Sociedade

Violência

No Maranhão, barbárie contra os índios Gamela

por Redação — publicado 02/05/2017 18h29
Antes do ataque, o deputado federal Aluísio Guimarães Mendes Filho chamou o povo de "pseudoindígenas"
Cimi
Gamela

A área onde ocorreu o ataque é alvo de disputada territorial entre índios e fazendeiros

Homens munidos de armas de fogo e facões atacaram, neste domingo 30, um grupo de indígenas da etnia Gamela em Viana, interior do Maranhão. Foi uma emboscada: os índios estavam desarmados e pouco puderam fazer em defesa própria. 

Ao menos 13 indígenas foram feridos, dois tiveram as mãos decepadas e cinco foram baleados, segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Já o governo do estado fala em "fratura exposta" e contabiliza cinco índios feridos.

O advogado Rafael Silva, da OAB do Maranhão, afirmou, em entrevista à rádio Guaiba, que esteve no hospital e confirmou que dois indígenas tiveram as mãos decepadas e outros dois sofreram tentativa de esquartejamento.

Estrada
Estrada onde o grupo dos Gamela foram atacados (Foto: Cimi)
A área onde ocorreu o ataque é alvo de disputada por fazendeiros, em confronto com os indígenas há pelo menos três anos. A Polícia Civil de Viana registra pelo menos dois outros ataques à etnia, um em 2015 e outro no ano passado. O de 2017 é o que deixou mais feridos.

Líderes indígenas cobram uma investigação para descobrir a autoria do atentado aos Gamela. De acordo com o Cimi, dois dias antes da ofensiva os indígenas teriam recuperado uma área de terra sob posse dos fazendeiros, o que teria motivado o ataque. 

"Fazendeiros e gente até de fora aqui da região passaram o dia reunidos, fazendo churrasco e bebendo. O encontro foi convocado dias antes, logo após a nossa última retomada", disse uma liderança Gamela à Cimi.

No mesmo dia, o deputado federal Aluísio Guimarães Mendes Filho (PTN-MA) chamou povo Gamela de “pseudoindígenas” em entrevista à rádio Maracu. 

O parlamentar também afirmou que, no caso de uma tragédia, a responsabilidade seria da Funai e do ministro da Justiça Osmar Serraglio, que segundo ele estavam avisados sobre a situação "gravíssima" em que se encontrava essa aldeia.

Ouça a entrevista a partir do décimo minuto:

O Ministério Público Federal (MPF) alega que a ação também contou com incitação de ódio em emissoras de rádio da região, que convocavam "pessoas de bem em defesa da propriedade" a atacar a aldeia. 

O governador do Maranhão Flávio Dino (PCdoB) disse que vai investigar o envolvimento de políticos e as incitações de ódio no caso.

Em nota, o MPF pediu à Polícia Federal que dê segurança aos indígenas atacados e cobrou da Funai as providências adotadas para evitar uma nova ofensiva. 

Demarcação de terras

Flávio Dino publicou documentos em seu Twitter que mostram o ofício sobre Gamelas que o governo do Maranhão encaminhou à Funai em agosto de 2016 pedindo providências sobre a demarcação de território para "evitar o agravamento do conflito em questão".

Dois meses depois, a Funai respondeu alegando falta de verba para os estudos antropológicos necessários para iniciar a demarcação de terras.

Em outro tuíte, o governador afirma que, embora a questão da demarcação e a Funai sejam de responsabilidade do governo federal, está à disposição para custear os estudos se isso trouxer paz para a região.