Sociedade
Tentação na palma da mão
CartaCapital acompanha a reunião de um grupo de apoio a jogadores compulsivos, um exército de 1,4 milhão de brasileiros
Pedro* precisou de 30 minutos para ir à frente da sala e tomar lugar na cadeira vermelha de plástico em destaque no ambiente. Romper o silêncio seria sua segunda vitória naquela noite de 27 de agosto. A primeira aconteceu momentos antes, quando deixou Guarulhos com destino à Luz, na região central de São Paulo, ciente de que precisava de ajuda. Acomodado – e visivelmente nervoso – viu-se sob o olhar atento de 20 companheiros e desafiado pelos dizeres de uma placa, colocada sobre uma mesa lateral: “Só por hoje evitarei a primeira aposta”. Ele nunca tinha falado abertamente sobre o vício em jogos, mas sabia que era preciso romper o ciclo. Aos 32 anos, Pedro acumula perdas de 70 mil reais, depois de passar os últimos três anos apostando em cassinos online e bets. O interesse surgiu quando um colega de trabalho falou sobre a facilidade de ganhar dinheiro. A “promessa” não tardou a inseri-lo na lógica do ganha e perde. “Comecei com pouco, colocava 10, 20 reais em cada aposta. Um dia ganhei 300, mas não saquei, continuei jogando pra fazer mais dinheiro, mas perdi tudo. Eu não tinha dimensão da coisa toda, via como uma brincadeira, sem grandes riscos”, contou. O jogo, no entanto, se mostrou mais forte do que ele.
No último mês, Pedro gastou, em três horas, o salário que ganhava em dois empregos como segurança. Um deles, “um bico”. Desesperado para fechar as contas, recorreu à contratação de um empréstimo consignado no valor de 2,3 mil reais. Dinheiro na conta, entrou em cena o apostador. O mesmo método: apostar para fazer o dinheiro render… perdeu. Recorreu então à irmã, para que ela mediasse um novo empréstimo a ele, dessa vez com a mãe, para ter outros 2,5 mil reais na conta. A história se repete: perdeu tudo novamente. “Eu não sei o que deu na minha cabeça. Ali eu falei, chega, preciso de ajuda”, disse, emocionado, ao citar os problemas que causou à mãe e a omissão diante dos dois filhos.
“Pra gente se entender como compulsivo leva anos, a máquina entende isso do jogador em minutos”, diz servidor da irmandade
O relato de Pedro não trazia exatamente um ineditismo à reunião dos “Jogadores Anônimos”, grupo que presta apoio a dependentes com compulsão em jogos. Nas duas horas em que CartaCapital esteve na sala de reunião, não faltaram histórias de vícios em bingos clandestinos, caça-níqueis e pôquer. A história, contudo, reforça uma nova dimensão da ludopatia – transtorno mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde –, que se associa diretamente à expansão do mercado das apostas online. “Antes, você tinha de sair de casa para jogar, procurar um cassino, um bingo. Agora, o jogo está na palma da mão”, resume Celso*, servidor da irmandade assistencial e frequentador do grupo há 30 anos, desde que se percebeu viciado em videopôquer. Aos 71 anos, reconhece o poder destrutivo das bets, sobretudo aos mais jovens: “É muito mais perigoso que o meu jogo. E piora com a Inteligência Artificial. Pra gente se entender como compulsivo leva anos, a máquina entende isso do jogador em minutos. Se ela te ‘dá’ 100 mil reais, vai tomar duas vezes esse valor. Não tem ilusão. A realidade é que essa lógica está tirando a vida de muitos jovens”, alerta.
A profundidade da problemática também se revela em números. Dados do Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que 7,3% dos brasileiros com 14 anos ou mais apresentam algum nível de jogo de risco ou problemático, o que corresponde a, aproximadamente, 10,9 milhões . Dentro desse grupo, 0,8% da população apresenta características compatíveis com transtorno do jogo, estimadas em perto de 1,4 milhão de brasileiros.
Um salário em três horas. Jogador anônimo perdeu o dinheiro de dois empregos e emendou dois empréstimos antes de procurar ajuda – Imagem: Lola Magalhãez
Em outra fileira da sala, Simone* assistia aos relatos dos apostadores em lágrimas. Diferentemente da maioria, ela não tinha um relato em primeira pessoa. Ela sofreu as consequências das apostas feitas pelo marido, Paulo*. Em cinco anos, ele chegou a lapidar 100 mil reais do patrimônio familiar. Um processo que envolveu muitas mentiras e frustrações. O casal havia planejado uma viagem de férias, com os dois filhos, de 11 e 10 anos, para o parque Beto Carrero World, em Santa Catarina. A viagem, previamente planejada, seria paga com o dinheiro das férias que ambos receberiam. O que Simone não desconfiava é que Paulo já havia gastado três vezes o valor que ele teria a receber. De novo, o ganha e perde das apostas. O marido resolveu antecipar os valores das férias com um amigo. A ideia era apostar, dobrar e viajar com algum excedente. O plano deu errado e ele perdeu todo o valor. Levou a ideia adiante pela segunda vez, acionando outro conhecido. Perdeu de novo. Dez mil reais ao todo. Uma viagem quase frustrada, não fosse Simone realizar um empréstimo em seu nome e salvar as férias da família.
A história é mais comum do que se imagina. Mais da metade das mulheres brasileiras já foi atravessada pelas apostas online – seja porque elas jogam, seja porque precisam lidar com as consequências do jogo de parceiros e familiares. Um levantamento realizado pelo estúdio de inteligência Clarice mostrou que 42% das mulheres apostam ou já apostaram. Outras 12%, embora nunca tenham jogado, dizem sofrer os impactos das apostas de pessoas próximas. Assumir dívidas é uma consequência comum. “A ideia não era exatamente assumir a dívida dele. O que estava em jogo ali eram dias de felicidade com os meus filhos”, relata a esposa, de 34 anos, que vê na cura do marido a única chance de salvar o casamento de 13 anos. Paulo* completava um mês e meio sem fazer apostas. “Ele deu o primeiro passo, mas não é fácil. Hoje em dia é muito difícil eu sonhar com alguma coisa, uma casa melhor, um carro melhor. Uma pergunta sempre me amedronta: ‘E se ele voltar a jogar?’.” •
*Os nomes dos entrevistados foram alterados em respeito ao sigilo da irmandade.
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Tentação na palma da mão’
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