“São as mulheres que estão na vanguarda da defesa comunitária”

Em entrevista especial, Silvia Federici fala sobre o papel das mulheres na luta anticapitalista

“São as mulheres que estão na vanguarda da defesa comunitária”

CartaCapital,Sociedade

Em São Paulo para o lançamento oficial do livro “O Ponto Zero da Revolução”, a autora Silvia Federici concedeu uma entrevista especial para um grupo multidisciplinar de mulheres. Além de escritora, Silvia é professora, militante feminista e cofundadora do Coletivo Feminista Internacional, responsável pela campanha Wages for Housework (salários para trabalhos domésticos). Entre suas obras estão também “Calibã e a Bruxa” e “Mulheres e Caça às Bruxas“. Silvia veio ao Brasil para lançar também Mulheres e Caça às Bruxas pela Boitempo Editorial, e retornará em outubro para participar do seminário internacional “Democracia em Colapso”.

Promovido pela Editora Elefante, o encontro com Tamy Ghannam, Isadora Attab, Carol Miranda e Camilla Dias ocorreu em Pinheiros, no hotel em que Silvia estava hospedada. No bate papo de cerca de uma hora, Silvia falou sobre como o capitalismo necessita do trabalho doméstico não remunerado para continuar existindo e sobre a vanguarda das lutas feministas ao redor do mundo na construção dos “comuns”.

Em todo o seu trabalho é abordada a histórica resistência feminina e como as mulheres sempre foram mais reivindicativas, já que eram as mais diretamente afetadas pelas opressões do capitalismo. No último capítulo do livro “O Ponto Zero da Revolução”, você demonstra como que essa resistência se dá especialmente em iniciativas de reapropriação da terra, impulsionando a agricultura de subsistência e o uso não comercial dos recursos naturais. 

Aqui no Brasil nós temos um debate, ainda incipiente, sobre o conceito do “comum”, pautado especialmente por um setor da esquerda radical, através do ecossocialismo e dos ideais do “bem viver”. Porém, ainda não conseguimos delinear um horizonte político ou um formato coeso para um novo modo de produção. Onde devemos nos inspirar para construção desse modelo? 

Silvia Federici: Quando pensamos em mudar a sociedade, temos que pensar no passado e no presente ao mesmo tempo para entender o que está acontecendo conosco, quais são as possibilidades, quais são as estratégias que podem nos dar esperança de sermos bem-sucedidas e quais estratégias talvez nos levem ao fracasso. Precisamos entender o que vem acontecendo e o que as pessoas estão tentando fazer. 

No caso dos “comuns” é importante perceber que ainda existem muitas sociedades se organizando a partir de princípios comunitários. Obviamente existem princípios comunitários e organizações comunitárias que são profundamente afetadas pelo fato de serem cercadas por relações capitalistas. Então veja, não há “comuns puros”. E é muito importante entender isso, vendo o exemplo de partes do México e de partes da Guatemala.

No entanto, acho que quando pensamos nos comuns e nas sociedades construídas ao redor desses princípios, temos que pensar em algo que nós ainda vamos produzir. Não há repetição do modelo passado, certo? O passado pode ser uma inspiração, pode ser um lugar de aprendizado, mas obviamente a mudança que procuramos é algo que tem que ser produzida todos os dias dentro das nossas lutas.

Para mim, o conceito dos comuns é muito importante e se baseia em vários princípios. É a ideia de uma sociedade onde as pessoas estão compartilhando toda riqueza que é produzida, elas têm acesso ao estado natural da riqueza, em que a riqueza não é privatizada, nada é privado. Um lugar em que o trabalho é cooperativo, em que as decisões são tomadas coletivamente e não por um grupo selecionado de pessoas, e também onde basicamente toda forma de organização presume que temos responsabilidades não apenas em relação a nós mesmos ou a nossa família imediata ou amigos, mas que temos a responsabilidade para com toda a comunidade. Então, isso, em essência, é a ideia dos comuns para mim.  

Os comuns não são um pedaço de terra, não são uma coisa. O bem comum não é um jardim urbano ou um regime comunitário de terras. É uma maneira de organização da sociedade.

Eu acho que que pensar dessa maneira é muito importante, porque permite perceber que esse princípio pode ser aplicado a diversas situações. Pode ser aplicado à questão do conhecimento, à questão da construção da história, e não apenas para coisas materiais. É um princípio de organização social e eu sempre uso tudo o que acho eficaz: a ideia dos zapatistas, que é “um não, muitos ‘sim'”, significando que podemos dizer o que não são comuns, mas como eles vão ser organizados depende muito da situação local, da história local, da cultura. Obviamente um comum na América do Norte não será o mesmo comum dos planaltos da Guatemala. Não existe um modelo único, mas elementos em comum na ideia dos comuns.

Basicamente são locais de autogoverno e lugares em que a terra não é organizada segundo o princípio de privatização, nem segundo o princípio da constante produção de escassez, que é realmente a pedra sobre a qual o capitalismo é construído. Aparentando produzir muitas riquezas, mas escondendo a expropriação constante e a expulsão das terras, que é o que torna a exploração possível. 

Como pensar essa lógica dos comuns a partir de uma perspectiva essencialmente feminista, que leve em consideração justamente as questões do trabalho reprodutivo e da conexão com a terra e o meio-ambiente? Como evitar que essa perspectiva feminista dos comuns não seja apropriada por um debate neoliberal ou localista, por exemplo?

Silvia Federici: Para mim uma perspectiva feminista para os comuns é uma perspectiva que coloca a questão da reprodução no centro, e, de fato, é isso que está acontecendo. Não estou teorizando no abstrato. Eu estou realmente descrevendo o que já está acontecendo em muitas partes do mundo, começando na América Latina, mas também na África.

São as mulheres que realmente estão na vanguarda da defesa comunitária e dos bens comuns, particularmente em termos de terras, florestas e águas.

Essas lutas que estão ocorrendo na Amazônia, na Amazônia equatoriana e na Amazônia brasileira, também no México e na Guatemala, são basicamente as mulheres dizendo “não! deixe o petróleo enterrado no chão e não destrua as nossas florestas”. E isso está, muitas vezes, colocando as mulheres em conflito com os homens, não apenas os guardas das empresas, das empresas extrativistas, mas muitas vezes com homens de sua comunidade, afetados pelos salários que as empresas estão oferecendo, e há todo um testemunho que diz que quando essas empresas chegam, também se exacerba a violência contra as mulheres. Os homens estão trabalhando até a exaustão, embebedam-se…

Há testemunhos de mulheres do Equador que dizem que no passado elas eram capazes de sair de suas casas a qualquer hora do dia e da noite sem se preocupar, mas depois que a mina chegou na área, elas não podem mais sair. Elas estão assustadas. A violência tem aumentado, tanto a doméstica quanto a extra doméstica.

Então, as mulheres hoje são as responsáveis pela reprodução da comunidade, elas têm que se preocupar com que tipo de água elas estão dando aos seus filhos. Se as pessoas ficam doentes, elas que devem cuidar. E são elas que se envolvem com a agricultura de subsistência, o tipo de agricultura que você usa pra cozinhar, não para vender. Isso é uma grande luta.

Existiam rios que as pessoas extraiam água para consumo que agora estão amarelos, porque estão muito contaminados. E esse geralmente é o fim de uma comunidade. Você tem que sair, você não pode viver se não tiver acesso à água. Essa é uma grande, imensa luta. E isso está acontecendo também em outras áreas. A questão das hortas, da habitação e a questão também de que tipo de relacionamento temos com as pessoas, o tipo de separações que foram construídas.

Foto: Isadora Attab

Por exemplo: mulheres foram forçadas a fazer todo o trabalho reprodutivo da casa separadas umas das outras, isoladas umas das outras, e isso tem sido uma grande fraqueza. Com a questão da violência contra as mulheres, estamos percebendo que conectar nossas vidas também é muito importante para enfrentar essa violência e construir um sistema de defesa. Não é como se nós pudéssemos confiar na polícia, mas você pode construir essa confiança prestando atenção no que está acontecendo com o seu vizinho e com as mulheres da sua comunidade.

Hoje em dia, por exemplo, as creches públicas são as primeiras a serem cortadas. Os subsídios estão sendo cortados. Ou seja, são as mulheres de uma comunidade que já possuem dois ou três filhos, que cuidará dos filhos das outras mulheres para que elas possam sair para trabalhar. E mesmo que haja uma creche, as condições são muito ruins, são como estacionamentos, em que você estaciona as crianças enquanto vai trabalhar. São como depósitos. Dessa forma, são principalmente mulheres nas suas comunidades que estão fazendo esse trabalho, a menos que você tenha muito dinheiro. Ainda assim, nos Estados Unidos o valor das creches subiu tanto que mesmo para os ricos está ficando caro demais. Uma mulher chegou a me contar que com o valor que paga poderia estar enviando o filho para a Universidade. 

Você aponta que a resposta capitalista às crises globais é um acirramento da opressão e da marginalização especialmente das mulheres, que se dá sobretudo no Sul Global – gerando até nesses locais uma espécie de nova caça às bruxas. Mas, como sempre, encontramos exemplos de resistência liderados por grupos de mulheres, aqui no Brasil, a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, na Argentina, o Movimento Ni Una a Menos, e tantos outros que chamam a atenção pela forte participação de uma juventude engajada. Como você enxerga essas novas organizações de mulheres, esse movimento feminista mais jovem?

Silvia Federici: Veja, o que eu estava dizendo antes é justamente que as mulheres estão resistindo. Você pode ver, como Berta Cáceres, Marielle Franco e muitas outras mortas na Colômbia. Desde o suposto “acordo de paz” na Colômbia, eles já mataram várias mulheres que eram líderes de movimentos sociais e, particularmente, defensoras do meio ambiente.

A luta das mulheres por mais autonomia teve como resposta um aumento da violência contra as mulheres, e esse aumento é global, no entanto, essa violência não é uniforme, alguns grupos de mulheres estão sendo mais atacados do que outros. Acredito que isso é parte da razão pela qual temos uma nova geração que está agora saindo às ruas, é uma nova força social,

E mais, entendo que algumas das ilusões que as feministas tinham no final dos anos 70 de que “agora temos emancipação, vamos conseguir empregos e tudo será melhor” foram desveladas. Passados 30 anos de experiência, somos capazes de concluir que um número limitado de mulheres realmente ganhou mais autonomia e têm empregos melhores.

Porém, a maioria trabalha em três empregos, sofrem de ansiedade, são precarizadas e sem convívio familiar. Nós temos nos EUA histórias sobre famílias proletárias, onde o pai trabalha durante a noite, a mulher durante o dia e a família só se reúne no almoço de sábado. Além do mais, mulheres são as maiores consumidoras de antidepressivos e sua expectativa de vida diminuiu em cinco anos.

Também nos Estados Unidos os estudantes saem das universidades com dívidas enormes. Eles dizem “agora as mulheres podem ir para a universidade”, ok, mas ao sair, com vinte e cinco anos, você contraiu uma dívida de 50 mil dólares e está desempregada. Pelo resto da sua vida você precisará trabalhar para pagar isso.

Eu acho que existe uma insatisfação, há uma percepção entre as mulheres mais jovens de que são elas que têm que fazer uma mudança, elas têm menos ilusões sobre o sistema que muitas mulheres tinham nos anos 70. 

Hoje existe um anticapitalismo um pouco mais difundido, assim como a ideia de que este é um sistema injusto. Quero dizer: você tem que ser totalmente louco ou rico para não ver que esse sistema tem que ser mudado. Você realmente tem que ser absolutamente louco, a menos que você tenha um interesse direto, para não ver que isso precisa ser mudado. E eu acho que é por isso que o movimento é tão forte e combativo. É realmente um prazer ver isso, é um verdadeiro prazer acompanhar. Faz com que eu me sinta jovem novamente. Eu posso compartilhar minha experiência com vocês, mas o mundo está em suas mãos.

Você imagina soluções vindas por meio de reformas e políticas públicas, ou apenas uma transformação estrutural e sistêmica mudaria isso? Você conhece o caso de algum país que tenha avançado nesse sentido?

Silvia Federici: Eu não tenho nenhuma confiança no Estado e acho que não podemos confiar nele. Por outro lado, também é verdade que o Estado, hoje, tem o monopólio da riqueza: é dono das terras e da maioria da riqueza. Você não pode ignorar o Estado, mas também não pode depender dele. Essa é a questão: como articular uma estratégia que se engaje com o Estado de modo que ajude a conquistar a reapropriação da riqueza, sem criar novas formas de controle.

Em termos de políticas públicas, podemos citar, por exemplo, o debate na Espanha sobre municipalismo, que foi muito interessante. Depois do movimento do 15M [contra a crise e o desemprego endêmicos na Espanha], um grupo numeroso de pessoas começou a pensar “ok, então ao invés de ficar disputando entre nós, entre anarquistas e vertentes do marxismo, porque não organizamos uma plataforma, porque não tentamos enxergar em que pontos nós concordamos?” Então eles criaram uma plataforma, um processo muito interessante. Também é preciso ver que na Espanha as comunidades são muito mais organizadas, eu não imagino a mesma coisa acontecendo nos Estados Unidos.

Eles aprovaram essa plataforma, disputaram as eleições e conseguiram entrar no governo local. Essa experiência foi bastante complicada e, atualmente, estão fazendo várias análises para entender quanto eles ganharam e quanto eles perderam. A ideia era: temos que esquecer o Estado e focar no nível local, onde você tem um controle local e entende mais diretamente o que a comunidade precisa, o que as pessoas precisam etc. Eu não quero ser dogmática: é possível que, em alguns casos, a gente possa ter essa relação com o Estado, mas de maneira geral eu diria que temos que nos engajar com o Estado, negociar com ele, lutar ao seu lado, mas jamais confiar nele.

O Estado é capitalista e tem uma orientação política muito clara e direta, é um espaço tão bem definido que é impossível modificá-lo. Inclusive é o que eu acho que está acontecendo com os governos “progressistas”: você perde a esquerda, perde os radicais e tampouco ganha a direita. Essa ilusão de conciliação é muito difícil pra mim de compreender. É muito difícil para mim compreender que as pessoas possam achar que vão desarmar a direita adotando medidas neoliberais, se tornando mais como ela mesma, ganhando seu apoio ou mesmo sua aceitação. Isso nunca aconteceu. Nós tivemos um histórico terrível com o Obama, por exemplo. Claro, ele foi melhor que o Trump, mas somente em alguns níveis: em outros, ele preparou o caminho para o Trump; muitas pessoas deportadas, o desenvolvimento da guerra, o apoio do golpe em Honduras, o golpe no Paraguai… Mesmo no Brasil, eu li o livro de Raul Zibechi, Brasil Potência, em que se conta que somente 10% da riqueza foi direcionada para o Bolsa Família, enquanto a concentração de terras aumentou, a reforma agrária nunca foi feita, o agronegócio recebeu ainda mais fundos e os bancos se tornaram mais ricos.

A última vez que eu estive em São Paulo fiz uma palestra com várias mulheres, mulheres periféricas, mães de maio, Monique Prada, e várias outras mulheres, e foi justamente no dia do impeachment da Dilma. Eu lembro que uma das mulheres me disse: eu não vou chorar pela Dilma, porque meu filho foi assassinado em 2006 pela política na favela. Eu também estava no Equador no tempo do Correa, e também haviam vários movimentos que o odiavam, porque em nome da modernização, ele estava atacando as terras indígenas ainda mais do que os outros governos. A mesma coisa na Bolívia, com a questão do lítio. É muito importante que a gente entenda isso. Que a gente entenda que esses governos ditos progressistas eventualmente vão perder. Eu fiquei surpresa de estar aqui depois do impeachment da Dilma e ver que não haviam milhões de pessoas na rua protestando por aquilo. Eu não vi milhões de pessoas na rua e então eu entendi o motivo.

Antes do Obama ser eleito, nós tínhamos um movimento antiguerras e anti Bush muito fortes nos Estados Unidos. E também um movimento antiglobalização, contra o Banco Mundial e contra o Fundo Monetário Internacional. Obama foi eleito e todas as manifestações pararam, sem constrangimento. Eu poderia dizer que são somente os governos progressistas que conseguem desarmar os movimentos sociais, eles dão essa ilusão de que algo vai mudar. Se você olha para a experiência histórica, não existe mudança real se ela não vem de baixo, e é com isso que a gente tem que trabalhar.

Nos seus livros você nunca deixa de traçar recortes raciais. No “Ponto Zero da Revolução”, você traz para a pauta do movimento feminista o salário para o trabalho doméstico. Para as mulheres negras brasileiras é difícil falar em salário para trabalhadoras domésticas quando nós temos que executar duplamente esse trabalho: sem remuneração dentro de casa e mal remunerado fora de casa, principalmente as empregadas domésticas, que no Brasil são majoritariamente negras. Como podemos reagir diante desta característica no formato que é tratado o trabalho para as mulheres no Brasil, já que há uma diferença para o modelo europeu.

Silvia Federici: A diferença talvez seja uma questão de timing, mas não uma diferença de problema. Até bem pouco tempo atrás, por exemplo, muitas mulheres na Itália trabalhavam como empregadas domésticas fora de casa. Quando lutamos pelo salário doméstico nós lutamos primeiro contra o trabalho não-remunerado, contra as mulheres produzirem tanto trabalho não-pago que beneficia a classe capitalista, os empregadores, etc, e, ao mesmo tempo, lutamos contra a desvalorização desse trabalho, a desvalorização da reprodução, que afeta todo esse trabalho, tanto o que é feito em casa e quanto o que é feito fora de casa.  Não é por acaso que quando milhões de mulheres vão trabalhar fora de suas casas, tradicionalmente, o trabalho sexual e o doméstico estão entre suas opções.

Diante disso, é muito difícil conseguir qualquer condição decente de trabalho. Você sempre fica com os trabalhos inferiores, com salários inferiores, sem benefícios, nada. Ainda é assim. Nos Estados Unidos e na Europa, muitas trabalhadoras domésticas são imigrantes vindas da África, do Caribe, das Filipinas, e suas condições são terríveis.

Para nós, a luta pelo salário doméstico [Wages For Housework] é uma luta para evidenciar a questão da reprodução, mostrar que esse trabalho é realmente o pilar, o suporte de qualquer outra organização. 

Wages for Housework foi uma ação para dar mais poder a todas as mulheres, em casa ou fora dela. Minha esperança e minha recomendação é que se construam movimentos de mulheres, porque somos as mesmas mulheres, mulheres que trabalham fora de casa e que ainda assim fazem o trabalho de casa. Nós fazemos o trabalho em casa sem receber por ele e fora de casa recebendo pouco. A maioria dos trabalhos, mesmo que não sejam serviços domésticos, ainda que você saia de casa e se torne uma garçonete, a maioria dos trabalhos que as mulheres fazem quando saem de casa continuam sendo trabalhos domésticos. Tomar conta de crianças, cuidados diários ou como enfermeiras.

Hoje, nós temos um grande movimento de trabalhadoras domésticas remuneradas nos EUA. Nós temos redes de trabalhadoras domésticas filipinas, caribenhas, mexicanas, de diferentes partes do mundo, que estão sendo capazes de realizar mudanças. Das mudanças no papel para mudanças na realidade ainda há um grande passo, mas já é importante, porque agora as pessoas sabem que atrás de você há uma grande organização, então os empregadores estão mais cuidadosos. Eles sabem que há um suporte por trás de você. Desde 2010 existem legislações em vários estados regulando o trabalho doméstico, delimitando as horas de trabalho, benefícios, férias. A esperança é de construir um movimento que aproxime e conecte todas as mulheres.

Eu sou uma jovem mulher brasileira que trabalha com literatura em um país que passa por uma fase política bastante ameaçadora para as minorias sociais, um país que já retrocedeu em muitos níveis e que hoje volta a praticar atos de censura contra as mais variadas expressões artísticas, chegando ao ponto em que homens eleitos pelo povo achem razoável recolher livros que abordem questões de gênero e sexualidade, simplesmente porque esses temas não condizem com o que eles defendem.

Como uma feminista latino-americana defensora da literatura, não deixo de me perguntar todos os dias se o que faço tem de fato alguma relevância social, algum potencial de afeto transformador, e agora transfiro essa pergunta a você: qual é a função das artes, ou há uma função, mais especificamente da literatura, na luta feminista?

Silvia Federici: Eu acho que é imensa! É imensa, em todos os níveis. Porque a literatura é também uma forma de apresentar e explorar questões políticas, visões da sociedade que queremos construir, de analisar nossas vidas. A literatura e as artes em geral são linguagens que nos permitem articular experiências que um documento teórico muitas vezes não é capaz de fazer. Acho que os documentos políticos mais bem-sucedidos são aqueles que têm qualidade artística.

Eu, por exemplo, sempre tento deixar minha escrita menos árida, torná-la um pouco mais criativa. Isso é o que a literatura pode fazer, mover você, mobilizar sua imaginação. A mesma coisa acontece com as imagens. Acho que a arte é crucial. A história das artes na evolução dos movimentos ainda continua, e muito poderosa. Olhe para os pôsteres, os banners, olhe para os murais. Eles são a maneira com que as pessoas se expressam. E isso é um modo muito poderoso de comunicação imediata. Então não se preocupe! É muito importante, nós precisamos usar diversas vias de expressão. Cada um de nós tem diferentes possibilidades e diferentes caminhos para chegar às pessoas.

Foto: Tamy Ghannam

Quais livros você nos recomendaria? 

Silvia Federici: Vocês conhecem uma autora egípcia chamada Nawal El Saadawi? Eu a menciono porque foi do seu livro que veio o título do meu [O ponto zero da revolução]. O livro que inspirou meu título intitula-se Mulher no ponto zero [Woman at point zero] na tradução em inglês do título egípcio Firdaus. “Firdaus” em egípcio significa “paraíso”. Em inglês o livro foi traduzido como “mulher no ponto zero” e eu o traduzi ao italiano. Em italiano eu usei o título original, Firdaus. Quando eu li Woman at point zero a ideia de ponto zero foi muito importante. É um livro curto e muito, muito poderoso. Eu o li várias vezes.

É a história de uma criança que se torna uma jovem mulher em uma família egípcia camponesa extremamente pobre e seu crescimento em busca de caminhos para escapar da opressão. Muito jovem, ela se casa com um homem velho que ela odeia. Ela foge de casa e arranja um emprego, acho que em uma fábrica ou outro lugar, e percebe que lá também está oprimida. Então decide se tornar uma prostituta e consegue se tornar uma prostituta de alta classe. No final descobre que lá também é muito explorada e não está livre.

O livro termina com ela matando o cafetão que a explorava. Ela é condenada à morte, mas tem a possibilidade de não ser morta se implorar pela “graça”, pelo perdão. E ela se recusa. Ela diz, “não, prefiro ser morta a viver nesse mundo”. Parece uma derrota, mas, minha defesa é que isso é uma espécie de metáfora pro fato de que devemos mudar o mundo. Sua decisão de não pedir perdão, de não se humilhar e dizer que estava errada pelo que fez é um modo de dizer “não há lugar pra nós nesse mundo”. Esse mundo precisa ser mudado. O livro é muito poderoso e tem vários episódios que me parecem bastante epistemológicos. Por exemplo, há uma linda descrição da primeira vez que ela tem algum dinheiro nas mãos, depois de se prostituir pela primeira vez. Com esse dinheiro ela vai a um restaurante, compra um pedaço de frango e pela primeira vez na vida ela pode comer sem ninguém passando os olhos pela sua comida. E então ela vê o garçom, o modo como ele olha pra ela recolhendo o dinheiro, e ela percebe que existe algo sobre o dinheiro que… é muito poderoso. Nawal El Saadawi é uma das minhas autoras egípcias favoritas, definitivamente. Agora ela está na casa dos 80 anos, seus últimos livros não são tão bons, mas ela escreveu obras muito poderosas. Suas experiências também, duas em particular: uma é sua experiência na prisão, ela foi presa durante o governo de Anwar Sadat, e outra é sua experiência como médica, ela foi médica e tem um livro muito bom em que descreve o que viveu nesse período.

 

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem