‘Tinder dos livros’ conecta leitores negros a doadores e mobiliza mais de mil títulos

'Gerações de leitores criam gerações de escritores', diz Winnie Bueno, idealizadora do projeto que completou 1 ano em novembro

Foto: Agência Brasil/Valter Campanato

Foto: Agência Brasil/Valter Campanato

Sociedade

“Tá todo mundo preocupado com o racismo, mas são poucas pessoas que têm ações para combatê-lo”. A fala é pesquisadora Winnie Bueno, e resume bem o que ela, em novembro de 2018, quis expressar ao criar o chamado Tinder dos Livros – que, nesta terça-feira 19, se concretizou como “Winnieteca” após uma parceria feita com o Twitter e com o Instituto Gelédes da Mulher Negra.

A ideia do projeto é conectar pessoas negras que queiram um livro com quem está disposto à doá-lo. Segundo Winnie, a primeira provocação surgiu no intuito de cobrar mais prática e menos discurso quando se trata de antirracismo.

“Você não doa o livro que está parado na sua casa, você doa o livro que a pessoa precisa. Nesse 1 ano, foram mais de 1000 livros. Isso conectou pessoas a partir da conversa de maneira muito consistente”, relata ela. 

A Winnieteca é uma maneira encontrada por Winnie para apontar falhas estruturais no sistema de ensino e acesso à cultura feita por pessoas negras.

Para ela, essa é mais um desdobramento visível do racismo, que apaga a produção de conhecimento feita por intelectuais ao longo de anos. “Não se lê Lélia González, e não é por uma defasagem educacional. Ela é uma das maiores intérpretes de Brasil, e quem são os cânones da sociologia? É uma lógica racista”, analisa.

Apesar de não existir um padrão, a pesquisadora afirma existirem muitos pedidos de livros de temáticas raciais, como as obras sobre feminismo negro de Angela Davis e Bell Hooks e, também, análises feitas por intelectuais como Abdias do Nascimento.

Se o interesse em descobrir mais sobre a produção de conhecimento de pessoas negras cresce, também é necessário desmistificar o que perdura como um estigma. No caso das religiões afrobrasileiras, por exemplo, Winnie aponta um “fetiche” em relação aos saberes do terreiro.

“As pessoas acham que é astrologia, elas colocam dessa forma. Isso aumenta a curiosidade sobre as religiões, mas coloca tudo como se fosse a mesma coisa”, analisa.

“Nos terreiros, há produção de conhecimento pela resistência. Eles foram excluídos de todos os espaços de saber, interpelados pelas mais violentas manifestações de proselitismo, e ainda resistem. Isso por si só já é destacável”, comenta.

Pela renomeada Winnieteca, a pesquisadora destaca que leitores têm tido interesse crescente em autoras da literatura nacional, como Ana Maria Gonçalves com “Um defeito de cor”, e Carolina Maria de Jesus, com “Quarto de Despejo”.  Para ela, o alcance crescente do projeto precisa estar ligado, principalmente, à ideia de que ele tende a criar ramificações mais importantes no futuro.

“Têm cada vez mais negros produzindo na academia e em um contexto mais ativista. A resposta é ampliar esse acesso cada vez mais, independente da produção das editoras. Gerações de leitores criam gerações de escritores”, destaca Bueno.

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