Sociedade

Análise

Precisamos decifrar o caos político (ou seremos devorados)

por Rosana Pinheiro-Machado publicado 10/03/2017 17h08
As peças do sistema estão soltas. Trata-se de um momento revolucionário, em que podemos pender tanto para a revolução quanto para o autoritarismo
Rovena Rosa/Agência Brasil
Manifestação a favor do impeachment de Dilma Rousseff em São Paulo

A reconstrução democrática pode levar anos. Mas não há outro caminho senão pensar longe

No cenário brasileiro atual, há muito a Temer.

Mas minha avaliação pessimista sobre o Brasil não é de hoje. Ainda que nunca tenhamos nos livrado do passado sangrento que funda e atualiza a nação, a morte de Claudia Silva Ferreira, em 2014,  e a justiça feita pelas próprias mãos que amarrava um adolescente a um poste, apenas para dar alguns exemplos, sinalizavam a virada conservadora da sociedade brasileira: o fascismo, as saída do armário, a abertura dos esgotos ou da caixa de pandora.

Muitas expressões para explicar uma parcela da população que, no pós-junho de 2013, pedia uma justiça muito peculiar: a limpeza ética dos andares de cima e a limpeza étnica dos andares de baixo.

A democracia e as instituições brasileiras colapsaram.

Mas temos um cenário bastante diferente do Brexit no Reino Unido ou da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Lá, mesmo diante do ódio social, ainda resistem algumas instituições e valores democráticos. Há mecanismos institucionais que persistem e são fundamentais em momentos de crises.

Se o mundo observa a ascensão da extrema-direita, é preciso lembrar que países em desenvolvimento são muito mais afetados por este processo. Países imperialistas praticaram violência mais fora do que dentro do território nacional. Aqui só nos sobra a barbárie.

Nosso imperialismo sempre foi para dentro, antropofágico. Nós devoramos a nós mesmos. Desumanizamos a nossa própria classe trabalhadora. A ideologia dominante não simpatiza com Carlos Braga, o camelô que morreu com um tiro na cabeça a céu aberto e cujo crime passou impune. “Menos um vagabundo” – comentava um leitor qualquer.

Desde o dia em que Claudia Ferreira foi arrastada pelas ruas ou que o camelô Carlos Braga morreu com um tiro na cabeça, as coisas só pioraram. Houve quem comemorou a morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia. Houve quem justificou a morte de uma criança após ser violentada por guardas de uma cadeia de fast-food. Há, ainda, aqueles que torturam e assassinam gays e transexuais.

O colapso da democracia é mais do que um impeachment ilegítimo: é um colapso de valores. E é difícil apontar quem ruiu primeiro. O fato é que o decolar democrático da nação emergente mostrou-se ser um voo de galinha. Após anos de escravidão e regimes ditatoriais, alçamos um voo tímido e nos esfacelamos no chão. Sobrou apenas o velho e bom autoritarismo:

“Cansamos de brincar de democracia”, diriam os homens velhos engravatados que reivindicam suas capitanias hereditárias novamente. “Tem muito preto e muito índio querendo as minhas terras”, continuavam eles. “Vamos perseguir – nas universidades, nas CPIs, e nas ruas - essa gente abusada que ousa reivindicar uma merreca de nossos privilégios”.

A justiça, que raramente funcionou nos andares de baixo, agora fica claro que não funciona nos andares de cima também. Não apenas passamos por um golpe dos magistrados, como isso se torna cada vez pior com os novos nomes que ocupam os cargos mais altos do judiciário. Além do fato de que a justiça que eu aplico ao Lula não é justiça que eu aplico ao meu aliado.

E por falar em presidente, lembremos de Jair Bolsonaro. Temo não apenas os 10% que o apoiam, mas, principalmente, as lições que são passadas com impunidade de um homem que diz que algumas mulheres merecem (ou não) ser estupradas e que faz apologia a um torturador.

As mesmas pessoas que defendem a pena de morte como lição ao crime, não defendem a punição de outros crimes. Justiça é apenas uma questão de ponto de vista.

Como já escrevi em meu texto de final de ano, a questão mais crítica hoje não é simplesmente o desmonte dos direitos sociais, mas algo muito mais sério, profundo e perturbador. É sobre os parâmetros de justiça que estamos falando.

Afinal, há uma coisa em lição comum que fica de todos os fatos que listei nesta coluna até agora: vale tudo – ou não valemos nada – para quem grita mais alto.

As peças do sistema estão soltas e, como eu escrevia no final do ano, esse é o momento revolucionário sobre o qual Hannah Arendt alertava: é quando podemos pender para revolução ou autoritarismo. Estamos em pelo gozo da segunda opção – e o restante deste texto é um apelo pela primeira.

Minha avaliação é de que o cenário do país tender a piorar de forma multifacetada: da microviolência interpessoal ao macro desemparo institucional e legal. A reconstrução democrática pode levar anos. Mas não há outro caminho do que pensar longe.

A história já nos ensinou que colapsos de regimes tendem a ser preenchidos com autoritarismo. É nesse contexto que os desafios que se impõem aos movimentos sociais de esquerda tornam-se ainda mais complexos.

Como dialogar com quem ainda é dialogável?

Mas, mais do que isso, como não reproduzir mimeticamente toda a violência e a estupidez que derivam da polarização política? Como escapar da síndrome de perseguição que faz com que a luta contra o inimigo poderoso torne-se mais importante do que a defesa dos trabalhadores?

Ou mesmo como combater em nós o ímpeto de repetir mil vezes a importância dos direitos dos trabalhadores enquanto nos esquecemos do próprio trabalhador?

Em primeiro lugar, precisamos superar tanto o imediatismo e o binarismo das notícias negativas – e muitas vezes falsas - que nos chegam diariamente, quanto a guerra psicológica das redes sociais. Esse é um processo a médio e curto prazo.

Em segundo lugar, a esquerda precisa se periferizar e, igualmente, ter um olhar mais atento e generoso às camadas médias. Também é preciso repreender a falar para fora de nossos pares e isso significa menos repetir exaustivamente mesas redondas sobre a reorganização da esquerda (geralmente repetitivas, improdutivas e com as mesmas figuras) e mais fazer o exercício de olhar para a caixa do supermercado e se perguntar: o que eu sei sobre a vontade política dessa mulher? Quando demo-nos conta que não sabemos nada, temos aí um bom começo.

Em terceiro lugar, urge a articulação novas frentes populares. O sucesso desse empreendimento depende, em grande medida, da capacidade de dialogar e aprender com os movimentos que inovam no Brasil: o feminismo e o movimento autônomo secundarista, por exemplo.

É evidente que precisamos pensar em 2018, mas me refiro a um movimento mais amplo que consiga reinventar a esquerda se beneficiando da potência dos novos movimentos sociais.

Em quarto lugar, as formas de resistências precisam ser repensadas. A base de protesto a cada dia tem se mostrado ineficiente. “Mais um protesto fechando a rua” – me dizia a diarista cansada que voltava para a casa no ônibus lotado. O radicalismo e a desobediência civil de fechar as ruas e queimar pneus, para muitos, tornaram-se “mais do mesmo dos mesmos de sempre”. Ou admitimos isso, ou seremos devorados por parte daqueles que também aprenderam a encher a Avenida Paulista.

Dói pensarmos que não fomos capazes de nos mobilizar da maneira como gostaríamos contra o “fim do mundo” (a PEC 251/55), talvez por estarmos cansados, talvez por nossas próprias questões internas (sabemos bem que autonomistas e partidários nem sempre marcham juntos).

O fato é que aquele era o momento de ocupar tudo. Mas não ocupamos.

Nesses últimos meses, muitos foram para as ruas, muitos foram violados de seu direito de protestar, mas também é verdade que as ruas refletiram uma de nossas fragilidades: as amizades ainda estavam sendo desfeitas entre os que falaram em golpe com aspas ou sem aspas, mesmo que ambos concordassem que foi golpe. E aí voltamos ao terceiro ponto.

De todos os lados fala-se que se precisa mais escuta. Virou um clichê. Mas um clichê genuíno: escuta para dentro e para fora, pois a nossa luta dos próximos anos não é apenas de retomar a legitimidade do processo eleitoral: é para reconstruir os valores democráticos e os sentidos da justiça. Para tanto, há um duplo movimento a ser traçado.

De um lado, que consigamos renovar nossa imagem, linguagem e escopo de atuação. De outro, que aprendamos – com os movimentos de vanguarda - a reinventar o radicalismo e sonhar o futuro.

Esse é um duplo processo que demanda articulação, tempo e vigilância permanente para não sermos, nem de raspão, engolidos pela lógica violenta e injusta que tanto combatemos.