‘Só o racismo explica a chegada de Bolsonaro ao poder’

O sociólogo, pesquisador e escritor Jessé Souza reflete sobre o momento singular da luta antirracista no País

Créditos: Claudia Araujo

Créditos: Claudia Araujo

Entrevistas,Sociedade

“Um livro ambicioso, um dos que mais me custaram trabalho e leituras.” Assim Jessé Souza, sociólogo, pesquisador e escritor, define seu Como o racismo criou o Brasil, recém-lançado pela editora Estação Brasil.

 

 

Nesta entrevista por vídeo à professora Luana Tolentino, colunista de CartaCapital,, revela ter buscado escrever “uma nova história do Brasil”. Ao longo de quase trezentas páginas, ele desenvolve a sua narrativa a partir do racismo, que domina as relações sociais e a cena política brasileira e condena a maior parte da população a condições de vida indignas. “A Lava Jato é um agente racista perfeito”, afirma o escritor, autor de vários best-sellers, dentre eles A elite do atraso.

Jessé Souza reflete também sobre o momento singular da luta antirracista, que finalmente aparece no centro dos debates. Mas alerta para a cooptação do tema pelo neoliberalismo como forma de escamotear os abismos e as violências provocados pelo racismo e de apoiar a redução das responsabilidades do Estado na superação das desigualdades sociorraciais. “O discurso do antirracismo é a moeda de troca do capital financeiro.”

Professor convidado da Universidade de Sorbonne e pesquisador sênior da Universidade Humboldt, em Berlim, Souza fala ainda da imagem do País no exterior. “A imagem do Brasil é a pior possível, pois ela está ligada a Bolsonaro.” E acrescenta: “Sem entender o racismo, é impossível entender a chegada de Bolsonaro ao poder”.

Ao analisar as eleições de 2022, o professor faz a sua projeção: “Acho que Bolsonaro não tem chances. Pode até acontecer algo diferente, não tenho bola de cristal, mas acho que ninguém ganha do Lula”.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: A sua trajetória lhe proporcionou experiências internacionais, com formação e atuação em vários países, e o senhor acaba de retornar ao Brasil, depois de um período na Alemanha. Nesse momento, qual é a imagem que se tem do Brasil no exterior?

Jessé Souza: A imagem do Brasil no exterior é a pior possível, pois ela está ligada a Bolsonaro. É aquela pergunta: que país atrasado pode eleger Bolsonaro à Presidência da República? O que não se percebe é que isso vai se associar a cada brasileiro, assim como Hitler se associava aos alemães e Trump se associava aos norte-americanos.

 

CC: Estando fora do Brasil, de que maneira o senhor respondia aos questionamentos em relação à vitória de Bolsonaro nas últimas eleições?

JS: Eu tentei mostrar várias vezes que o fato de o Bolsonaro ter sido eleito tem a ver, em especial, com o racismo invisibilizado, que não é percebido como tal, que é potencializado e utilizado sob outras máscaras. Sem uma reflexão sobre o racismo, a gente não entende Bolsonaro. Em entrevistas que dei, especialmente na França e na Alemanha, sempre tentei mostrar que sem os Estados Unidos agindo por trás para destruir o sonho de um Brasil grande, a gente não entende a eleição de Bolsonaro. E isso não foi publicado. Isso era normalmente cortado das minhas entrevistas, porque os europeus são dependentes dos Estados Unidos. Lá fora, ninguém sabe que a produção de um Bolsonaro teve a ver com um golpe de Estado, orquestrado também com os norte-americanos e com a elite brasileira, com os seus juízes corruptos etc. Eu dizia: você não pode pensar Bolsonaro sem perceber que os Estados Unidos são um guardião de uma divisão internacional do trabalho, de um imperialismo que condena a América Latina e o Sul global à pobreza e ao saque.

O que são aqueles jovens que passam 14 horas pedalando numa bicicleta para entregar a pizza quentinha, se não os novos escravos de ganho?

CC: No seu livro, o senhor afirma que a única maneira de verdadeiramente explicar o racismo é compreendermos o que ele destrói nas pessoas. O que o racismo destrói nas pessoas?

JS: O racismo destrói a humanidade delas. Com o racismo, você cria uma classe-raça “Geni”, na qual todo mundo pode cuspir, que se pode humilhar, matar, que ninguém vai se comover. E ninguém vai se comover por quê? Porque já foi retirada a humanidade dessas pessoas. E, normalmente, a gente tem solidariedade com seres humanos. Aqueles que percebemos que são iguais à gente. E quando você tira o reconhecimento, quando você tira a humanidade de um conjunto de indivíduos, você condena essas pessoas a uma vida indigna de ser vivida. O racismo envenena a sociedade como um todo. Sem superar o racismo, você vai ter medo, vai ter ressentimento, vai ter ódio.

 

CC: O senhor reconhece o momento importante da luta contra o racismo no Brasil, mas, ao mesmo tempo, aponta que o neoliberalismo, cujas políticas econômicas adotadas são extremamente nefastas, sobretudo para a população negra, utiliza o discurso antirracista para se legitimar. O que isso significa?

JS: O discurso do antirracismo é a moeda de troca do capital financeiro. Para os ricos, é importante criar uma mentira convincente e dizer: “Nós somos emancipadores! Os negros e as mulheres, que eram dominados, agora vão ter espaço!”. Você precisa fingir que é democrata, fingir que está emancipando as pessoas. Basta ver a estratégia de publicidade do banco Itaú, 90% da propaganda é sobre a diversidade. E nesse discurso não é o Estado com políticas públicas universalistas que vai promover a emancipação das pessoas. Vão ser as próprias empresas, os bancos. E onde está a mentira disso tudo? Essa ascensão vai se dar meritocraticamente. Poucos negros vão poder ser modelos de marcas de luxo, vão poder ser repórteres na Rede Globo… O que você vê são uns poucos negros em destaque, numa posição individual. Você pode dizer: isso é bom, porque há alguns negros em posições importantes, vai inspirar outras pessoas. E realmente é, mas onde está a ambiguidade disso tudo? Quando você começa a dizer que está resolvendo as coisas pela diversidade, o 0,1% que terá acesso ao mercado de trabalho vai dar a impressão de que está resolvendo o racismo. Enquanto os 99% em que o esgoto a céu aberto passa na frente da casa, onde a polícia vai entrar à noite chutando a porta, tendem a piorar, pois vão ficar ainda mais invisíveis. Isso é combate ao racismo ou uma enorme manipulação?

 

CC: Temos assistido a manifestações cada vez mais violentas de racismo, como a recente chacina do Jacarezinho, no Rio, e a morte de João Alberto, assassinado por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre, no último 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. A que o senhor atribui essa escalada de violência contra a população negra?

JS: Bolsonaro. Nas classes populares, todo mundo sabe que quando você fala de guerra ao crime, quando você faz “arminha”, quem morre é o jovem negro. Bolsonaro atualizou o afeto racista. Bolsonaro incorporou o racismo que já existe há mais de cem anos.

 

CC: O senhor afirma que para criminalizar o Estado, a soberania popular e as políticas públicas de inclusão social, as elites econômicas, apoiadas por setores da classe média, lançam mão de um falso moralismo, que tem como um dos pontos principais o discurso do combate à corrupção. Pode-se dizer que a Lava Jato é um exemplo desse “moralismo de fachada”?

JS: A Lava Jato é um agente racista perfeito. A Lava Jato só tinha brancos. A Lava Jato só tinha brancos com sobrenomes estrangeiros… Dallagnol, Moro… No fundo, é um acordo entre essas pessoas, que se veem como superiores ao povo, que menosprezam o povo, que se acham europeus no Brasil. A raiva que elas têm das políticas do PT é ter que conviver com esse povo no shopping center, no aeroporto. A Lava Jato é a vingança contra esse povo. É como se elas dissessem: “Vamos voltar ao velho mundo, onde cada um sabe o seu lugar. Negro e pobre existem para nos servir em condições análogas à escravidão”. O que são aqueles jovens que passam 14 horas pedalando numa bicicleta para entregar a pizza quentinha, se não os novos escravos de ganho? A classe média branca e racista nunca se importou com a corrupção. A classe média sai às ruas quando? Quando Getúlio Vargas, João Goulart, Lula e Dilma queriam integrar negros e pobres. É só aí que essas pessoas se incomodam. Quando começam a entrar negros nas universidades. Não tem nada a ver com moralismo. Tem a ver com racismo.

 

CC: Em relação ao processo que culminou com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o senhor afirma que naquele momento houve uma implosão das regras do jogo político e social e, consequentemente, um enfraquecimento do regime democrático. Quais as perspectivas que o senhor vê para as eleições de 2022?

JS: Acho que Bolsonaro não tem chances, o acordo está óbvio. Ele e a família estão querendo escapar da prisão. Acho que isso não tem volta, embora ele esteja querendo usar fake news e o Bolsa Família. Pode até acontecer algo diferente, não tenho bola de cristal, mas acho que ninguém ganha do Lula. Lula é uma espécie de Mandela brasileiro. O cara que ficou na prisão, sofreu acusações injustamente. Ele incorpora a ideia do cara que renuncia à própria vida pelo bem do seu povo. E não vai ter terceira via. O que a elite vai fazer? Se ela não tem o discurso do falso moralismo, o que ela vai dizer ao povo? “Olha, estamos querendo fazer vocês de imbecis! Topam votar em mim?” É isso que a elite vai dizer?

 

CC: Depois de quase duas décadas marcadas por políticas públicas que visavam à equidade sociorracial e, dentre outras coisas, foram responsáveis pela retirada do Brasil do Mapa da Fome da ONU, testemunhamos o aumento da miséria, do desemprego e a retirada de direitos. É possível vislumbrar uma luz no fim do túnel?

JS: Sim. Eu respondi essa questão na resposta anterior… (Risos).

 

 

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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