Sociedade

Segurança do Rio é baseada em ‘contagem de cadáveres’, diz pesquisador

‘Comemoração’ do governador Wilson Witzel após desfecho do sequestro de ônibus mostra despreparo e não dá respostas à criminalidade

Foto: Tânia Rego/EBR
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Um homem de 20 anos sequestrou um ônibus nesta terça-feira 20 e manteve, por ao menos quatro horas, 37 pessoas reféns na ponte Rio-Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro. No final da manhã, após tentativas de negociações com a polícia e da liberação de seis pessoas, o criminoso foi atingido e morto por um atirador de elite do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais). Quando o governador Wilson Witzel (PSC) chegou ao local, a ação já havia sido concluída. Ao sair do helicóptero, ele comemorou.

“Esses gestos fazem efeito no dia a dia da segurança pública, e isso é gravíssimo. Em qualquer outra parte do mundo, se tivesse o que aconteceu no dia de hoje, a despeito da discussão se a ação do Bope foi correta ou não – eu acho que a gente não deveria nem entrar nessa discussão – o governador assumiria uma postura seria, uma postura de lamentar a morte, de explicar à sociedade de que aquela foi um resultado que não era esperado, que não era desejável.”, afirmou em entrevista o pesquisador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Pablo Nunes. 

“O que a gente tem visto nesses primeiros meses do governo Witzel é que é uma política de segurança pública que está sendo notabilizada pela contagem de cadáveres”, acrescentou Nunes. Para ele, a consequência é notável: nos primeiros sete meses no cargo, Witzel já bateu todos os recordes de letalidade policial. Até o fim do ano, se o ritmo continuar o mesmo, a conta pulará para 1700 mortos.

Em coletiva, o governador afirmou que teria comemorado a vida dos reféns, que saíram ilesos. Quando chegou ao local do ocorrido, Witzel subiu ao ônibus onde estavam as pessoas ainda não liberadas e afirmou que fez uma oração pelo criminoso, assim como teria, posteriormente, contatado a família do homem.

Nas últimas semanas, o governo do Rio está no centro do debate por conta, principalmente, da morte de seis jovens inocentes da periferia por conta de operações policiais. Na madrugada desta terça-feira 20, vídeos nas redes sociais flagraram uma granada sendo jogada de um helicóptero da Polícia Militar na Cidade de Deus, comunidade da Zona Norte do Rio.

Para Pablo Nunes, os desdobramentos do sequestro já fazem parte do jogo político do governador, que sabe do ponto sensível da população do Rio de Janeiro em relação à violência urbana, problema antigo e persistente da cidade. “Esse contexto de medo e de insegurança favorece pessoas com falas que fazem efeito, [falas] de que vão acabar com os problemas que estão assolando a população de forma fácil, rápida e de uma vez por todas. É inteligível que a população entenda isso como uma solução para os seus problemas.”, diz o pesquisador.

O presidente Jair Bolsonaro não deixou de comentar a situação. “Parabéns aos policiais do Rio de Janeiro pela ação bem sucedida que pôs fim ao sequestro do ônibus na ponte Rio-Niterói nesta manhã. Criminoso neutralizado e nenhum refém ferido. Hoje não chora a família de um inocente.”, escreveu nas redes sociais. A fala, para Pablo Nunes, revela “políticos absolutamente despreparados para lidar com a questão da segurança pública.”

Sequestrador estaria em um surto psicótico

Na coletiva, o governador Witzel voltou a defender que pessoas portando fuzis possam ser abatidas por atiradores de elite e informou que vai provocar o Supremo Tribunal Federal para que seja dado um entendimento jurídico nesse sentido.

“Eu quero extrair o entendimento de que quem porta fuzil é ameaça iminente, não podemos esperar ele atirar primeiro. A sociedade precisa tomar essa decisão, vamos provocar o STF para ter esse entendimento jurisdicional. Se esse de hoje pode ser abatido, porque não quem está com um fuzil?”, questionou o governador.

William não tinha antecedentes criminais e parentes relataram que ele estava em surto psicótico há três dias. A arma encontrada com ele era um simulacro, ou seja, de brinquedo.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, em coletiva na tarde desta terça-feira 20. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Segundo o comandante do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope), tenente-coronel Maurílio Nunes, que foi o responsável pela ação, as negociações por telefone não avançaram e a psicóloga presente no local identificou em William um perfil psicótico, o que, segundo ele, levou a polícia a iniciar a “negociação tática” que culminou nos disparos fatais.

“No contato, ele alegou que queria se matar, iria se atirar da ponte, estava difícil manter a negociação, ele saiu do ônibus e apontou a arma para uma vítima. Sempre tomamos por princípio que a arma era real. O ônibus estava engatilhado, com garrafas PET com gasolina penduradas e ele tinha um isqueiro, então a ameaça era real. A negociação passou para tática, comandada por mim.”

Por motivo de sigilo no inquérito, Nunes não revelou quantos atiradores participaram da ação nem quantos tiros foram disparados. “Foram disparados os tiros necessários para ele parar. Ele também tinha uma faca e uma arma de choque”, informou o tenente-coronel.

O sequestrador foi levado para o Hospital Souza Aguiar, no centro do Rio, mas não há informações se ele chegou com vida ou já morto à unidade de saúde. A Polícia Civil assumiu a ocorrência e a Delegacia de Homicídios da capital será a responsável por conduzir o inquérito, que está em sigilo.

*Com Agência Brasil

Giovanna Galvani

Giovanna Galvani
É repórter do site de CartaCapital.

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