Paulo Mendes da Rocha, o arquiteto que ousou colocar os desejos do homem à frente das contingências do capital

O mestre brasileiro do concreto brasileiro tinha posições independentes e firmes, sem traços de vaidade

PAULO MENDES DA ROCHA (1928-2021). (FOTO: Karime Xavier)

PAULO MENDES DA ROCHA (1928-2021). (FOTO: Karime Xavier)

Cultura,Sociedade

Na Casa Butantã, nas imediações da Universidade de São Paulo, residência que o arquiteto Paulo Mendes da Rocha projetou em 1964 para viver com a família, dezenas de crianças, convidadas do aniversário de sua neta, espalhavam-se pela sala, pelos banheiros, pelas marquises, pelas calçadas e pela rua – a casa não tem cercas nem muros, e o quintal elevado, como se estivesse escorrendo, “entra” pela garagem e sobe pelas escadas juntamente com a iluminação natural obtida por um recorte longitudinal de janelas de vidro e aço. Na sala, observando, divertido, a ruidosa invasão, Mendes da Rocha tomava uma cerveja num copo de plástico vermelho, parecendo ele mesmo um dos curiosos visitantes daquele santuário modernista.

A cena descrita acima, real, ilustra palidamente a capacidade de desapego daquele que, àquela altura, há quatro anos, era de longe o mais premiado arquiteto brasileiro no mundo. A sua Casa Butantã,­ totem de um conceito arquitetônico (comparada frequentemente à Villa Savoye, de Le Corbusier, pela decisão de contrapor um prisma brutalista à conformação geográfica de um terreno em declive), podia fascinar tanto os profissionais da arquitetura quanto algum visitante sortudo. Mas o que parecia chamar mais a atenção do seu autor era a súbita adequação do concreto ao ritmo de renovação da vida cotidiana, a Casa Butantã se transformando em Casa­ ­Tomada. “A arquitetura é um pretexto para que as coisas se desencadeiem e, eventualmente, se transformem através do próprio uso. Que é o que acontece na vida da gente”, disse o arquiteto em entrevista a CartaCapital, em 2018.

Em sentido horário, a piscina no alto do Sesc 24 de Maio, o prédio da Pinacoteca e o Museu Brasileiro de Escultura são marcos da arquitetura do capixaba em São Paulo. (FOTO: Matheus José Maria/SESCSP e Redes sociais)

Capixaba de Vitória, Paulo Archias Mendes da Rocha morreu na madrugada­ do domingo 23, aos 92 anos, de câncer no pulmão, e seu corpo foi cremado no Cemitério Vale dos Pinheirais, em Mauá (Grande São Paulo), na segunda-feira 24. Mendes da Rocha mudou-se do Espírito Santo para São Paulo ainda criança, mas manteve sempre ligação com a terra de origem, para a qual projetou o ambicioso espaço cultural Cais das Artes, visão revitalizadora de um aterro nas docas da capital, onde ele costumava brincar quando menino.

Em São Paulo, formou-se arquiteto pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo­ da Universidade Presbiteriana ­Mackenzie, em 1952, e fez sua iniciação profissional com outro personagem lendário da arquitetura, João Batista Vilanova Artigas (1915-1984), de quem se tornou assistente logo após ganhar o concurso com o projeto do Club Athletico­ Paulistano, em 1957. Em breve se tornaria parte do grupo que ficou conhecido como Escola Paulista, em tese um contraponto à hegemonia modernista dos arquitetos cariocas, e foi assim que passou a lecionar na USP, em 1961. A arquitetura que seu grupo preconizou foi definida como “crua, limpa, clara e socialmente responsável”, além de influenciada por aproximações estéticas com a antinostalgia do chamado “brutalismo europeu” dos anos 1950.

Mudou-se de Vitória para São Paulo ainda criança, mas manteve a ligação

Em 1969, Mendes da Rocha foi cassado pelo AI-5 e aposentado compulsoriamente pela ditadura, juntamente com seu mestre Artigas e outra dezena de professores. No mesmo ano venceu o concurso para a construção do Pavilhão do Brasil para a Exposição de Osaka, no Japão, em equipe com Jorge Caron, Julio Katinsky e Ruy Ohtake. Mendes da Rocha só voltaria a lecionar na Faculdade de Arquitetura da USP em 1980, após mobilização dos alunos da FAU, os quais pressionaram a universidade, relutante, a trazer Artigas, Mendes da Rocha­ e Jon Maitrejean­ de volta. “Eu fazia parte como muitos filósofos, professores na universidade, colegas. Por essa razão ou aquela razão. Eram obstáculos à implantação de um regime fascista, de fundamentos repressivos”, afirmou, sobre a cassação.

O arquiteto Mendes da Rocha recebeu o prêmio Mies van der Rohe duas vezes: em 1999 (pelo projeto do Museu Brasileiro de Escultura) e em 2000 (pela Pinacoteca de São Paulo). Em 2006, tornou-se o segundo arquiteto brasileiro – depois de Oscar Niemeyer, em 1988 – a receber o prestigioso prêmio Pritzker, concedido pela The Hyatt Foundation. “Você sabe, eu não sei falar muito da minha obra, porque tenho a impressão de que a questão é de interpretação do desejo das pessoas, não do arquiteto, compreende? Você se volta para tentar satisfazer o desejo das pessoas. O que mostra que a questão não é de caráter estilístico.”

Sua trajetória não ficou isenta da marca da polêmica, muito ao contrário: a marquise escultural que projetou para a Praça do Patriarca, no Centro de São Paulo, foi acusada de obstruir a visão da Igreja de Santo Antonio, do século XVI, e acabou alvo de denúncia do Ministério Público Estadual por atentar contra o patrimônio histórico. Ele tinha posições firmes e independentes. Defendeu a derrubada do Minhocão e foi contra a reforma do Anhangabaú.

Para Goiânia, Mendes da Rocha projetou o Estádio Serra Dourada. (FOTO: Redes sociais)

A vaidade andava em sentido oposto ao êxito, no caso de Mendes da Rocha. Seu modesto escritório de mais de 30 anos na Praça da República, que não trabalhava com uma equipe fixa de arquitetos, acostumou-se a recolher comendas. Em 2016, levou o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, pelo conjunto da obra. Em 2017, recebeu a medalha de ouro do Royal Institute of British Architects. Em 2006, tinha recebido o Pritzker, o mais importante prêmio da arquitetura mundial. Além de obras icônicas na cidade de São Paulo (como o Museu Brasileiro de Escultura, a Pinacoteca do Estado, o Centro Cultural Fiesp, o ginásio do Club Athletico Paulistano) e de outros estados (como o Estádio Serra Dourada, em Goiânia), fechou sua trajetória de interferência crucial na metrópole com o Sesc 24 de Maio, reapropriando-se do antigo prédio da loja de departamentos Mesbla, projeto socializante que o arquiteto definiu como um “navio-tarefa”.

No ano passado, voltou a causar alguma celeuma com a decisão de doar todo seu acervo para a Casa da Arquitectura de Matosinhos, em Portugal. A própria Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo demonstrou contrariedade com o anúncio, argumentando que o “vínculo com a história dessa instituição de ensino” daria maior significado à guarda. Outros profissionais, como o arquiteto José ­Lira, viram no ato um símbolo da “erosão cultural do País”. O historiador italiano ­Daniele ­Pisani, especialista na obra de Mendes da Rocha, disse o seguinte: “O Paulo é um arquiteto brasileiro, mas sua obra pertence ao mundo. Estamos aqui para frutificar, ele sempre fala. E, desse ponto de vista, o lugar da sede do acervo tanto faz”. O próprio arquiteto, inquirido por CartaCapital sobre se sua decisão teria relação com a escalada autoritária no País, respondeu sucintamente: “Com certeza, não. Trata-se de uma questão em pauta há alguns anos”.

Tinha posições independentes e firmes, sem traços de vaidade

Mendes da Rocha foi professor da FAU-USP até 1998, quando se aposentou. Suas aulas eram verdadeiros espetáculos disputados pelos alunos, porque o arquiteto, com seu estilo socrático, não cedia a tentações tecnocráticas, era mais um pensador. “Ele foi um intelectual para quem a arquitetura que criava era para ser vivida, não somente para ser vista. Assim, projetou edificações que, além da sua funcionalidade, primavam pelo conforto, segurança e pertencimento”, disse Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. “Preservar esse patrimônio é o mais nobre que podemos fazer para honrá-lo.”

Seu trabalho foi um manifesto da condição livre do homem e a representação de seu desconforto com a visão predatória do consumo, da desumanização das metrópoles. Sempre tratou a realização arquitetônica como expressão do pensamento, da liberdade. “Não existe isso de ‘a sua arquitetura’. Ou melhor, ela só existe, a arquitetura, porque não é ‘sua’. Ela existia antes, é um desejo humano.” O arquiteto, ele prossegue, se se dispuser a ir atrás desse desejo do gênero humano, buscará a satisfação dos desejos do outro. “Não é você que faz para você”, afirmou. “Portanto, nós estamos aqui para continuar. Não estamos para sumir, desaparecer”, destacou Mendes da Rocha.

Publicado na edição nº 1159 de CartaCapital, em 27 de maio de 2021.
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Editor de Cultura de CartaCapital.

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