Próteses nas nossas mamas

A jovem senhora quer ficar bonita, o médico e a empresa da prótese ganham dinheiro com isso. Aí dá problema e quem paga a conta é você.

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Nossa história começa lá atrás, quando a jovem senhora procura um cirurgião plástico. Busca, primeiramente, o que os padrões vigentes em certos ambientes consideram beleza, ou seja, seios fartos e firmes, glúteos redondos e empinadinhos, corpo esguio sem gordurinhas. Com isso, acredita, sua autoestima, ou seja, a necessidade que tem de ser apreciada pelos outros (no caso, os homens), vai aumentar e ela vai viver melhor. Tem dinheiro para pagar o embelezamento, claro, e o faz sem pestanejar.

O doutor, muito justamente preocupado com seus ganhos, propõe aumentar aqui, esticar ali, repuxar acolá etc. E, junto a seu fornecedor, recebe as próteses de silicone, coloca-as na jovem senhora e todos ficam satisfeitos.

Eis que, de repente, aquelas próteses, que aumentaram a taxa de felicidade dos três – dela, do doutor e do fabricante – fracassam. Eram de má qualidade, feitas para outra finalidade e simplesmente desmancharam-se no corpo.

Quem é o responsável? Ela, que as recebeu em seu corpo voluntariamente? O médico, que as implantou sem avaliar sua qualidade? A pomposa e arrogante Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que não fiscaliza minimamente esse lixo para fins médicos que entra no Brasil, mas gosta de tratar a todos nós como imbecis, que precisamos ser protegidos de nós mesmos?

Não, amigo, o culpado é você, cidadão/eleitor/contribuinte que vai pagar a conta desse conjunto de irresponsabilidades. Vai pagar, porque o governo decidiu repassar as despesas das recuperações para os planos de saúde, que já custam a você os olhos da cara. As empresas dos planos de saúde, por sua vez, não vão titubear: perceberam imediatamente que está sobrando para elas, “sartaram de banda” e já avisaram que vão incluir no SEU boleto a conta desses todos aí de cima.

Nada contra, se aquela prótese alimentadora de vaidades e faturamentos ao se romper ameaça a vida da freguesa. Trata-se de vida e o SUS, bem ou mal (mais mal do que bem), tem que atender a essa gente. Da mesma maneira como tem que pagar prótese em mulheres obrigadas pelo câncer à mutilação de sua anatomia. E deveria parar por aí. Até porque é crônica (e dolorosa) sua incapacidade de atender adequadamente à massa de despossuídos que depende vitalmente de seus serviços. Mas, mais dinheiro? De onde? Ora, irmão, de uma nova CPMF ou algo com nome parecido. Isto é, mais uma mão do governo no seu bolso, como se já não bastassem todas as que ele já mantém lá.


Resumindo: uma quer ficar bonita; um outro ganha dinheiro com isso; um terceiro fabrica e vende seu lixo como quer; vem mais um que o deixa vender à vontade esse lixo no Brasil; o governo aproveita para mostrar trabalho; bla-blá-blá para cá e para lá.

A conta? É sua.

E não deixe de agradecer o privilégio de viver nesse país onde a preocupação social abunda (sem trocadilho) e quem mete os peitos (também sem trocadilho) sempre se dá bem!

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