Galo: ‘Existe uma consciência de classe. Não estamos é trabalhando o ódio de classe’

Empreendedorismo? Paulo Galo, líder dos Entregadores Antifascistas, não se ilude com o nome pomposo dado aos autônomos

Cada um por si. “O medo 
do desemprego desmobiliza”. (FOTO:  Bruno Santos/Folhapress)

Cada um por si. “O medo do desemprego desmobiliza”. (FOTO: Bruno Santos/Folhapress)

Política,Sociedade

Aos 32 anos, Paulo “Galo” Lima ganhou notoriedade por denunciar a precarização do trabalho e a forma como os aplicativos de entrega exploravam os motoboys no Brasil. Ao promover o debate e denunciar os abusos praticados por essas empresas, o líder do “Entregadores Antifascistas” acabou chamando atenção para novas formas de trabalho que têm passado ao largo das políticas públicas.

A CartaCapital, Galo conta como a rotina mudou no último ano e detalha como está a vida dos empreendedores que “recebem o chicote para dar no próprio lombo”.

CartaCapital: Além da exposição ao vírus, o que mais mudou na dinâmica de trabalho dos entregadores nesses últimos meses?

Paulo “Galo” Lima: Na verdade, houve uma piora na precarização. Chegaram muitos trabalhadores no mercado informal, sobretudo para operar como entregadores de aplicativo, até porque aumentou a demanda de entregas. Não faz três dias vi um ­motoboy morrer na minha frente, atropelado por uma BMW blindada, cuja motorista estaria bêbada. Ela pagou fiança de 22 mil reais e foi para casa. Antes, tinha manifestação, tinha revolta. Agora, nada. A carteira de trabalho virou raridade. Com o desemprego nas alturas, o trabalhador tem medo de perder sua fonte de sustento e se submete a tudo. O mercado informal tornou-se uma selva, um comendo o outro. Todo mundo quer segurar o seu.

Acho que não estamos é trabalhando o ‘ódio de classe’. Ele está disperso, e é preciso direcioná-lo para obter reais conquistas para a categoria

CC: Faz sentido incluir os motoristas ou entregadores de aplicativos na catego­ria de “empreendedores”?

PGL: Quando você coloca os trabalhadores por conta própria como “empreendedores”, estará dando um chicote para o trabalhador bater nas próprias costas. Para se ter uma noção, aumentou o número de entregadores mortos na pandemia por acidente. O aplicativo funciona como videogame. O entregador acha que vai correr e conseguir render mais, passar pelas etapas do aplicativo, mas é tudo ilusão. Na real, ele acaba trabalhando mais, se expondo mais aos riscos e se acidentando. Ainda tem o papel da mídia, que romantiza tudo, até o trabalho do cara que faz entrega de cadeira de rodas. Tudo isso contribui para amansar o trabalhador.

CC: Como liderança de um movimento crescente no País, que representa cada vez mais trabalhadores, como você avalia a consciência de classe de seus colegas?

PGL: Eu estou agora numa padaria. Tem chapeiro, tem atendente e todo mundo é consciente do que é. Todo mundo sabe que é pobre. Alguns podem até ter essa ilusão de “empreendedor”, mas têm aluguel para pagar, têm conta vencendo, então existe essa “consciência de classe”. Acho que não estamos é trabalhando o “ódio de classe”. Ele está disperso, e é preciso direcioná-lo para obter reais conquistas para a categoria. A classe média, essa sim, precisa de “consciência de classe”. Tem muita gente andando de carrão, cheio de dívida e comprando o lado do empresário.

CC: Em 2020 você se aproximou de alguns partidos, chegou a ser sondado por eles, mas de fato o que vemos é ainda um distanciamento de figuras da “esquerda” da realidade das periferias. Como você avalia isso?

PGL: Um dos erros da esquerda é acreditar que a periferia, a favela não estão na onda do “Fora, Bolsonaro” porque seriam a favor dele. A realidade é que tanto os entregadores, quanto alguns trabalhadores pensam assim: a polícia vai continuar entrando na favela, atirando, matando, por exemplo. Teve um monte de político de esquerda que nunca apresentou uma proposta decente para os entregadores. Nem procuraram para discutir. Então todo mundo sabe que todo político precisa agradar os dois lados: empresários e trabalhadores. O que eu percebi é que tem muito mais gente que esta mais preocupado com os empresários do que em construir algo com trabalhadores. Muitas vezes não nos sentimos inseridos no projeto de poder deles. Então o povo acaba desconectado. É ovo que tem para hoje? É isso que teremos.

CC: E Você tem planos para 2022? Foi procurado?

PGL: Eles tem que vir atrás de nós. Temos é que ter candidato favelado, mulher preta, tem que ter gente nossa lá. Esse povo não parece com nós, não suinga com a gente, então cansei de dar atenção pra eles.

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Repórter da revista CartaCapital

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