Os serviçais da racionalidade econômica e o fim do sistema de proteção social

Eles propõem o retorno aos padrões primitivos nas relações entre as forças do capital e as debilidades do trabalho

Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas

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Sociedade

A greve dos entregadores de comida, IFood e assemelhados voltou meus olhares para sexta-feira, 15 de novembro de 2019. Naquele dia, a global Patrícia Poeta comandou o Encontro com Fátima Bernardes e declamou versos de louvação aos empreendedores (!) que se dedicam aos “bicos temporários”, a legião de vendedores a domicílio, entregadores de aplicativos e vendedores ambulantes.

Patrícia comemorou o destemor de um casal que ficou desempregado e resolveu fazer entregas usando bicicleta. “Isso que é bonito neles, porque os dois poderiam… A gente está falando de desemprego, dos números, e tem falado toda hora… Os dois poderiam estar em casa lamentando que estão desempregados”. Às vezes, a pessoa tem muito disso. Quando alguma coisa está acontecendo de ruim com ela, ela tem essa coisa de se vitimizar e não correr atrás, não focar no objetivo… “Ela (a pessoa) acha uma justificativa que ela fala para ela própria, às vezes baseada em uma mentirinha que ela conta pra ela mesma, ou em uma verdade que ela conta pra ela mesma, e ela aceita aquilo e não corre atrás”.

A citação é propositadamente longa para demonstrar a pertinência de um velho adágio popular que afirma “Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas”.

O casal liberado do emprego entregou seu destino aos grilhões da incerteza e às cadeias da insegurança, no exercício duro e quotidiano das pedaladas do sub empreendedorismo. Quase sempre transtornados por suas culpas, esses perdedores acomodam-se às angústias da exclusão, da desigualdade e do fracasso.

Em esgar de çabedoria econômica, um alto funcionário do Ministério da Economia justificou o afã de Paulo Guedes em reduzir os encargos trabalhistas e, portanto, o custo do trabalho, compensando a redução da receita com o imposto sobre os desempregados. O sabichão dos mercados disparou: “Assim como qualquer mercadoria, o preço do trabalho cai, a demanda de trabalhadores aumenta.” Imagino que o salário dos trabalhadores deva ser equiparado ao preço das bananas. Se o preço cai, a turma core para comprar mais bananas.

A essa altura do campeonato, sinto-me obrigado a recorrer a Karl Marx: “Quando se trata de seu trabalhador, todo capitalista sabe que não se confronta com ele como produtor frente ao consumidor, e deseja limitar ao máximo seu consumo, i.e., seu salário. Naturalmente, ele deseja que os trabalhadores dos outros capitalistas sejam os maiores consumidores possíveis de sua mercadoria. Todavia, a relação de cada capitalista com os seus trabalhadores é de fato a relação de capital e trabalho, a relação essencial. No entanto, provém precisamente daí a ilusão – verdadeira para o capitalista individual – de que, excetuando-se seus trabalhadores, todo o resto da classe trabalhadora se defronta com ele, não como trabalhadores, mas como consumidores e trocadores – gastadores de dinheiro…”

A pretexto de enfrentar o corporativismo e a resistência dos “direitos adquiridos”, os serviçais da “racionalidade econômica” propõem o retorno aos padrões primitivos nas relações entre as forças do capital e as debilidades do trabalho. Advogam o encolhimento do sistema de proteção social criado para impedir a desgraça dos mais fracos, o sofrimento do homem comum atormentado pelas ameaças da precarização e do desamparo na saúde e na doença.

Até meados dos anos 70 do século passado as economias capitalistas prosperaram em um ambiente de ganhos de produtividade, sistemas de crédito direcionados para o investimento, aumento dos salários reais, redução das desigualdades e ampliação dos direitos sociais.

Esse circuito virtuoso era ativado primordialmente pela confiança dos empresários, perigosos marxistas, que demandavam crédito para financiar os gastos de operação corrente e de investimento de seus empreendimentos. Os senhores dos negócios, estavam, então, confiantes nos efeitos recíprocos da expansão da renda dos trabalhadores, dos lucros corporativos e das pequenas e médias empresas espalhadas no comércio e na indústria. O circuito da renda e do emprego se desenvolvia, então, nos espaços nacionais, impulsionando o adensamento das relações entre a manufatura, os serviços e a agricultura.

Nos últimos 40 anos, as práticas financeiras e as inovações tecnológicas que sustentam a competitividade da grande empresa globalizada detonaram um terremoto no circuito de formação da renda e nos mercados de trabalho.

A opinião convencional circunscreve a culpa à migração das empresas para as regiões onde prevalece a relação mais favorável entre produtividade e salários. Esse movimento, dizem, se associou à robótica, à nanotecnologia e às tecnologias de informação para danar a vida dos trabalhadores nos Velhos Países Ricos e nos Velhos Pobres, agora mais Empobrecidos.

Nesse rol de culpados, estão ausentes os chefes do bando. A Lava a Jato da globalização ignorou a associação entre concentração e expansão da riqueza financeira, deslocalização produtiva e precarização do trabalho. A fúria concentradora dos mercados financeiros detonou a capacidade de regulação dos Estados Nacionais. Os movimentos competitivos das empresas financeirizadas que impulsionam as cadeias globais de valor executam a abstração da vida, fragilizando os espaços jurídico-políticos nacionais onde se abrigam os mortais cidadãos.

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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