Sociedade

Tarcísio cede e futura estação do Metrô terá nome de quilombo descoberto no local

Movimentos continuam a pressionar para que o projeto da estação não apenas inclua o nome, mas preserve os achados arqueológicos e valorize a história e a contribuição da comunidade negra na região

Tarcísio cede e futura estação do Metrô terá nome de quilombo descoberto no local
Tarcísio cede e futura estação do Metrô terá nome de quilombo descoberto no local
Poeta Rubens Fernandes de Souza, 83, conhecido como Rubão Guerreiro da Nação, quilombola morador do Bixiga (SP) — Foto: Thiago Fernandes/Reprodução - Instagram Mobilização Estação Saracura/Vai-Vai
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No início da semana, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, oficializou, via decreto, a mudança do nome da futura Estação 14 BIS da Linha 6 – Laranja do Metrô, na região do Bixiga, para Estação 14 BIS – Saracura. A decisão atende, em parte, uma demanda de movimentos negros que defendem a preservação da memória do Quilombo do Saracura, descoberto no local durante as obras da estação.

“Esperávamos o nome Saracura Vai-Vai, que faz menção tanto ao rio quanto à quadra da escola de samba,” destaca a urbanista Gisele Brito, integrante do Instituto Peregum e da Mobiliza Saracura. “Mas a mudança para Saracura já é um passo importante e mostra que, com vontade política, essas demandas podem ser atendidas.”

Um dos raros quilombos urbanos do Brasil, o Saracura abrigou no século XIX escravizados que escapavam das fazendas ou de feiras realizadas no Vale do Anhangabaú, além dos chamados ‘escravizados de ganho’, que realizavam em nome de seus captores algum tipo de trabalho nas ruas. Foi nesse território também que surgiu, em 1930, o cordão carnavalesco Vae-Vae, que deu origem à tradicional escola de samba, cuja quadra foi desapropriada em 2015 para a construção da linha.

“Muitas vezes esses escravizados pagavam aluguel, já haviam construído suas próprias moradias. Havia também pessoas que eram livres,” destaca. “Por isso a gente valoriza tanto esses achados. Vão nos ajudar a reimaginar essas pessoas, sem diminuir a crueldade da escravidão, mas entendendo também como essas pessoas contribuíram para o fim da escravidão, buscando a cidadania plena.”

O Mobiliza Saracura exige a preservação integral da estrutura de alvenaria descoberta na escavação (Foto: Mobiliza Saracura)

Durante as escavações para a construção da nova estação, foram descobertas centenas de relíquias da vida cotidiana do quilombo, incluindo estátuas de deuses africanos, itens domésticos e vestuário, além de uma instalação que os pesquisadores acreditam ser servido para canalização do córrego Saracura, que corre subterrâneo sob a Avenida 9 de Julho.

As descobertas levaram o Iphan a intervir nas obras, gerando atritos entre o governo estadual e movimentos de preservação do Bixiga e ativistas do movimento negro. Enquanto as demais estações da linha estão entre 40% e 60% concluídas, a 14 BIS – Saracura está apenas 8,58% concluída, segundo o consórcio responsável pela obra.

O Mobiliza Saracura exige a preservação integral da estrutura de alvenaria descoberta. “Essa estrutura está em risco, semiabandonada ali,” explica Brito. “O governo do Estado tem tentado nos convencer que a estrutura não é tão importante e incompatível com a estação, mas temos insistido que a única solução é a preservação.”

Segundo Brito, o movimento negro e de preservação cultural acredita que o projeto da estação deve incluir um espaço de preservação dessa estrutura e também de exposição e pesquisa dos demais artefatos encontrados.

A luta pelo reconhecimento e preservação do Quilombo do Saracura é parte de um projeto maior de memória e permanência da população negra no bairro. Para a arqueologia, defende Raquel Brito, não faz diferença se o artefato tem 50 anos ou 5 mil. “O importante é a preservação da história e da cultura que eles representam.”

A urbanista também ressaltou a importância da participação comunitária contínua: “A mudança do nome sempre foi uma reivindicação desde o começo, mas é apenas um passo. Precisamos de políticas de permanência, qualidade do bairro e manter os achados conectados ao bairro, especialmente com a descoberta dessa estrutura tão grande.”

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