmos dos nossos sonhos e não compartilharmos os nossos sonhos, tem haver com esse grande mal estar, essa sensação de as coisas não vão bem. Sonhar é fundamental para manter a nossa saúde física e mental.

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