Sociedade
O lutador
Corintiano, boêmio e avesso a regras, Carlos Prates, fenômeno do UFC, tinha tudo para dar errado
Tinha tudo para dar errado. Mas no caso do lutador de MMA Carlos Prates, funcionou. Descobriu cedo que não gostava de estudar nem de trabalhar. Fuma diariamente, bebe uísque, cerveja e cachaça, e nas festas é inimigo do fim. Às vezes ataca um pote de Nutella em plena preparação para uma luta. Também prefere assistir a um jogo do Corinthians a uma disputa de cinturão do UFC. Aliás, a entrevista aconteceu após uma agenda em São Paulo sem relação com a luta. Prates havia sido convidado pela ESPN para acompanhar Corinthians e Platense, pela Libertadores, na Neo Química Arena. O time argentino venceu por 2 a 0. “O pessoal já está me massacrando. Já estão colocando a culpa em mim”, brinca. A derrota do Timão só reforçou uma velha conclusão do torcedor: “A gente sabe que tranquilidade e Corinthians na mesma frase não combinam”.
A rotina de Prates não parece compatível com alguém que ocupa a segunda posição no ranking dos meio-médios do UFC e está a uma vitória de disputar um cinturão inédito para o Brasil. “Eu não sou atleta. Sou lutador”, define-se. “Atleta não fuma, não bebe, acorda cedo para correr.”
A combinação improvável de talento, irreverência e hábitos pouco ortodoxos transformou o paulista de Taubaté numa espécie de anti-herói do UFC. Ele abraçou o personagem. No Instagram, usa como foto de perfil uma imagem de Deadpool. O amigo Caio Borralho prefere uma referência mais brasileira: “Ele é o Garrincha do MMA.” Não é difícil entender a associação. Garrincha nunca pareceu interessado em se comportar como um atleta exemplar. Gostava da noite, da boemia e geralmente passava dos limites. No campo, fazia o que ninguém mais conseguia. Como o lendário camisa 7 do Botafogo e da Seleção Brasileira, Prates desafia a lógica de que talento e disciplina precisam caminhar na mesma direção.
O paulista é um raro não bolsonarista no ringue
Criado nos Estados Unidos, o UFC tem raízes no Brasil. O evento nasceu nos anos 1990 sob forte influência da família Gracie, responsável por transformar o jiu-jítsu brasileiro em um fenômeno mundial. Tornou-se uma das vitrines preferidas do presidente norte-americano Donald Trump, presença constante nos eventos da organização, que chegou a anunciar a intenção de realizar uma luta na Casa Branca em seu aniversário. Por aqui, não faltam lutadores identificados com o bolsonarismo. No ringue da política, Prates evita se alinhar a qualquer campo. Já se manifestou contra Bolsonaro, mas rejeita ser porta-voz de qualquer ideologia. “Estão com a vida ganha e a gente aqui ralando e brigando por causa deles. Se a galera se unisse e cobrasse os caras de verdade, teria muito mais retorno”, afirma. “Tem gente sustentando a família catando latinha e reciclagem. E, no fim do dia, senta para discutir Lula ou Bolsonaro.”
Política não parece ser seu tema favorito. Prates prefere falar de Taubaté, do tempo em que ainda tentava encontrar um lugar no mundo. “O muay thai foi a minha salvação”, afirma. Ele conta ter sido uma criança hiperativa numa época em que o TDAH ainda era pouco diagnosticado. Na escola, o desempenho era pífio. Tinha dificuldade para se concentrar e gastava energia em qualquer atividade que aparecesse pela frente. A mãe, professora, desconfiava que havia algo diferente. Levou o filho a médicos e especialistas até receber o diagnóstico.
O esporte entrou cedo em sua vida. Como para a maioria dos meninos do interior paulista, o futebol veio primeiro. Mas não durou muito. “O que realmente gostei foi de lutar. Na luta, se eu perder, a culpa é minha. Eu jogava bola e, às vezes, o time perdia e eu saía discutindo com todo mundo.”
A prática do muay thai não agradou à mãe. Ele era explosivo e vê-lo trocando socos em um ringue não parecia uma ideia muito sensata. A recomendação de uma médica fez a mãe ceder. Talvez pudesse canalizar a energia que transbordava sem direção.
O início não foi animador. A primeira luta terminou numa surra. O adolescente voltou para casa certo de que havia cometido um erro. “Achei que era só chegar lá, chutar o cara e ele cair. Chutei, ele não caiu e ainda me chutou de volta”, lembra. “Tomei um cacete.” A carreira quase acabou antes de começar.
“Ele é o Garrincha do MMA”, define o amigo Caio Borralho. Durante seis anos, Prates lutou muay thai na Tailândia para pagar as contas
O medo da gozação dos colegas da academia o convenceu a não desistir. Resolveu lutar mais uma vez para, ao menos, deixar “empatado”, uma vitória e uma derrota. Ganhou. Depois ganhou de novo. E continuou a ganhar. Mais de cem lutas depois, o garoto que entrou na academia para gastar energia está a uma vitória de disputar o cinturão mais importante da carreira.
Para se firmar na luta, Prates atravessou o mundo. Em princípio, iria passar seis meses treinando muay thai. Ficou seis anos. O plano era aprender, evoluir e voltar para casa. Mas a vida mudou o roteiro. Sem patrocínio, passou a lutar para pagar as contas. Aluguel, comida, transporte. Tudo dependia do que ganhava no ringue. “No primeiro mês fiz seis lutas”, conta. Quando surgia uma oportunidade, o jeito era encarar. “Não sabia quando ia lutar de novo. Não sabia se ia me machucar. Tinha de pagar as contas.”
Os primeiros rivais eram trabalhadores comuns. Motoristas de tuk-tuk e vendedores. No país onde as apostas movimentam milhões de dólares, o muay thai ocupa um espaço parecido com aquele do futebol em outras partes do mundo. “Na Tailândia, o pessoal aposta em tudo. Tem até rinha de peixe e de passarinho.”
Prates enfrentou situações extremas. Entre elas, uma luta em uma cidade do interior da China, disputada em um evento ao ar livre sob uma temperatura próxima dos 2 graus. Longe dos holofotes, acredita ter descoberto sua principal virtude, a frieza. “Hoje, encaro o dia da luta como outro qualquer.” Para quem passou seis anos em ringues para pagar o aluguel, a pressão deixou de ser novidade há muito tempo. Enquanto aguarda o momento de voltar ao octógono para o maior desafio da carreira, o lutador leva a vida sem grandes mudanças. Muitos atletas estariam cercados por assessores e mergulhados em rotinas cuidadosamente planejadas. Ele prefere hábitos que pouco lembram aqueles de uma celebridade esportiva. “Tenho mais prazer nas coisas simples”, afirma. Entre São Paulo e Taubaté, continua a se reunir com a turma para tomar uns “biricuticos” e, quando dá, assistir a um jogo do Corinthians. “Gosto mesmo é da rua.” •
Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O lutador’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



