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"Martírio" e a tragédia imposta aos Guarani-Kaiowá

por Rui Daher publicado 18/04/2017 09h22, última modificação 18/04/2017 09h23
O documentário de Vincent Carelli reconstrói os abusos do Estado brasileiro e do capital contra os indígenas
Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Guarani Kaiowá

Protesto de índios Guarani Kaiowá em frente ao Palácio do Planalto, em maio de 2016, contra retrocessos nas políticas de demarcação de terras

Assistam ao documentário Martírio. Estreou em São Paulo na última quinta-feira 13. Ainda que o título possa induzir, não se trata de um blockbuster de terror. Mas aterroriza. Durante duas horas e quarenta minutos, o indigenista e cineasta Vincent Carelli filma o drama dos Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, aviltados em seus trabalhos, saúde e cultura, tentando se defender de um sistema econômico, este sim selvagem, bancado por canalhices públicas e privadas.

Para realizar Martírio, Carelli e sua equipe pesquisaram mais de 100 anos da história da região, suas população e forma de colonização. Fosse entre 1864 e 1870, período da Guerra do Paraguai, estaríamos discutindo sobre área alheia.

Vitoriosa a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), coube-nos 90 mil quilômetros quadrados do país vencido, hoje 25% do território do Mato Grosso do Sul. A guerra custou aos paraguaios a perda de quase 40% de sua área total.

Sem tal reconstituição é impossível discutir os direitos dos povos indígenas da região. A não ser por malandragem ruralista.

Pesquisem em sequência: Marechal Cândido Rondon (1865-1958), herói ou vaselina? Serviço de Proteção aos Índios (SPI), criado em 1910, registros oficiais que elucidam os direitos hoje reclamados pelos Guarani-Kaiowá. Cinco milhões de hectares arrendados aos intendentes que guerrearam no Paraguai, aonde foram parar? Getúlio Vargas e a “Marcha para o Oeste”, em 1938, abertura para colonização sem controle da grilagem e demarcação. Avanço do agronegócio dos anos 1960/70 em diante. Aumento no valor dos preços das terras.

Queriam o quê? Os índios apenas pedindo apito?

“Ah, não tenho mais saco para ladainhas de minorias”. Pena. Caso suas capacidades de se indignar e comover sejam rasas como um pires, o documentário ao menos servirá para comprovar a máxima do ruralista paranaense e ministro da Justiça Osmar Serraglio, múmia em coluna de 04/04, ao dizer que terra não enche a barriga de ninguém, daí ser desnecessário demarcar as indígenas.

Nessas aldeias, passa-se fome. Pode haver aí uma divergência entre políticos ruralistas. Em suas colunas sobre “agronegociatas” na Folha de São Paulo, Ronaldo Caiado insiste em defender a livre venda de terras a estrangeiros que, compradas, logo serão demarcadas, jagunços armados as defenderão, e panças se servirão delas até o fartar.

Martírio é sobre o nosso povo. Tanto faz se minorias ou maiorias. Direitos iguais. É tudo gente, como queria o genial antropólogo e tantas coisas mais Darcy Ribeiro.

No Brasil, a questão indígena se resolve com Estado. Na Federação de Corporações, ela não se resolve. Querem ver?

Fui procurar no Google alguém mais que a discutisse. E quem encontrei? Eu mesmo. Em 25 de abril de 2014, nesta CartaCapital, escrevi “Sem pressa para a questão indígena”. A múmia de minha coluna foi outro ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, do governo Dilma Rousseff. Dizia sobre as demarcações: “Não é uma questão de tempo, é uma questão de cuidado”.

Ao que eu respondia: “Entendo. Loja de cristais mantida por dívida histórica, apropriações indébitas oficializadas em cartórios, barafundas da expansão agropecuária, sem que parte da sociedade e as três instâncias de governo atentassem ao disposto em Lei de 1973, artigo 231 da Constituição de 1988 e Decreto-Lei de 1996. Que eu saiba, estamos em 2014. E sem pressa”.

Martírio
Cena de "Martírio". A tragédia é antiga (Foto: Toninho Tavares / Agência Brasília)

Reparem bem, há três anos, período de governo petista, se permitiu uma moratória que, hoje, golpe dado, resultou na PEC 215, que pode invalidar os 55.600 hectares a serem demarcados no Mato Grosso do Sul.

O documentário permite-nos ver, à época dos mais graves conflitos entre índios e fazendeiros na região, a ex-ministra da Agricultura, Kátia Abreu, então presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), discursar e defender produtores que “só pediam paz”. Sim, a paz dos corpos enterrados em cemitérios indígenas.

Senhores que não têm saco para ladainhas minoritárias, alerto: índios são pobres, assentados agrícolas são pobres, favelados são pobres, negros são pobres, mulheres recebem menores salários, o Brasil é um país pobre. Essa a maioria. Minoria somos nós.