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Reitores da Amazônia fazem carta de repúdio à violência contra indígenas

por Felipe Milanez publicado 05/05/2017 19h07
Trata-se de uma manifestação inédita e urgente diante da gravidade do momento.
Felipe Milanez
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Indígenas foram reprimidos em Brasília durante ato por demarcação de terras

Maurílio Monteiro, reitor da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e do Sudeste do Pará) e Raimunda Monteiro, da UFOPA (Unifersidade Federal do Oeste do Pará), do Pará, junto da reitora Nair Portela da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), reitora Eliane Superti, da Unifap (Unifersidade Federal do Amapá) e da reitora Myrian Thereza de Moura Serra, da UFTM (Universidade Federal do Mato Grosso), assinam em conjunto um documento de repúdio à escalada de violência contra povos indígenas.

Estes reitores e reitoras lideram universidades que estão localizadas justamente próximas a locais de conflitos, como o ataque que é considerado, por estes acadêmicos e acadêmicas, como “genocida”, ao povo Gamela, no Maranhão, à chacina de trabalhadores sem terra, em Colniza, no Mato Grosso, e no Pará, onde ontem mesmo a líder sem terra, Kátia Martins, do Acampamento 1º de abril, foi assassinada por pistoleiros

Abaixo, a íntegra da carta divulgada na sexta-feira 5, dia em que Antonio Fernandes Toninho da Costa foi exonerado da Funai. Ele denuncia uma “ditadura” já em curso.

Carta de Reitores da Amazônia

A intolerância e a violência não podem ser naturalizadas em nossa sociedade

Os níveis de violência política nas últimas semanas no Brasil e, sobretudo, nas regiões onde atuam nossas universidades são preocupantes, e merecem atenção urgente. Tanto no campo, quanto nas cidades, as barbáries expõem nossos cotidianos e atinge principalmente parcelas vulnerabilizadas da população brasileira.

São violências privadas, para garantir a grilagem de terras, acesso a recursos naturais, como a venda ilegal de madeira, e garantidas pela omissão do Poder Executivo e pela impunidade do Poder Judiciário. A omissão ocorre, no caso da violência contra povos indígenas, pela falta de demarcação das terras. Isso foi o que levou ao ataque genocida, em Viana, no Maranhão, descrito por uma liderança indígena como uma “tentativa de linchamento”. Mas também com a brutalidade com que a polícia legislativa recebeu a pacífica manifestação indígena em Brasília, que demandava, justamente, a demarcação das terras indígenas. Houve omissão também em relação à reforma agrária e ao combate à grilagem que gera os conflitos fundiários. O massacre em Colniza, no Mato Grosso, pelas informações iniciais e atrelando-se ao histórico local, associa-se tanto à grilagem de terras quanto à venda ilegal de madeiras; portanto, duas responsabilidades do Poder Executivo.

A omissão do Poder Judiciário, refletida pela impunidade de mandantes destes crimes bárbaros, protegendo aquelas pessoas com interesse econômico direto nas mortes e execuções políticas, realizadas por meio de pistoleiros, contribui para a consolidação da prática da violência, crescente. Em toda a Amazônia — do Maranhão ao Mato Grosso, do Amapá ao Sul do Pará — temos assistido a uma crescente onda de violência que remete aos piores momentos da história, como a transição da ditadura para a Nova República, nos violentos anos de 1985 e 1986, com absurdos índices de assassinatos no campo.

Estas barbáries no campo são reproduzidas com intolerância e violência nas manifestações políticas nas cidades, tal qual a agressão gratuita da polícia contra Mateus Ferreira, o estudante da Universidade Federal de Goiás, ainda hospitalizado. Estes não são fatos isolados, mas mostram que estamos à margem do Estado de direito, caminhando em direção a um regime de exceção, com todos os temores que isso implica para a sociedade.

As universidades públicas, como instituições sociais com a função de produção de conhecimento e formação de pessoas e visando aos princípios democráticos e do direito à diversidade, cumpre aqui parte do seu papel de chamar a atenção das comunidades universitárias e de toda sociedade para o fato de que essa onda de intolerância não pode ser naturalizada em nossa sociedade!

Manifestamos nossa solidariedade à luta dos povos indígenas pela demarcação de suas terras e às reivindicações das demais populações vulnerabilizadas do campo e da cidade por melhores condições de vida. Repudiamos as tentativas de criminalização de suas lideranças e apoiadores.

Reitor Maurílio Monteiro – Unifesspa

Reitora Eliane Superti – Unifap

Reitora Myrian Thereza de Moura Serra –UFMT

Reitora Raimunda Nonata Monteiro – UFOPA

Reitora Nair Portela - (UFMA)