Suicídio de policiais é um problema grave no Brasil, aponta estudo

Caso do PM morto em Salvador traz à tona antigas questões de saúde mental entre os profissionais da segurança pública

Foto: Eduardo Saraiva/ A2IMG

Foto: Eduardo Saraiva/ A2IMG

Sociedade

O caso do policial que foi baleado e morreu após ameaça colegas com um fuzil em Salvador, na Bahia, trouxe à tona um grave e antigo drama da segurança pública no Brasil: a saúde mental dos policiais e militares.

 

 

No Brasil, o número de policiais que tira a própria vida é maior que o dos que morrem em serviço. Segundo o relatório anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em outubro de 2020, só em 2019, 65 policiais militares e 26 civis cometeram suicídio. Naquele mesmo ano, o número de PMs mortos em serviço foi de 56 e o de policiais civis, 16. O número de policiais mortos fora de serviço foram 101.

“Independentemente dessa posição relativa em relação aos casos, estudos e relatos empíricos têm mostrado que o suicídio entre integrantes de corporações policiais no Brasil é um problema grave, que não mostra sinais de arrefecimento, e que por isso deve ser objeto de atenção e preocupação da sociedade civil e do poder público”, diz o relatório.

Os números podem ser ainda maiores por falta de levantamento de dados pelo poder público. “Entre esses fatores figuram o próprio tabu, as interdições socioculturais em torno do tema, a existência de preconceito interno em relação ao policial em sofrimento mental e até a tentativa de proteger familiares da vítima diante da possibilidade de se perder o direito ao seguro de vida caso a causa da morte seja revelada”.

A cultura das instituições militares também é apontada como causa da falta de levantamento de dados.

“Outras características da cultura policial, como a aura de invencibilidade, força e coragem que muitas vezes se acredita que devam revestir o profissional, fazem com que manifestações relacionadas a fraquezas, dores e medos, inerentes à experiência humana, encontrem pouco ou nenhum espaço nas organizações policiais.”

 

Caso de Salvador revela a saúde mental afetada dos policiais

 

O soldado Wesley Soares Góes foi neste domingo 28 ao Farol da Barra, tradicional ponto turístico de Salvador, fardado e armado com um fuzil e uma pistola. O PM gritava “venham testemunhar a honra ou desonra do policial militar da Bahia” e iniciou disparos para o alto.

A Polícia Militar isolou a área e chamou a equipe do BOPE para tentar negociar com o policial. Em um certo momento, Wesley atirou contra os militares e acabou atingido.

O policial foi levado ao hospital, mas não resistiu e faleceu na madrugada desta segunda.

“O convívio permanente com a morte e a violência, as extenuantes jornadas de trabalho, a falta de sono, lazer e convívio com a família são fatores de risco para os policiais. Estão diretamente relacionados com o trabalho policial e, portanto, podem levar os profissionais a quadros de adoecimento físico e mental. No entanto, as organizações policiais individualizam os problemas, atribuindo ao indivíduo a responsabilidade por seu adoecimento ou violência auto infligida, como no caso dos suicídios”, conclui o relatório.

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Repórter do site de CartaCapital

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