Mortos na Cidade de Deus foram executados, denunciam familiares

Sociedade

“Encontrei meu esposo com a perna decepada, quatro facadas e dois tiros na nuca”, descreve Viviane Gonçalves, casada com Rogério Alberto de Carvalho Júnior, de 34 anos, encontrado morto no domingo 20 em um matagal da comunidade Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro.

Na saída do Instituto Médico Legal, familiares dos sete homens encontrados sem vida no último fim de semana comungavam da mesma suspeita, a de que eles foram vítimas de um sangrento revide policial.

Cidade de Deus tornou-se palco de violentos confrontos entre agentes do Estado e criminosos nos últimos dias. Quatro policiais militares morreram na queda de um helicóptero no sábado 19. Ainda não há clareza sobre o que levou a aeronave a despencar no chão.

Após participar do velório dos policiais, o secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, disse que não foram encontradas, na perícia preliminar, marcas de perfurações na aeronave. “Não se descarta nada, nenhuma hipótese. Só a perícia da Aeronáutica vai dizer o que houve”.

Viviane conta que soube por vizinhos que seu marido estava entre os baleados na noite de sábado, mas policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) não deixaram os familiares se aproximarem do local onde estariam os corpos. “Se estavam errados, que fossem presos, mas que não esculachassem do jeito que eles fizeram”, desabafa.

Pastor da Assembleia de Deus, Leonardo Martins da Silva encontrou o filho de 22 anos entre os mortos na localidade conhecida como “Brejo”. E repete o relato de que as vítimas estavam de bruços, com tiros na nuca e em outras partes do corpo. “Ele trabalhava comigo, mas também ficava no meio dos garotos lá [do tráfico]”, lamenta.

 

A esteticista Gisele Beija conta que o seu sobrinho, de 17 anos, e outros vizinhos observavam a movimentação na favela quando os tiroteios se aproximaram e eles correram para dentro de uma mata. “A partir daí ninguém sabe o que aconteceu. A gente ouviu muito tiro”, diz ela. “Pelo modo que eles foram encontrados, foi execução, está claro”.

A chacina é investigada pela Polícia Civil, que no momento realiza diligências para esclarecer os fatos. Procurada pela Agência Brasil, a Polícia Militar não comentou o caso e disse que a Civil é a responsável pelas investigações, por meio da Divisão de Homicídios.

No domingo, a Anistia Internacional publicou uma nota pedindo que a política de segurança pública seja repensada pelas autoridades do Rio de Janeiro. A entidade defendeu que as operações policiais respeitem os direitos humanos e garantam a segurança de todos.

“As operações policiais no Rio de Janeiro seguem um padrão de alta letalidade, deixando centenas de pessoas mortas todos os anos, inclusive policiais no exercício de suas funções. Em geral, são operações altamente militarizadas, que seguem uma lógica de guerra (neste caso, guerra às drogas), que enxerga as áreas de favelas e periferias como territórios de exceção de direitos e que resultam em inúmeros outros abusos além das execuções, tais como invasão de domicílio, agressão física e verbal, e cerceamento do direito de ir e vir”, diz o texto.

* Com informações da Agência Brasil (Reportagem de Vinícius Lisboa).

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