Projeto quer formar idosos para que reconheçam e se defendam das fake news

O EducaMídia 60+ oferece conteúdos gratuitos para os idosos navegarem pelas redes de maneira segura e combaterem a desinformação

Créditos: Reprodução

Créditos: Reprodução

Educação,Sociedade,Tecnologia

Em 2016, o dicionário britânico Oxford elegeu a ‘pós-verdade‘ como a palavra do ano. O adjetivo explica porque os fatos objetivos exerciam cada vez menos influência sobre a opinião pública, vencido pelas emoções e crenças pessoais.

O fenômeno ficou marcado sobretudo na política. Naquele ano, Donald Trump chegava à presidência dos Estados Unidos às custas de uma campanha marcada por notícias falsas, desinformação e sensacionalismo acerca de sua principal rival eleitoral, a democrata Hillary Clinton. O que se viu foi a popularização das fake news e a demonstração de que era possível financiar uma rede de empresas para disseminá-las.

Para Patrícia Blanco, a retomada do percurso histórico é fundamental para situar a necessidade constante dos enfrentamentos à cultura da desinformação. “Identificamos esse problema lá em 2016, mas o fato é que ele persiste, se revelou forte nas eleições de 2018, e se torna ainda mais desafiador para 2022 no atual cenário político que vivemos”, reconhece a especialista, presidente do Instituto Palavra Aberta, instituição voltada para a promoção da liberdade de expressão e informação. Para ela, se de um lado há um grande volume de informações em circulação, devido às redes e à pulverização das autorias, de outro, há poucos critérios ao consumi-las.

“Há uma carência no entendimento de como analisar criticamente o grande volume de informações que chega até nós. Como separar fato de opinião, como identificar um conteúdo publicitário dentro de uma rede social, como analisar criticamente uma informação que chega por um veículo formal de comunicação, por um blog ou demais canais. Foi nesse contexto que começamos a pensar sobre a importância de formatar um programa de educação midiática informacional”, conta a especialista, ao anunciar o EducaMídia 60+, iniciativa voltada para promover a formação midiática em pessoas acima de 60 anos.

O projeto

A iniciativa disponibiliza uma coleção de materiais gratuitos como guias, cartilhas digitais e outros recursos pedagógicos que podem auxiliar, além dos idosos, profissionais que estejam interessados em organizar oficinas e cursos de educação midiática para esse público.

Os conteúdos são divididos são divididos em cinco módulos temáticos, que podem ser utilizados em sequência ou de forma independente. O material deve estar inteiramente disponível até o final de outubro.

O módulo 1, ‘Introdução ao mundo conectado’,  apresenta um guia básico de navegação pela internet, com dicas práticas de como buscar informações e avaliar os resultados encontrados. No módulo 2, ‘O Universo da informação’, o participante será auxiliado a identificar os diversos tipos de conteúdo disponíveis nas redes ou recebidos por amigos e familiares. Este módulo auxilia o público a compreender qual é o propósito de cada conteúdo, a partir de uma leitura crítica e reflexiva.

No módulo 3, ‘Muito além das Fake News’, o programa conta a história da desinformação, mostra os perigos reais que uma informação falsa pode representar para a sociedade e apresenta uma série de dicas simples de como evitar cair em armadilhas na internet. Também provoca a reflexão sobre a responsabilidade de cada indivíduo nas redes sociais. No módulo 4, ‘Quem sou eu nas redes sociais’, a iniciativa apresenta as principais redes sociais e convida o leitor a refletir sobre como usá-las de maneira mais segura e fortalecedora, a fim de minimizar os riscos e aproveitar os benefícios das redes. Já no módulo 5, ‘Golpes’, o programa traz orientações sobre como pessoas acima de 60 anos podem se proteger de crimes financeiros na internet e orienta sobre os canais mais adequados para denunciar golpes.

 

 

Para Patricia Blanco, a sociedade não pode desconsiderar a presença dos idosos no ambiente digital. “O percentual de pessoas com mais de 60 anos no País com acesso à rede mundial de computadores cresceu de 68% para 97%, nos últimos quatro anos. Essa nova era de conexão tem promovido debates e iniciativas para auxiliar esse público. E é nesse contexto que o EducaMídia60+ pretende atuar: como uma prestação de serviço à sociedade”, afirma.

“Estamos diante de uma população que, em sua maioria, viveu a escassez da informação, centralizada em poucos veículos de comunicação, como as emissoras de rádio. Então essa informação já chegava fechada, checada, pronta para ser consumida. Hoje, com a pulverização das autorias, onde todo mundo produz para todo mundo, é fundamental que esclareçamos a eles os formatos, são memes, vídeos, áudios, eles precisam entender dessa diversidade para então serem capazes de perceber que nem tudo foi checado, que nem tudo tem lastro com a verdade”, pondera.

Para ela, o desafio é sempre equilibrar o conhecimento adquirido com a cultura já trazida por esse grupo. “A gente não pode partir do pressuposto de que os idosos são ignorantes, porque eles não são. Esse público tem uma história de vida, toda uma formação de cultura que eles trazem com eles, então a gente não pode jogar fora e dizer que não serve mais. Precisamos torná-los protagonistas desse processo de mudança tão necessário”, atesta.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Repórter do site CartaEducação

Compartilhar postagem