Sociedade
Policiais de SP amarram mãos e pés de homem negro: ‘Cena de tortura’
Contido, o homem, acusado de furtar um mercado e preso com apenas duas barras de chocolate, foi carregado como se estivesse em um pau de arara; de acordo com a PM, os agentes foram afastados
Quatro policiais militares de São Paulo amarraram mãos e pés de um homem negro, de 32 anos, suspeito de furtar produtos de um mercado da Vila Mariana, na Zona Sul da capital. Mesmo contido, os agentes ainda arrastaram o homem no chão por vários metros. Depois, ele é carregado em uma posição típica de tortura de escravos popularmente chamada de pau de arara.
O caso ocorreu no domingo 4, mas passou a circular nas redes sociais nesta terça-feira 6, após publicação indignada feita pelo Padre Júlio Lancellotti. A cena foi registrada em uma UPA. O homem, após ser torturado pelos policiais, é jogado na traseira de uma viatura, ainda amarrado.
As imagens que circulam nas redes sociais mostram que o homem grita de dor durante as agressões e afirma estar colaborando com os policiais. “Por favor, eu estou colaborando, calma”, grita o homem após ser arrastado e jogado com força na traseira do veículo.
O homem que filma a cena também reclama da desproporcionalidade da ação e é então afastado por um dos policiais, que pede para que ele se identifique com os documentos, em tom ameaçador. “Você vai na outra viatura”, diz uma agente ao responsável por gravar a cena de tortura.
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De acordo com a Polícia Militar de SP, os policiais que participaram da ação já foram afastados e um inquérito para apurar a conduta foi aberto. Também segundo a PM, o homem torturado estava com duas barras de chocolate supostamente furtadas do mercado. A organização social que administra a UPA da qual ele foi levado não se posicionou, assim como a Secretaria da Segurança Pública (SSP) do governo de Tarcísio de Freitas.
Ao jornal Folha de S. Paulo, o ouvidor da PM, Claudinho Silva, pediu uma ‘apuração rigorosa’ por parte da Corregedoria. Ele também classificou a ação filmada como tortura.
“A gente não pode naturalizar esse tipo de tratamento. Aquilo é tortura, não é abordagem policial”, disse Silva ao jornal.
Júlio Lancellotti, pároco da paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, responsável pela repercussão das imagens, também questionou os elementos escravagistas da cena.
“A pobrefobia institucional. A escravidão foi abolida?”, questionou o religioso nas suas redes sociais.
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