Sociedade

Conflito agrário

Não confunda ruralistas com o agronegócio

por Rui Daher publicado 25/04/2017 00h50, última modificação 24/04/2017 18h17
Na região de Colniza (MT), agricultores vivem do que podem e esperam chegarem fazendeiros e jagunços para perderem vida ou sustento.
Wikimedia Commons
MST_manifestante

Troquem suas incriminações de “o agronegócio mata" para "os ruralistas matam”

Não creio que muitos leitores desta CartaCapital conheçam Colniza, no estado do Mato Grosso, a 1.065 km de Cuiabá. Nem eu. Em longínquas Andanças Capitais estive perto para visitar povoados indígenas agrícolas em Aripuanã, cidade maior, distante 100 km, de que Colniza foi desmembrada para se tornar município, em 1998.

Hoje é habitada por cerca de 30 mil pessoas. Já foi considerado pela Organização dos Estados Ibero-Americanos o município mais violento do País. Na década de 1980, integrou projeto para povoar a Amazônia, levando para lá colonos da região Sul.

Deu no que está dando. Inviabilizados os garimpos no início da década de 1990, passou-se ao desemprego e à procura de terras para agricultura e pecuária incipientes e extração de madeira ilegal. A partir de 1994, a criação de assentamentos estabeleceu novo fluxo migratório, desta vez proveniente de Rondônia. Sobraram poucas indústrias madeireiras, comércio, mineração, turismo e áreas de preservação permanente, frequentemente, usadas para extrativismo. Dos assassinados da semana passada, a maioria era de pessoas nascidas em Rondônia. Mais não precisaria dizer.

Bastará aos leitores pesquisarem um mapa ampliado do Estado para notar que na região convivem municípios cercados de centenas de aldeias indígenas e de glebas de assentados. Japuíra, Serra Morena, Pio, Paraicida, Zará, Roosevelt, Sete de Setembro, Igarapé Lourdes, etc.

Vivem do que podem e esperam chegarem fazendeiros e jagunços para perderem vida ou sustento.

Essas últimas, ironicamente, ocorreram no dia 19 de abril, Dia o Índio. Mais certo seria no Dia de São Expedito, das causas urgentes, ou de São Judas Tadeu, das causas desesperadas. Resultaram pelo menos nove mortes, vários feridos e muitos desaparecidos. São agricultores pobres, desprotegidos, e que sofrem frequentes tortura e cárcere privado.

Segundo a polícia, já foram identificados quatro homens responsáveis pela matança. Os detalhes sobre o estado dos corpos são escabrosos.

O futuro só pode piorar. Segundo a CPT (Comissão Pastoral da Terra) "investigações policiais feitas nos últimos anos apontaram que os gerentes das fazendas da região comandavam uma rede capangas, altamente armados, que usam o terror para expulsar os pequenos produtores da área".

Na semana passada, escrevi sobre o documentário “Martírio”, de Vincent Carelli, que relata o sofrimento dos índios Guarani Kaiowá.

Hoje lembro-me de outro filme. Nada dramático. “A Rosa Púrpura do Cairo”, de 1985, dirigido por Woody Allen. Nele, Mia Farrow, desiludida com o casamento, sonha nas salas de cinema com galãs plenos de virtudes. Até que um deles sai da tela e passa a viver um romance real com ela.

“Martírio” saiu da tela na semana passada para nos mostrar o cotidiano sangrento da ação ruralista pelos campos brasileiros.

E chega, por favor, de confundirem ruralistas, representados em bancadas, associações, federações, corporações e ministros da Justiça bundões, com o agronegócio. Este, como atividade econômica, tal qual outras produtivas e mercantis podem matar por acidentes de trabalho. Os ruralistas matam através de leis, ações violentas, mentiras e roubos qualificados.

No Brasil, por tudo pode-se matar. Poluição, futebol, trânsito, tráfico de drogas, cuspe na cara. Afinal, foram aqui registrados 60 mil assassinatos, em 2016.

Troquem suas incriminações de “o agronegócio mata" para "os ruralistas matam”.