Raymundo Faoro, o intérprete do Brasil

O clássico 'Os Donos do Poder', que desvela o patrimonialismo, ganha uma oportuna e alentada edição

(Prensa Tres / Adriana Lorete)

(Prensa Tres / Adriana Lorete)

Cultura,Sociedade

Raymundo Faoro (1925- 2003) mal tinha entrado nos 30 anos quando, em 1958, publicou sua obra seminal: Os Donos do Poder. O livro saíra então pela Editora Globo, de Porto Alegre, com a qual Faoro tinha relação por ter sido colaborador da revista literária Quixote, que a editora publicava.

Foi, inclusive, por sugestão de outro colaborador da revista, Erico Verissimo, que o livro recebeu esse título. O nome original era “Formação do Patronato Político Brasileiro”, que acabou por se tornar o subtítulo da vigorosa obra que ganha agora uma alentada e oportuna nova edição.

“A Companhia das Letras publica toda a escola do pensamento social brasileiro. Faltava-nos o Faoro, que é um autor que, pessoalmente, admiro muito”, diz o diretor editorial Otávio Marques da Costa.

Um dos desafios enfrentados pela equipe editorial foi lidar com a extensão do texto. Se a edição da década de 1950 tinha 271 páginas e 140 notas bibliográficas, a segunda, de 1975, ganhou umas 500 páginas e 1,2 mil notas bibliográficas a mais. Depois de 46 anos, era preciso ainda incorporar à edição novas leituras e análises.

“Quisemos mapear os percursos de recepção do livro ao longo dos anos. Esse foi um livro do qual diferentes escolas do pensamento sobre o Brasil se apropriaram, e me parece mais atual que nunca”, diz o publisher, que é também advogado e historiador. Os limites eram, porém, evidentes. A edição não podia crescer ao ponto de tornar-se quase inacessível.

Costa relata, por exemplo, as conversas sobre a mancha tipográfica, que é a delimitação da área de texto a ocupar
uma página, aspecto central para a boa legibilidade. As dobras do artista Eduardo Figueiredo, aluno de Lygia Clark, que ilustram a capa, contribuem para arejar o que é inevitavelmente denso.

Faoro escreveu: ‘Estado e nação, governo e povo, são realidades diversas, que se desconhecem’

Os Donos do Poder – Formação do Patronato Político Brasileiro percorre seis séculos de história para sustentar a tese do patrimonialismo, segundo a qual o Estado, no Brasil, está subordinado, de forma incontornável, a grupos de interesse e influência. A esse grupo o autor dá o nome de “estamento burocrático”.

Faoro, jurista de formação e procurador do Estado da Guanabara, parte da origem do Estado português, marcado pelo poder monárquico, para desenovelar o passado colonial, no qual foi forjada a organização do País. Seguem-se então os períodos da Independência, do Segundo Reinado e da República Velha. 

Como escreve no prefácio José Eduardo Faria, professor de Direito da USP, o autor, nessa reconstrução, dá ênfase ao laço de subordinação entre Estado e sociedade. Ele demonstra que o poder, entre nós, é exercido “em causa própria” por um grupo social constituído de pessoas privilegiadas que dominam a burocracia e extraem do aparato político-administrativo “os benefícios de poder, prestígio e riqueza”. 

O estamento burocrático, leitmotiv da obra, é, na definição de Faria, “um modo peculiar de estratificação baseado na honra”. O estamento apossa-se do poder como se dono dele fosse e usurpa a soberania do povo.

As bases dos conceitos de patrimonialismo e estamento burocrático Faoro foi buscar em Max Weber. Mas, para forjar uma interpretação original sobre o Brasil, foi além das categorias weberianas de racionalidade instrumental e dominação burocrática. O poder, aqui, em vez de ser baseado na racionalidade administrativa, é objeto de apropriação privada. 

Celso Furtado, weberiano como Faoro, diz ter entendido o País ao ler Os Donos do Poder

A relação de Faria com Faoro remonta à década de 1970. Também jurista, Faria estava no início da carreira acadêmica e trabalhava como repórter especial do Jornal da Tarde, quando foi entrevistar Faoro no Rio. Lá pelas tantas, o autor de Os Donos do Poder comentou que, coincidentemente, estava lendo um livro sobre Weber escrito por um homônimo do repórter. Ao ouvir que não se tratava de um homônimo, mas dele próprio, Faoro gargalhou com gosto. 

A conversa estendeu-se pela tarde e a troca intelectual, pela vida. “Foi uma amizade de carta e cartão”, define Faria, lamentando o fato de, por morar em São Paulo, ter tido poucas oportunidades de dividir com Faoro uma garrafa de vinho. “Ele era, além de tudo, um homem muito divertido e agradável.”

Quando Faria entrevistou Raymundo Faoro, não fazia muito tempo que a segunda edição de Os Donos do Poder tinha saído. Enquanto a primeira edição passara quase em brancas nuvens – à parte um prêmio da Academia Brasileira de Letras –, a segunda tornou-se um acontecimento. O sucesso foi tamanho que, em dez meses, a primeira tiragem esgotou. 

A esta altura, Faoro, como presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), tornou-se também uma figura proeminente na luta contra o autoritarismo e foi responsável pelo restabelecimento do habeas corpus pelo regime militar.

No posfácio em que definem o livro como “um romance sem heróis”, Gabriela Nunes e Bernardo Ricupero procuram entender essa mudança na recepção. “Quando muda o momento, mudam os leitores”, simplifica, em entrevista a CartaCapital, Ricupero, referindo-se ao fato de que o impacto da obra aumentou após a instalação da ditadura militar.

Não se pode desconsiderar ainda que, nas décadas de 1950 e 1960, era difícil os meios intelectuais aceitarem outra teoria, além da marxista, dominante na USP, como a mais adequada para se entender o País. “Faoro foi o percursor do uso da abordagem weberiana para entender o Brasil, que se tornou cada vez mais importante, na medida em que as limitações das explicações marxistas foram se tornando óbvias”, escreve Simon Schwartzman, num dos três textos da fortuna crítica da nova edição.

Ricupero acredita que, da mesma forma que ajudou a iluminar os desvãos do autoritarismo, Faoro contribui para a compreensão do desastre em curso. “A ascensão de Bolsonaro está diretamente ligada aos pequenos interesses do estamento burocrático”, afirma. “Esse processo reforça outras das ideias de Faoro, que é a de que o discurso liberal pode ser entendido como um subterfúgio para que se as coisas sejam mantidas da forma como estão.” Ricupero e Gabriela procuram ainda desfazer alguns equívocos relativos ao viés liberal que se procurou imputar à obra.

Os ecos de Faoro no presente também se fazem ouvir na fortuna crítica pela voz de Marcelo Jasmin, professor da PUC-Rio, que define o governo atual como uma “aliança entre o estamento militar, a economia liberal e os fanáticos da nova direita emergente das redes sociais”. Esse grupo se mostra arraigado ao que “há de mais patrimonialista na história da república brasileira, ao proteger, acobertar e prometer dar guarida aos desmandos dos que se imaginam serem os novos donos do poder”.

Faoro em 1988, tomando posse como presidente da OAB (Foto: Arquivo/Agência O Globo)

Nascido quase cem anos atrás, em uma família de agricultores italianos, no Rio Grande do Sul, Faoro era, desde criança, devotado à leitura . O advogado André Faoro, um de seus três filhos, conta que esse percurso intelectual autêntico e improvável está registrado nos diários do pai, que estão sendo analisados por um pesquisador. Os cadernos não lhe serviam para descrições do cotidiano, e sim para a análise de livros e reflexões sobre o País.

“Meu pai, quando não estava trabalhando, estava lendo”, recorda o filho. Já nos almoços familiares, o escritor foi sempre afeito à graça, sobretudo aquela lapidada pela ironia. E, aos domingos, sugeria invariavelmente que todos tomassem um copo de vinho. Há cerca de dez anos, André e o irmão Antonio levaram à comuna de Arsiè, província de Belluno, no Veneto, um exemplar de Os Donos do Poder. Na cidade do pai, encontraram outros Faoro e descobriram, sobretudo, as raízes da história imigratória que acabou por fazer com que, no Brasil, nascesse uma criança chamada Raymundo Faoro. E todos assumiram a cidadania italiana.

Publicado na edição nº 1176 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2021.
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