Stedile: A crise econômica se tornou uma crise social

O fundador e líder da única entidade inequivocamente esquerdista do Brasil aponta os males do País

"Depois de dez, 15 anos conquistando terra, nos demos conta que não bastava e fomos acrescentando outras ideias", diz Stédile

Sociedade

Penso no grilo de Pinóquio, obra-prima de Collodi, recomendado para a leitura de grandes e pequenos. Sábio grilo, sabe do bem e do mal. João Pedro Stedile, velho amigo a quem me une também o seu parentesco com um dos meus fraternos companheiros de vida, Raymundo Faoro, o primo de quem a família em peso muito se orgulhava por ter ele ido longe, como se diz, com seus livros fortemente reveladores. A avó de João Pedro, de sobrenome Faoro, era irmã do avô do historiador e jurista.

O MST que João Pedro lidera desde o começo é a única entidade brasileira inequivocamente esquerdista. Stedile enxerga um exagero na minha definição, há outros de esquerda no País, entretanto são indivíduos em lugar de uma organização de longo curso e total êxito. Quanto ao grilo, ele acabou mal, esmagado contra a parede. O caso de Stedile é, obviamente, outro, a despeito de todo esforço que a casa-grande despendeu para infernizar a vida do Movimento dos Sem Terra. Em vão. Esta conversa começa ao tomar um rumo diverso daquele habitual, em virtude dos fatos que no último fim de semana marcaram o assentamento sul-mineiro de Campo do Meio, agredido por 300 soldados armados até os dentes, aboletados como os gregos da Ilíada na barriga generosa dos caveirões, enquanto um helicóptero em voo rasante riscava o cenário espalhando medo e muita poeira.

Convido Stedile a me contar o episódio. A descrição é precisa e candente, conta uma destruição insana, que não poupa alojamentos, escola e biblioteca. Ainda assim esta história não está encerrada, o movimento e seu líder estão de pé, prontos para outro enfrentamento. A mostrar a sua vitalidade o MST criou um sistema próprio para garantir “o financiamento popular de alimentos saudáveis”. Várias cooperativas são o resultado desta operação batizada de Finapop. “Estamos trabalhando agora na criação do Fundo de Investimento Público (FIP)”, explica meu amigo e exemplifica: “Se sobra algum dinheiro, ao invés de deixar no banco, que não vai pagar coisa alguma, ou na poupança, que só vai pagar 2% ao ano, o cidadão comum pode recorrer ao FIP sem saber para onde vai seu investimento, informado apenas de que o destino são os alimentos saudáveis do MST”. Há uma praticidade transcendente no trabalho do Movimento, que se reconhece de esquerda porque luta contra a desigualdade social e a favor de mudanças radicais da sociedade, mas não impõe aos seus militantes a filiação a este ou àquele partido. Cada qual, devidamente politizado, escolhe a seu talante.

“A turma conversa depois da missa, ou em assembleias, e pode tomar decisões coletivas em caso de eleições em relação a este ou àquele candidato, sempre no campo da esquerda.” Stedile vota em Cachoeirinha (RS), onde seu irmão foi prefeito duas vezes, ali fica a região onde se estabeleceram os ancestrais imigrantes, enquanto o avô de Raymundo Faoro procurava o lar na Vacaria. E lá vêm as lembranças: “Eu era criança quando ele vinha visitar minha avó, sua madrinha, lá no interior de Lagoa Vermelha, entre Antônio Prado e a Vila Ipê, nas terras do meu avô”. A família entendia que Faoro a honrava, “meu avô era analfabeto, meu pai deve ter feito a quarta série, creio que ele tenha sido de fato o primeiro a alcançar o curso superior. A família tem muito orgulho dele”.

O amigo não esconde sua origem, muito pelo contrário. Há nele um traço profundamente italiano, o que não deixa de me comover. Italiano das montanhas vênetas, muitas vezes na conversa Stedile pronuncia a palavra contadino com insistência deliberada e sotaque de cadência vêneta a marcar profundamente a fala gaúcha. À Itália, em 1993, levei Faoro à sombra das Dolomitas. Fomos a Belluno, cidade principal da região, e daí para Arciê, berço indiscutível dos Faoro, 2,5 mil habitantes, dos quais metade pelo menos atende pelo mesmo sobrenome. Se João Pedro estivesse conosco, teria passado horas especialmente alegres.

Lembrando Macondo

É uma novela de Gabriel García Márquez. Há 20 anos, quando veio aquela crise que levou muitas empresas à falência no neoliberalismo do Fernando Henrique, lá no sul de Minas, uma usina de cana com seus 7 ou 8 mil hectares e com seus mil trabalhadores, foi a falência. Pediram falência judicial, a dívida era por volta de 300 milhões, na época, para bancos públicos, impostos e direitos dos trabalhadores. Valor da terra era uns 30 milhões. O que aconteceu? Os trabalhadores não pagos nem indenizados ficaram por lá. O MST surgiu e organizou o destino, eles ocuparam as terras em que trabalhavam, e daí começou uma pendenga judicial até hoje sem solução. Nesses 20 anos, 450 famílias tomaram conta de 7 mil hectares e distribuíram os lotes, construíram suas casas, produziram alimentos. (…) Hoje produzem lá o melhor café orgânico do Brasil, que leva a marca Guaií, que eles deram não sei por quê. Não sei que justiça nomeou um “fazendeirinho” para ser o síndico da massa falida. E durante esses 20 anos apresentamos várias alternativas, em vez de pagar o ex-fazendeiro que já desapareceu. (…) O fazendeirinho, insuflado pelos “fazendeirões” da região, vira e mexe vai na justiça tentando o despejo. Às vezes, ele pede despejo só da área do líder, aliás, já tentaram matar os líderes em inúmeras ocasiões. Noutras vezes, ele pede despejo de toda área. O último pedido de despejo foi genérico. (…) A polícia local é mancomunada com o poder político e o filho do síndico é candidato bolsonarista a prefeito de Alfenas. Resultado: um conluio do Poder Judiciário com o comandante da PM, resolveram em plena pandemia fazer um despejo. O comandante aplicou o despejo na área comunitária, que era a antiga sede da fazenda. A área comunitária tem seus 50 hectares. Nós construímos lá uma escola, um jardim de infância e um parque infantil, porque é área comunitária e oito famílias também foram assentadas ali por nós. (…) A polícia e achou que o despejo seria um passeio, colocou barreira nas estradas, pôs barreira em tudo quanto é lugar, e houve uma batalha campal de 56 horas. No último dia, inclusive, trouxeram dois caveirões conforme aquela tecnologia que Israel cedeu para a polícia do Rio de Janeiro e agora estão usando também em Minas. Vieram dois daqueles caveirões cheios de soldados e bombas de gás lacrimogêneo. (…) Ao cabo conseguiram despejar as oito famílias que moravam no centro comunitário, destruíram a escola, que era pública. Funcionava da primeira à quarta série para as crianças e o pré infantil. À noite, por iniciativa nossa, funcionava o EJA, ensino fundamental para adultos. (…) Trouxeram tratores, provavelmente dos fazendeiros da região, e destruíram as casas das oitos famílias. Nossa turma, os 450 que estavam lá mobilizados, botou a polícia para correr depois de 56 horas. A polícia foi embora quando o comandante fez um acordo com os deputados que estavam assistindo no último dia.

Passos seguintes

Precisa organizar uma brigada de médicos para ir lá e testar os companheiros, que ficaram três dias dormindo no relento e imagino que a polícia deve estar fazendo o mesmo com seus 300 soldados. A PM mobilizou três batalhões e usou até um helicóptero que passava baixo e, devido ao calor, porque não chove, levantava aquela poeira toda no ar e, como numa cena de filme, obrigava todos a tirarem as máscaras. (…) Agora temos razões para temer a contaminação por Covid-19. Em primeiro lugar, precisamos agora de médicos para submeter a testes aquela população. (…) Aquela comunidade também vivia de produzir ervas medicinais para vender na feira. Há várias senhoras ali que são as nossas curandeiras, como de antigamente. Como não tínhamos médico, elas cuidavam da saúde da comunidade.

 

A segunda iniciativa é uma campanha nacional e internacional para recolher fundos e reconstruir a escola, reconstruir as casas dos oito companheiros que foram derrubadas. (…) A terceira iniciativa é agradecer à Ivana Jinkings, dona da Editora Boitempo, que está promovendo uma campanha com o sindicato dos editores. Até agora, 12 editoras já aderiram para doar livros dos seus estoques para montarmos uma boa biblioteca. (…) O imbróglio judicial terá uma audiência dia 28 de agosto. Tinha sentido marcar despejo para o dia 12? Por que antecipar? Talvez para criar um fato na imprensa que pudesse beneficiar esse filho do fazendeirinho que é candidato a prefeito em Alfenas. Esta é a mentalidade insana dos nossos escravocratas. Além de tudo, nosso assentamento tem o nome de Quilombo de Campo Grande. (…) Marcado o despejo para o dia 12 de agosto, recorremos ao arcebispo de Belo Horizonte, ele é também presidente da CNBB, portanto, é a principal autoridade da Igreja Católica do Brasil. O arcebispo falou com o governador Zema. “Magina, dom Geraldo – disse Zema – nada disso vai acontecer com a minha polícia.” E, às 16 horas do dia 12, ele botou no Twitter dele: “Quero comunicar que minha polícia não irá fazer despejo nenhum. É um compromisso meu pessoal com o bispo…” Mas, às 18 horas começou o despejo. Durou só duas horas a mentira dele.

O MST hoje

Primeiro, o MST já tem uma longa estrada. Já estamos maduros, não temos mais o direito de cometer besteiras, mas durante muito tempo o movimento teve um programa inspirado na consigna clássica popularizada por Emiliano Zapata, “Terra para quem nela trabalha”, também consigna de todas as reformas agrárias da Europa. Mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, no Sul da Itália. (…) Depois de dez, 15 anos conquistando terra, nos demos conta que não bastava e fomos acrescentando outras ideias, como, por exemplo, a da educação. Por isso houve uma deliberação de que as escolas podem ser itinerantes, ou seja, se o acampamento for despejado, a escola e os professores vão com ela, muda de endereço, mas a escola continua a mesma, e isso já é uma conquista. Assim como a nossa escola inclui até a oitava série, que é o nível fundamental em nossos assentamentos. Em alguns estados existem assentamentos maiores, com 300 ou 500 famílias, e ali mantemos escola de Ensino Médio no local. Por exemplo, no governo de Ciro Gomes no Ceará implantamos oito escolas de Ensino Médio em assentamentos, o que nos dá orgulho, porque é aquele padrão do tipo Ciep do Brizola. A criança chega cedo e só sai de noite. (…) No Brasil tem 1 milhão de famílias assentadas, em torno de 500 mil, no entanto, estão na Amazônia Legal, onde a desapropriação não se deu por reforma agrária.

As relações com o PT

O Japão fez a reforma agrária no pós-Guerra, graças ao general americano Douglas MacArthur. Ele foi pro céu só por causa disso. No Brasil, a grande oportunidade que perdemos de fazer uma reforma agrária clássica foi com Celso Furtado. Quando era ministro do Planejamento no governo Jango Goulart, Celso Furtado apresentou um fantástico projeto de reforma agrária, o melhor. Mas não se viabilizou a nossa reforma agrária clássica. Nem nos governos Lula e Dilma conseguimos avançar, então agora estamos defendendo um novo tipo de reforma agrária, que não fiquemos presos só às desapropriações de latifúndios. Ainda que um latifúndio por si só, como diria dom Pedro Casaldáliga, seja um pecado, porque não se justifica existir uma grande propriedade. (…) Por que um fazendeiro como Blairo Maggi tem 500 mil hectares de soja e algodão? Ele não precisa disso para ficar rico. (…) José Gomes da Silva, que fez o plano de reforma em 1989 para o candidato Lula, pretendia imitar Celso Furtado, ou seja, no Brasil, “propriedade de 500 hectares e acima disso precisa desapropriar”. Só que Furtado foi mais sábio, ele disse: “10 quilômetros de cada lado das BRs, 10 quilômetros de cada lado das ferrovias, e quem quiser ter área maior que vá pra longe, mas o camponês tem de ficar perto da cidade”. (…) Nós do MST, e eu pessoalmente, ficamos polemizando com o Zé Gomes. Entendíamos que não precisava fazer um teto tão baixo, porque tem muita terra, então não era necessário comprar briga com todos os fazendeiros. Propusemos 1.500 hectares a Lula, ele como você conhece conciliador, sacramentou: “Tá bom mil hectares”. No fim achei justo. (…) Muitas vezes fomos críticos do PT no governo, pela lentidão do processo da reforma agrária. No segundo mandato da Dilma, foi o pior para a reforma agrária, o processo praticamente foi paralisado e não houve nenhuma desapropriação. (…) Então, a tensão ficou muito grande. Quando do impeachment, a classe operária estava tão abalada pela crise econômica que não se mobilizou para defender a Dilma. Quem organizou as marchas para Brasília e os acampamentos? A nossa base. Por quê? Porque nós temos discernimento político, nós como cidadãos e pessoas conscientes temos de defender a democracia e por isso defendemos a Dilma.

A Amazônia como símbolo

A Amazônia tem tudo a ver com a situação geral do País, e o Brasil vive a pior crise de sua história, porque aglutionou ao mesmo tempo uma crise econômica relativa ao modo de produção capitalista, que se transformou em uma crise social, porque a casa-grande, em 2014, jogou todo o peso da carga tributária e da taxa de lucro sobre os trabalhadores. De 2014 para cá, aumentou cada dia o desemprego, caiu a renda, caiu o salário e pioraram muito as condições de vida da população. E que se tornou uma crise política com o golpe desfechado a partir da Lava Jato. (…) Em tempos de crise, segundo a nossa querida Rosa Luxemburgo, com seus manuais de economia política, a burguesia corre para os bens da natureza, para se apropriar de forma privada, porque como eles não são fruto do trabalho e, portanto, não têm valor, uma árvore de pé não tem valor, água a correr no subsolo não tem valor, mas, se uma multinacional se apropria deles e os transforma, com pouco tempo de trabalho, em mercadoria, a taxa de lucro que obtém é extraordinária.

Um exemplo é a Nestlé, ima das grandes multinacionais do leite, que conta com uma taxa média de lucro nos laticínios de 13% ao ano, o que é, mais ou menos, a taxa média de todas as empresas industriais. E a taxa média de lucro deles na água é de 400%, porque é só ir na natureza, pegar e colocar numa garrafinha de plástico e vender por 5 reais. A taxa média de lucro nos minérios de ferro é de 100%, que a Vale está obtendo. (…) A Vale não respeita a saúde de seus trabalhadores, não se importa com que morram 100, 200, como ocorreu em Brumadinho. Eles querem ampliar, ampliar e ampliar cada vez mais a produção, que exportam sem encostar a mão no minério, pois ele sai da mina carregado por gruas e vai direto para o porto. E mais, não pagam um centavo de ICMS. (…) Por trás da Vale tem capital financeiro, por trás da Anglo têm os fundos de pensão britânicos, então não é a própria empresa que amplia, são capitais do mundo inteiro que querem os 100%. Esse mesmo movimento eles fizeram contra o pré-sal, o petróleo está dando 80% de lucro. (…) Há poucos dias recebi uma mensagem do meu amigo Ziegler, que foi deputado no Parlamento suíço e já está velhinho. Ele disse: “Me alegro se você me disser como posso fazer que amigos emprestem dinheiro para vocês, mesmo que seja a 2% de juros, porque aqui na Suíça a taxa é negativa e eles estão loucos para encontrar grandes oportunidades de negócio”. (…) Há também todas essas agressões ao meio ambiente que se dirigem à fronteira agrícola, onde está a natureza como patrimônio da União. Então o capital vai lá para se apropriar da água e dos minérios. Algumas atividades são feitas de forma legal, como as da Vale, mas outros são explorados de forma ilegal, como fazem os 20 mil garimpeiros liberados pelo ex-capitão. Eles entraram em áreas indígenas, eu acho que tem mais gente garimpando ali do que soldados do Exército na Amazônia. E para quem eles vendem o ouro? Negociam com alguma multinacional do ramo. (…) Enquanto isso, o fazendeiro vai lá e derruba a mata, retira a madeira e depois revende a terra para alguém plantar soja, o cara que compra a terra para plantar soja. Outra multinacional, a Cargill, diz “meus fornecedores da Amazônia não desmatam. Claro, eles já compraram a terra desmatada. (…) É preciso fazer de novo a conta do desmatamento. Nossos amigos do Greenpeace fizeram essa conta: ao invadir uma terra pública, o invasor desmata com aqueles correntões de trator e bota fogo. O custo dessa operação é de 400 reais por hectare. Então revende para o fazendeiro da soja por 2,5 mil reais, e isso dá 500% de lucro. Portanto, Amazônia hoje é vítima da crise econômica e da ganância dos capitalistas do mundo.

A praga dos agrotóxicos

Agora eu vou contar outra tragédia da qual poucos falam, que é o uso intensivo de agrotóxicos na lavoura. O Brasil é o segundo país entre aqueles que usam estes venenos sobre a terra e matam tudo, eliminam a biodiversidade, porque só fica a soja, só fica o algodão, só fica o milho, e a operação gera a mudança climática, que se transforma em falta de água, em destruição da fauna. A destruição é obra da Bayer, da Basf, da DuPont, da Dow Química, mas ninguém fala coisa alguma, porque são eles também os anunciantes dos grandes jornalões que a gente conhece.

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