Sociedade

Sem doações, Paraisópolis pode perder estrutura de combate à Covid-19

Controle da pandemia na comunidade foi mais efetivo em comparação com a média municipal; União de Moradores critica falta de apoio público

 Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
  Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
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Os mais de 100 mil moradores de Paraisópolis, segunda maior comunidade de São Paulo, podem ficar sem a única ambulância disponível a partir do dia 20 de dezembro.

O serviço, contratado pela União de Moradores a um custo que ultrapassa os 50 mil reais por mês, chegou a contar com três veículos equipados para o atendimento da população local durante a pandemia do novo coronavírus.

No entanto, com a queda de doações e falta de apoio do poder público, a associação se viu obrigada a diminuir os recursos destinados à equipe formada por um médico, um enfermeiro, dois socorristas e pela diretora da associação Renata Alves.

“Estamos com os dias contados para encerrar o serviço de emergência da comunidade. Não teremos mais dinheiro, porque as pessoas pararam de ajudar. O novo normal aqui é a falta de ajuda”, afirma o líder comunitário Gilson Rodrigues.

“A atuação dos governos é praticamento zero, o que tem é abandono. Temos aqui um serviço que já existia, que são as Unidades Básicas de Sáude (UBS), que atendem as pessoas que vão lá, mas não contamos com um serviço de proteção “, acrescenta.

Com o avanço da Covid-19, ainda em março, o G10 das Favelas (grupo que reúne as dez favelas com maior poder econômico do país) elaborou um plano de contingência próprio para tentar controlar a disseminação do vírus na comunidade e oferecer assistência às famílias.

Três meses depois, um levantamento do Instituto Pólis mostrou que, em territórios precários na capital paulista com organização comunitária estruturada, o controle da pandemia foi mais efetivo em comparação com a média municipal.

“A associação de moradores de Paraisópolis desenvolveu estratégias para suprir a falta de políticas públicas para a comunidade. Primeiramente, foi criado o sistema de presidentes de rua, em que voluntários ficam responsáveis por monitorar famílias para possíveis sintomas do Covid-19. Foram cerca de 420 presidentes – cuidando de cerca de 50 casas cada”, informou o instituto à época do estudo.

“Nós temos feito um trabalho de proteção, por meio de rádios e carros de som, que tem contribuído com a mudança de comportamento da população em relação ao uso de máscara e higienização. Nesse período de pandemia, distribuímos mais de 100 mil kits de higiene e vamos distribuir nesta semana mais 10 mil potes de álcool em gel e 10 mil máscaras”, diz Rodrigues.

Em vídeo da associação, Rodrigues conta algumas medidas

A vida não mudou

Na comunidade, os moradores mantiveram a rotina mesmo com o aumento no número de infecções pelo novo coronavírus. De acordo com o líder comunitário, no período, não houve nenhum momento em que “Paraisópolis parou”.

“Aqui, é impossível fazer isolamento, as pessoas continuam indo para a rua, pois precisam trabalhar. Pegam ônibus e metrô todos os dias, voltam e acabam contaminando a família. Os que não trabalham estão em lugares pequenos com famílias numerosas. Não há condições estruturais para ficar em casa”, conta.

Para ele, na favela não existe a expressão “novo normal”.

“As famílias moram em cima de córregos e não tem como dormir ou ficar o dia inteiro em uma casa que está fedendo. Os problemas que foram evidenciados precisam ser resolvidos, pois o novo normal, para nós, é aceitar milhares de famílias morando em cima do córrego, o aumento do desemprego, a fome e o SAMU sem vir na favela. Este é o novo normal”, declarou.

Em novembro, com o que alguns cientistas chamam de segunda onda de Covid-19, a comunidade teve um aumento no número de infecções. Rodrigues esclarece que o termo não se encaixa na realidade local.

“Não percebemos a chegada da segunda onda porque as pessoas estão na rua. Pagamos o preço porque temos que trabalhar”, afirma.

Ausência de doações

Sem a ambulância e com a diminuição das colaborações, o presidente da associação prevê tempos duros para a comunidade a partir de janeiro.

Para arrecadar doações, a associação chegou a fazer um site: www.novaparaisopolis.com.br

“Sabemos que a situação tende a se agravar, por conta da crise sanitária e da econômica, mas vamos continuar lutando, buscando fazer a nossa parte e contando com a solidariedade das pessoas”, reforça.

Mulher é atendida pela equipe na comunidade. Foto: Reprodução/Redes sociais

O que diz a Prefeitura

Em nota a CartaCapital, a Prefeitura de São Paulo afirmou que a comunidade é atendida pelas equipes de saúde, mas que a “única dificuldade enfrentada pelas ambulâncias é em algumas ruas apertadas existentes no local”.

Leia a íntegra:

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), esclarece que toda a comunidade de Paraisópolis é coberta pelas equipes de saúde. Há uma base destinada para o atendimento daquela região.

A única dificuldade enfrentada pelas ambulâncias é em algumas ruas apertadas existentes no local, o que pode afetar o tempo de resposta. Além do SAMU, a comunidade é 100% coberta por equipes de Estratégia de Saúde da Família, com 59.913 pessoas cadastradas para atendimento através de três Unidades Básicas de Saúde (UBS): Paraisópolis I, Paraisópolis II e Paraisópolis III. Há ainda uma unidade de AMA Especialidades Pediátricas e um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III Adulto.

A Secretaria Municipal de Saúde está realizando novas etapas do inquérito sorológico para mapear a prevalência da doença em todas as regiões da cidade e, assim, auxiliar as autoridades de vigilância na tomada de decisões no combate à pandemia, com base em dados científicos.

Alisson Matos

Alisson Matos Editor do site de CartaCapital. Twitter: Alisson_Matos

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