Tenente coordenador da Funai diz que vai ‘meter fogo’ em indígenas isolados no Amazonas

'Não estou aqui pra desarmar ninguém, também não estou aqui pra ser falso e levantar bandeira de paz', afirma tenente Henry Lima da Silva

Foto: EBC

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Política,Sociedade

O tenente da reserva do Exército, Henry Charlles Lima da Silva, que coordena a Funai no Vale do Javari, no Amazonas, afirmou em áudio que iria ‘meter fogo’ em indígenas isolados que ‘importunassem’ o povo marubo. O áudio é de junho deste ano e foi revelado nesta quinta-feira 22 pelo jornal Folha de S. Paulo.

“Eu vou entrar em contato com o pessoal da Frente [de Proteção Etnoambiental] e pressionar: Vocês têm de cuidar dos índios isolados, porque senão eu vou, junto com os marubos, meter fogo nos isolados”, afirma o tenente em reunião com representantes do povo marubo na aldeia Paulinho.

A reunião tratava de um conflito entre os marubos e indígenas isolados que vivem na região do rio Ituí. Eles teriam raptado uma mulher do povo marubo dias em 2020 e repetido o ato dias antes do encontro entre lideranças e o tenente Lima da Silva.

Quem apura a presença dos indígenas isolados na região é a Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, a qual se refere o coordenador no áudio. O órgão não é subordinado à Funai.

Em outra parte da gravação, o tenente diz que o conflito precisa ser resolvido, já que os isolados já falariam português e teriam contato direto com a Frente, recebendo inclusive cestas básicas. As informações ditas pelo coordenador, porém, não são verdadeiras, segundo apurou a reportagem.

No áudio, reforça o incentivo ao conflito diversas vezes, em outro trecho diz:

“Não estou aqui pra desarmar ninguém, também não estou aqui pra ser falso e levantar bandeira de paz. Eu passei muito tempo da minha vida evitando a guerra, mas se a guerra vier, nós também não vamos correr. Se vierem na terra de vocês, vocês têm todo o direito de se defender”.

Mais adiante reforça: “Eu não tiro o direito de vocês, independentemente da lei penal ou não, de defender o seu território, a sua maloca, a sua casa, o seu povo, a sua mulher, as suas crianças”.

O tenente então explica aos líderes marubos que não pode resolver de outra forma o conflito por ‘questões ideológicas’, já que se envolvesse o presidente Jair Bolsonaro no caso, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) denunciaria e levaria o caso a um impasse.

Deputados repercutem o caso

O áudio já repercute entre a oposição, que tem cobrado o afastamento dos militares do governo federal. Minutos depois do caso vir à tona, a deputada federal pelo PSOL, Fernanda Melchionna, escreveu no Twitter:

“Absurdo! Como o coordenador da FUNAI diz que vai ‘meter fogo’ em índios isolados no Amazonas?”, questiona. “O coordenador, claro, é um tenente do Exército! Militares, façam um favor ao Brasil e voltem para os quartéis!”, cobra a parlamentar.

Vivi Reis, deputada do PSOL do Pará, também fez duras críticas ao episódio e chamou a a atenção para a participação dos militares nas suspeitas de corrupção e violência no governo federal nos últimos meses:

“A que ponto chegamos nesse governo da morte! O coordenador da Fundação Nacional do Índio, um tenente do Exército, diz em áudio que vai meter em indígenas isolados. Onde há corrupção, violência e genocídio no governo Bolsonaro há militares!”, publicou a parlamentar.

Os deputados Ivan Valente (PSOL) e Paulo Pimenta (PT) também falaram sobre a gravação nas redes sociais. Ambos os parlamentares definiram o caso como mais um exemplo de ‘atitudes genocidas’ do governo Bolsonaro.

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Repórter do site de CartaCapital

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