Diversidade

Sem auxílio do Estado e patrocínio, ONG de apoio a pessoas trans pode fechar em 2022

Com um custo mensal de 30 mil reais, a Casa Chama busca apoio internacional e da sociedade civil para manter suas atividades

Chama Festival realizado no Teatro Oficina, em 2019. Foto: Divulgação.
Chama Festival realizado no Teatro Oficina, em 2019. Foto: Divulgação.
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Com poucos patrocinadores e sem o auxílio do Estado, a ONG Casa Chama, focada no apoio à população trans, corre o risco de encerrar suas atividades básicas até fevereiro de 2022.

Fundada em 2018, a Casa Chama oferece assistência de saúde, jurídica e psicossocial para mais de 250 pessoas trans na capital paulista. Entre serviços prestados, estão o processo de retificação de nome social, acesso à hormonioterapia e o acompanhamento na gravidez de homens trans, pauta pouco debatida e negligenciada pelas diretrizes de saúde do governo.

Também lidera projetos de desenvolvimento cultural e na promoção da autonomia financeira do grupo. Em 2020, a organização distribuiu mais de 3 mil ‘cestas dignas’ para membros da comunidade em situação de vulnerabilidade e insegurança alimentar.

Tornada ONG oficialmente há apenas um ano, a Casa Chama enfrenta barreiras burocráticas para participar de editais e ter direito a emendas do governo. Até 2019, a maior parte da verba provinha de filantropia e do apoio internacional do fundo monetário International Trans Fund.

A manutenção dos projetos e a equipe, alocada em duas salas comerciais no Centro de São Paulo, custam em média 31 mil. Para a continuidade dos projetos, é preciso que as doações e apoios de iniciativas privadas não ocorram apenas sazonalmente. “As marcas só olham para nós no mês de julho, mas a violência acontece 24h por dia”, lamenta Digg Franco, co-fundador da ONG. “Todo dia a demanda cresce, mas o apoio não.”

Até 2019, a casa manteve uma sede para o acolhimento de pessoas em situação de rua, mas o projeto tornou-se financeiramente inviável. “Precisávamos de um edital público. Eles cobram no mínimo dois anos de funcionamento e oficialmente éramos ONG há menos de um”, destaca Franco.

Por se tratar de uma ONG, a organização trabalha exclusivamente com dinheiro em caixa e não pode contrair dívidas. Com a verba atual, Digg acredita que a Casa Chama possa sobreviver até fevereiro. “Precisamos do apoio da sociedade civil para sobreviver pelos próximos dois anos.”

Agora, o foco da Casa é ter segurança para atravessar o ano e dar continuidade aos projetos. “Lidamos com a saúde física e mental dessas pessoas, que já são negligenciadas pela sociedade, não podemos só ‘sair’ da vida delas”, desabafa.

No primeiro 1º semestre de 2021, o Brasil registrou 89 mortes violentas e 33 tentativas de assassinato de transexuais e travestis, de acordo com levantamento realizado pela ANTRA, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais. O número equivale a mais da metade das 175 mortes registradas em 2020, ano em que o país alcançou a marca de mais letal para transexuais no mundo.

Atualmente, a organização também conta com uma campanha no portal de financiamento coletivo Benfeitoria, com a meta de R$ 31 mil reais. É possível realizar assinaturas de R$ 25 a R$ 500 mensais, que dão direito a recompensas como palestras para empresas e pequenos grupos.

Capim Navalha , 2021. Por Gaé Charrí.

Artistas trans no SP-Arte e leilão beneficente no AURORAS

Para manter as portas abertas em 2021 e trazer visibilidade a artistas transexuais, a Casa Chama participa de 20 à 24 de outubro da mostra da feira E leilão SP-Arte. Serão apresentadas 41 obras de artistas contemporâneos trans e cis-aliados, que estarão disponíveis para vendas durante o evento. No dia 23 também ocorrerá um leilão presencial no centro de arte AURORAS com obras adicionais, que ficarão disponíveis para venda online até dezembro, junto a um pocket-show promovido pela ONG.

Travesti é o Poder, 2015. Por Ana Matheus Abbade

A ONG realiza ainda o único evento com enfoque transmasculino da América Latina — o ‘CHAMA EM AÇÃO’ — e emprega temporariamente mais de 95 pessoas transexuais. “Somos muito fortes na cultura, além dos festivais temos roteiros de filmes, projetos de exposições e temos uma equipe de audiovisual composta por pessoas trans para assessorar em campanhas publicitárias”, destaca Franco.

Caio César

Caio César
Estagiário de CartaCapital

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