Os mistérios de Ibirubá, possível refúgio de nazistas em fuga no Rio Grande do Sul

Um jornalista busca desvendar os segredos dos túneis da cidade gaúcha

Obsessão. Na única escavação oficial, o pesquisador recebeu a primeira ameaça. Não deu bola, estava fascinado pela história. (FOTO: Clóvis Messerschmidt e Angela Souza/Prefeitura de Ibirubá/RS)

Obsessão. Na única escavação oficial, o pesquisador recebeu a primeira ameaça. Não deu bola, estava fascinado pela história. (FOTO: Clóvis Messerschmidt e Angela Souza/Prefeitura de Ibirubá/RS)

Sociedade

A cidade gaúcha de Ibirubá, com 20 mil habitantes e distante 300 quilômetros de Porto Alegre, convive há décadas com um segredo de polichinelo. Nas ruas e nos quintais das casas mais antigas da cidade, galerias, túneis e passagens subterrâneas escondem uma história que ainda hoje desperta perplexidade, curiosidade, medo e ameaças. Seus enredos certamente fariam o mestre do suspense Alfred Hitchcock sentar nos bancos da praça principal para ouvir histórias que mesclam fantasia, ficção e realidade. O curioso nesta trama é que os depoimentos dos poucos remanescentes coincidem em muitos pontos.

Colonizada por alemães, Ibirubá – que em tupi-guarani significa Pitangueira do Mato, árvore da região – está localizada a 250 quilômetros da fronteira com a ­Argentina e teria servido de esconderijo para nazistas em fuga, após a Queda de Berlim, em 1945. Relatos contam que o médico ­Josef Mengele viveu pouco mais de um ano em uma chácara nos arredores da cidade. Adolf Eichmann, capturado em Buenos Aires pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, Martin Bormann, secretário de Adolf Hitler, e o tenente-coronel da SS Paul Hasser, todos teriam transitado por lá.

 

Desde 2015, essa trama vem sendo investigada por um jornalista local, Clóvis Messerschmidt. Por meio de fotos, documentos, depoimentos e apoio de pesquisadores das universidades Federal do Rio Grande Sul e Federal de Santa Maria, ele insiste na mais hercúlea de suas missões: convencer os moradores a abrir suas casas para que possa ter acesso aos túneis. “Já recebi duas ameaças. A resistência é enorme”, conta o pesquisador. Desvendar esses mistérios tornou-se, porém, obsessão.

A história remonta a 1915, quando o alemão Alfred Schott Braun se instalou com a família na então Colônia General Osório e abriu a primeira farmácia, após fugir da Primeira Guerra Mundial. Aí surge a primeira dúvida: seria ele um parente distante de Eva Braun, a companheira de Hitler? A escavação dos primeiros túneis da cidade é atribuída a ele. Era uma tradição alemã guardar alimentos no subsolo para evitar roubos. No Rio Grande do Sul, bandoleiros perambulavam pelas fazendas assaltando casas. Assim, a experiência trazida pelo farmacêutico serviu de modelo.

No fim dos anos 1940, seu filho, Frederico Ernesto Braun, recém-formado médico em Porto Alegre, vai estudar em ­Chicago, nos EUA, onde conhece um grupo nazista e passa a se interessar pelo tema. Retorna ao Brasil no fim dos anos de 1950, convertido ao nazismo e com a missão de esconder dinheiro oriundo da Alemanha e investir em propriedades rurais. O médico preferiu, porém, usar os recursos na compra de imóveis em seu próprio nome. Foi justamente nessa época que os mistérios se aprofundaram. O Doutor Braun, como ficou conhecido, construiu um hospital, o Santa Helena. Nada de anormal se ali não fosse o ponto conector de um túnel que ligava a clínica à sua residência e, no mesmo subsolo, existisse um laboratório onde o médico fazia experiências “científicas”.

Francisca Schöfer, a “Cice”, uma anã que trabalhou de enfermeira por muitos anos e também serviu como doméstica na residência da família, concedeu, em 2018, pouco antes de falecer, um longo depoimento a Messerschmidt. “Após conquistar sua confiança, um dia o Doutor Braun pediu que limpasse o laboratório subterrâneo. A primeira vez que entrei e acendi as luzes fiquei arrepiada ao ver, nas prateleiras, vidros com fetos submersos em formol”. A enfermeira relatou ter visto, ainda, corpos de mulheres empilhados. Segundo ela, em um dos quartos da residência havia um alçapão que desembocava em quatro túneis. Além do hospital, um desses canais ligava a casa a um frigorífico.

Anos depois, o jornalista escavou e encontrou nas cinzas da fornalha diversos dentes. “Submeti à apreciação de três dentistas e todos confirmaram que eram de humanos”, conta. Cice disse que chegou a perguntar ao médico sobre os túneis. Segundo ela, o Doutor Braun repetiu a história dos bandoleiros no passado e depois, durante a guerra, “para proteger os alemães perseguidos por Getúlio Vargas”.

Clóvis Messerschmidt chegou a receber ameaças por remexer na história da cidade de colonização alemã

Em 1964, o médico teve de fugir, perseguido pelos nazistas que não tiveram o retorno esperado nos investimentos. Doutor Braun teria se escondido em Ponta Porã, no estado de Mato Grosso do Sul, divisa com o Paraguai, onde havia comprado fazendas para depois viver no país vizinho com nova identidade. Não sem antes simular sua morte em Ibirubá, com direito a velório e enterro no cemitério da cidade.
Em 2017, vândalos violaram diversos túmulos, dentre eles o do médico. A tíbia esquerda dos restos mortais encontrados no jazigo foi submetida a exames no Instituto Geral de Perícias, em Porto Alegre. A Polícia Científica afirmou que o osso era de uma pessoa jovem, com, aproximadamente, 18 anos e estatura entre 1,68 e 1,71 metro, o que não correspondia à idade e à estatura do médico. Encarregada do inquérito, a Polícia Civil preferiu arquivar o processo. Reza a lenda que, no fim dos anos 1990, o verdadeiro Doutor Braun faleceu em acidente aéreo, no Paraguai.

O pedreiro aposentado José Godoy de Souza, que trabalhou em reformas na residência do médico, confirmou a existência de túneis ligando a casa do médico ao hospital. “Eu ajudei a construir uma casa subterrânea”, diz. O bombeiro civil Luís­ Eduardo de Andrade obteve autorização para visitar um desses túneis. “Vi que existiam dois supostos acessos. O primeiro parecia a porta de um armário embutido, o segundo, uma espécie de alçapão que dava para uma sala enorme”, diz ele. ­Leonilda, que preferiu omitir o sobrenome, foi criada por uma família nazista que costumava visitar a casa dos Braun. O jornalista conta que mostrou a ela uma foto do rosto da enfermeira sem, no entanto, aparecer o corpo. “Essa aqui era uma anã”, reconheceu sem pestanejar. Ela lembra ter visitado espaços subterrâneos amplos, onde havia portas sempre fechadas. “Recordo de uma sala onde existiam armas, quadros e uma estátua, todos com referências nazistas.” Em uma dessas visitas, diz ter encontrado o oficial da SS Paul Hasser.

O mistério não é apenas saber o que aconteceu no passado, mas o que ainda acontece após todos esses anos. Por que os moradores guardam tantos segredos?

A primeira ameaça que recebeu foi em agosto de 2019, quando acompanhava a única tentativa oficial de furar uma rua para saber o que existia 4 metros abaixo da terra. “Uma pessoa me chamou e disse que tinha um recado: deveria abandonar as pesquisas”, conta Messerschmidt. Ele não se intimidou. Dias depois, recebeu em sua casa uma carta anônima: “Não ultrapasse os limites. Não se exponha”. Com a pandemia, o assunto arrefeceu, mas o jornalista insiste, pois quer saber o que se esconde nos túneis e labirintos de Ibirubá.

Publicado na edição nº 1166 de CartaCapital, em 15 de julho de 2021.
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