Resposta a videoclipe mostra o quanto é preciso esclarecer sobre trabalho infantil

Vídeo contra emprego de crianças já teve cerca de 300 mil visualizações, mas há quem seja a favor

O fundador e coordenador do Instituto Anelo, Luccas Soares

O fundador e coordenador do Instituto Anelo, Luccas Soares

Sociedade

Em referência ao Dia das Crianças foi lançada uma gravação da música Sementes pelo Instituto Anelo, associação civil sem fins lucrativos da periferia de Campinas, que oferece gratuitamente a crianças e adolescentes ensino de música. O emocionante videoclipe envolveu alunos e professores do projeto, interpretando a composição de Emicida e Drik Barbosa, que é um grito contra o trabalho infantil.

O projeto é desenvolvido pelo Ministério Público do Trabalho contra o emprego de crianças e adolescentes em idade inferior a 16 anos – a proibição de trabalho a menores, a propósito, está na Constituição. O clipe, desde o dia 11 de outubro no ar, já teve cerca de 300 mil visualizações.

“O trabalho foi feito para conscientizar. Estamos felizes de ter participado para combater algo em que eu fui vítima. Fui reprovado na escola, pois precisava trabalhar. Só não passei fome porque minha mão não deixou. A criança deve estar nesse período se desenvolvendo”, afirma o fundador e coordenador do Instituto Anelo, Luccas Soares.

 

 

Em um dos trechos da música Sementes, diz: “É muito triste, muito cedo / É muito covarde / Cortar infâncias pela metade / Pra ser um adulto sem tumulto / Não existe atalho, em resumo / Crianças não têm trabalho, não, não / Não ao trabalho infantil.”

Mas, por outro lado, Luccas, que teve uma infância pobre, conheceu a música e a partir dela usou-a como objeto de transformação de crianças carentes em sua comunidade, se surpreendeu com os comentários sobre o videoclipe.

“Muita gente é a favor (do trabalho infantil), pois o menino preto precisa trabalhar porque se não vira bandido”, diz. Para alguns, a prática é positiva.

“As pessoas comemoram que alguns entraram muito cedo no mercado de trabalho, mas não pensam naquilo que se perde. Como se pode privar a infância? O melhor é a criança estar protegida. Sou a favor de a criança ter atividade de desenvolvimento e não com a obrigação de levar o sustento para dentro de casa. Você não forma cidadãos pulando etapas”, afirma Luccas.

Por conta do clipe, o canal do Youtube do Instituto Anelo dobrou de inscritos. Pela instituição, já passaram em 21 anos de existência mais de 5 mil alunos. A associação atende cerca de 500 pessoas por mês.

 

Inspiração

Luccas Soares, 41 anos, é músico profissional e já apresentou em festivais internacionais. Mas a música entrou na sua vida aos 16 anos. Começou com teclado, depois migrou para o acordeon.

Ele morava no bairro Jardim Florence, na periferia de Campinas, quando aos 3 anos de idade seus pais se separaram. Muitas dificuldades acompanharam a sua infância e adolescência. Para ajudar a família foi vendedor ambulante e fazia bicos. A mãe, empregada doméstica, levava parte do almoço para ele e as três irmãs jantarem.

Morador de uma das vielas do local, com o pouco dinheiro que tinha, comprou um teclado. Um ano depois, formou uma banda de nome Anelo. Em 1998, no Jardim Florence, passou a dar aulas de seu instrumento para garotada. Em 2000, se estruturou em um pequeno espaço, para formalizar dois anos depois o Instituto Anelo.

Anelo é desejo, vontade e inspiração, explica Luccas. “Meu sonho é inspirar meninos e meninas de periferias, pretos e pobres, crianças em situação de vulnerabilidade, para que sejam protagonistas, tenham voz, existam, não sejam vítimas de violência, para construir suas vidas e projetos”.

A associação fica localizada hoje no distrito de Campo Grande, próximo ao bairro onde viveu todas as dificuldades e também foi capaz de mudar a realidade.

O Instituto Anelo tem vários projetos voltados à música, como de iniciação para crianças de 5 a 7 anos, de ensino de instrumentos de cordas, teclas, sopro, percussão e canto coral para atender a faixa entre 8 e 18 anos de idade. Para adultos também são oferecidas aulas de instrumentos. Há ainda uma orquestra, entre outras iniciativas.

Luccas Soares deu aula para uma geração de professores do Instituto, que conta atualmente com cerca de 40 educadores. O instituto formou também vários músicos.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Compartilhar postagem