‘O racismo é um sistema de dominação’, ensina Adilson Moreira

'E se mantém independentemente da vontade dos indivíduos', acrescenta o advogado, que é referência em Direito Antidiscriminatório

Foto: Justificando

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Entrevistas,Sociedade

Divulgada nesta quinta-feira 13, aniversário de 133 anos da Lei Áurea, uma pesquisa do Instituto Locomotiva confirma a histórica desvantagem dos negros no acesso à educação e no mercado de trabalho. Apenas 22% dos 1.630 entrevistados no fim de março declararam ter um chefe preto ou pardo, embora estes representem 56% da população brasileira. Dois terços dos postos de trabalho com renda de até um salário mínimo são ocupados por negros, enquanto a participação deles nas faixas de remuneração mais altas não passa de 13%. 

A diferença salarial é gritante. Negros ganham, em média, 1.865 reais por mês, enquanto trabalhadores de outras etnias recebem 3.509 reais. Embora 84% dos entrevistados reconheçam que o Brasil é racista, apenas 4% admite ser preconceituoso em relação aos negros. E 36% acreditam que o racismo “está apenas em algumas pessoas”.

Doutor em Direito Constitucional Comparado pela Universidade de Harvard e principal referência nacional em Direito Antidiscriminatório, o advogado Adílson Moreira explica, na entrevista a seguir, porque é um equívoco tratar o racismo apenas como uma “patologia” ética ou psicológica, atribuída a indivíduos ou grupos isolados. 

 

CartaCapital: Oito em cada dez brasileiros reconhece que vivemos em um país racista, mas quase ninguém se considera preconceituoso. O que explica tal contradição?

Adílson Moreira: A população em geral, incluindo políticos, gestores públicos e acadêmicos, tem uma visão estreita do racismo. Muitos só conseguem enxergar a discriminação direta, o ato de hostilidade de um indivíduo contra outro pertencente a uma minoria racial. O racismo é, porém, um sistema de dominação social, que tem por objetivo justificar a concentração de poder e riqueza nas mãos de pessoas brancas. Para tanto, a sociedade precisa ser constantemente convencida de que somente elas podem atuar de forma competente no espaço público. 

 

CC: Como esse sistema de dominação se estrutura?

AD: Além da discriminação praticada por indivíduos, temos a institucional, que verificamos, por exemplo, nas empresas que não contratam negros ou que não os deixam progredir na carreira. Você já viu algum banco anunciar um processo seletivo para recrutar um diretor? Isso não existe, esse tipo cargo é preenchido por indicação. Como vivemos em uma sociedade com forte segregação racial, os profissionais brancos só costumam se lembrar de colegas brancos, com quem trabalharam ou estudaram juntos. A pessoa responsável pela indicação não necessariamente é racista, apenas apresentou um nome qualificado para o cargo. Ou seja, o racismo se reproduz independentemente da vontade dos indivíduos.

 

CC: Em recente pesquisa do Instituto Locomotiva, apenas 22% dos entrevistados disseram possuir um chefe preto ou pardo. E 54% acredita que os brasileiros não reagiriam bem diante de um chefe negro.

AM: Esse incômodo vem dos estereótipos criados por pessoas brancas e instituições controladas por elas. Os estereótipos têm uma dimensão descritiva e prescritiva. A primeira designa supostas características de determinado grupo e a segunda, as funções que elas podem ocupar. Uma piada racista corriqueira no mercado de trabalho é dizer a um funcionário negro que, se ele cometer um erro, será mandado para o açoite. Recordo-me de um caso ocorrido em um banco público, no qual um gestor se referia a um setor ocupado majoritariamente por funcionários negros como “senzala”. Quando você vive dentro de uma sociedade na qual membros de determinado são sistematicamente representados como inferiores, você não vai querer se sentar ao lado deles no metrô, tê-los como vizinhos ou fazer amizade. E, certamente, você também não vai querer tê-los como chefe. 

 

CC: Mesmo reconhecendo a existência do racismo, 61% dos brasileiros critica a “patrulha do politicamente correto” e 28% não vê problemas em fazer piadas com pessoas negras. 

AM: O humor hostil é justamente um mecanismo de reprodução de estereótipos sobre grupos minoritários, com o objetivo de respaldar práticas discriminatória. Nas centenas de decisões judiciais sobre injuria racial que analisei para escrever o livro Racismo recreativo, observei que o humor racista se expressa, sobretudo, no ambiente de trabalho, onde os profissionais competem por oportunidades de inserção social. Desqualificar pessoas negras, asiáticas ou indígenas é uma forma estratégica de preservar o privilégio branco. Quando analisamos o fenômeno do racismo, precisamos ter clareza de que ele não é apenas um comportamento individual e tampouco uma mera expressão de desprezo. O racismo tem um objetivo, legitimar os privilégios das pessoas brancas.

 

CC: Para 59% dos brasileiros, pessoas brancas também são vítimas de racismo. Onde, na Dinamarca?

AM: Talvez (risos). Algumas pessoas brancas podem achar que sofreram racismo porque foram chamadas de macarrão, verme, lombriga ou coisa dessa natureza. Mas, como disse anteriormente, o racismo é um sistema de dominação, que pressupõe uma diferença e hierarquia de poder. Em nossa sociedade, pessoas negras não estão em condições de impor desvantagens sistemáticas às pessoas brancas. Pessoas negras podem expressar preconceito racial, mas jamais podemos dizer que pessoas brancas são vítimas de racismo. 

 

CC: A pesquisa não entra nessa questão, mas muitos brasileiros encampam o discurso de que não existe racismo no Brasil, e sim aversão aos pobres.

AM: Como muitas pessoas brancas também são pobres, elas também se veem em situação de desvantagem. É verdade, isso realmente acontece. Mas elas não são pobres porque são brancas, e sim porque vivemos em uma sociedade capitalista, que concentra a renda nas mãos de uma minoria, e há pouquíssima chance de mobilidade social para quem está na pobreza. No caso dos negros, o racismo contribui para perpetuar as desigualdades.

 

CC: Em casos como o de Jacarezinho, é comum ver analistas minimizando o caráter racial da operação sob o argumento de que muitos policiais também são negros.

AM: Todo sistema de dominação precisa de um aparato ideológico para justificá-lo e conferir a ele uma legitimação social. Ocorre que pessoas pertencentes a grupos subalternizados também introjetam os estereótipos construídos pelo grupo dominante. Além disso, as instituições cultivam uma cultura organizacional, com parâmetros de operação. O policial negro segue as diretrizes traçadas pelos oficiais, quase todos brancos.

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Editor de CartaCapital

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