Sociedade

Mariana: lembranças enterradas na lama

Hospedados em hotéis de Mariana (MG), ex-moradores de vilarejos devastados tentam recuperar objetos

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Com uma enxada na mão, Uliane Marcelino Tete, de 15 anos, revira a lama que cobriu sua casa no distrito de Paracatu, a 35 quilômetros do centro de Mariana. “Eu vim tentar recuperar alguma coisa que ficou, pra recordar os velhos tempos. Já achei algumas coisas, não é nada valioso, mas lembra o que a gente viveu.”

A lama que devastou o vilarejo no último dia 5 de novembro ainda está instável, e quem caminha sozinho pela área corre o risco de ficar atolado. Na manhã deste domingo (15/10), alguns moradores retornaram ao cenário da tragédia em busca de objetos pessoais.

Arlinda Eunice, 39 anos, pisa sobre o que restou da casa onde morava com a mãe. “Nunca imaginava que nós seríamos expulsos daqui. Afinal, quem saiu daqui por vontade própria? Fomos expulsos pela lama. Está tudo destruído, não tem como recuperar nada.”

Romeu Geraldo de Oliveira trabalhava na mina da Samarco quando ouviu pelo rádio que uma barragem havia rompido. Ele conseguiu chegar ao vilarejo antes da lama e ajudou a socorrer a família. “Eu não sabia a proporção que isso ia chegar aqui. A barragem estava a 60 km daqui, eu pensei que a água fosse ‘esparramar’ e não chegaria aqui.”

O acesso a Paracatu ainda é restrito. Máquinas da mineradora que operava as barragens Fundão e Santarém, a Samarco – controlada em parceria pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton –, trabalham para recuperar pontes levadas pela enxurrada.

A reportagem da DW Brasil acompanhou a primeira visita ao local da Defesa Civil, chefiada pelo prefeito Duarte Eustáquio Gonçalves Júnior, depois da catástrofe. No vilarejo, fundado há mais de 100 anos, moravam cerca de 70 famílias.

Julio Ramos da Silva, 43 anos, não teve coragem de retornar a Paracatu. Foi do campo de futebol da vila que viu um helicóptero pela primeira vez. “Os guardas da empresa desceram e falaram que a gente tinha cinco minutos pra sair, que a lama estava descendo. Eu só peguei o meu radinho (sic) e os documentos”, relembra, dizendo ter pesadelos com o barulho do helicóptero quase todas as noites.

Segundo a prefeitura, sete pessoas morreram e 15 continuam desaparecidas.

No centro de Mariana, que não estava na rota da enxurrada de lama, 628 desabrigados estão alocados em hotéis e pousadas. A família de Cilaine Aparecida Felipe, 17 anos, foi a primeira a se mudar para uma casa alugada pela Samarco. Ela ainda procura o homem que salvou a vida dela e a do filho de um ano. Depois de ouvir uma gritaria na rua, ela pegou a criança no colo e fez o que o desconhecido mandava: pulou na carroceria de um caminhão.

Ela morava no distrito de Bento Rodrigues, fundado há quase 250 anos, o primeiro a ser destruído pela lama.”Eu quero que construam um novo Bento. Não vai ser o mesmo, claro. Mas queria que todo mundo se reunisse, igual era antes. Todo mundo era unido, se não fosse unido não tinha salvado tanta gente”.

O diretor de suprimentos da empresa, Gener Pontes, disse que esta é uma ação intermediária da Samarco para as famílias. “Nesse momento é uma solução temporária, que pretendemos fazer o mais rápido possível. E depois a gente discute, pensa melhor, nessa solução definitiva, que é complexa.”

A solução definitiva seria a construção de um novo distrito de Bento Rodrigues. As famílias desabrigadas querem voltar a viver numa vila, mas não no mesmo lugar. “Eu tenho medo de acontecer tudo de novo”, revela Cilaine.

Até que sejam acomodados nas casas temporárias, os desabrigados permanecem nos hotéis – muitos devem passar o Natal ainda nessa situação. Antônio Augusto Alves divide o quarto numa pousada com a esposa e filha. “Eu espero que façam a nossa vila, pra gente se juntar de novo, a nossa população, a nossa raiz. Quero que os erros sejam reparados e nossas vidas sejam reconstruídas. Mas não lá. Isso nem pensar, não quero mais passar por esse susto, ninguém quer. Isso vai ficar na nossa mente para o resto da vida. É muito doloroso.”

Em Mariana, o Ministério Público Estadual vai mover uma ação coletiva para garantir que a Samarco repare os danos causados às vítimas. Para garantir que a empresa cumpra suas obrigações humanitárias, a promotoria pediu o bloqueio de R$ 300 milhões da empresa. “A Samarco não pode colocar a mão nesse dinheiro enquanto não cumprir o que a lei obriga”, explica o promotor Guilherme Meneghin.

A negociação já está em andamento. A proposta é que a mineradora inicialmente pague uma renda mensal às famílias, que as casas sejam reconstruidas e que as vítimas sejam indenizadas pelas perdas.

“O diálogo (com a empresa) ainda está difícil, mas está acontecendo. Existe uma dificuldade em eles cumprirem tudo o que requeremos para essas vítimas. A gente entende que está muito recente, não dá pra empresa fazer tudo de uma vez. Mas queremos garantias”, comenta o promotor.

Ajuda de toda a parte

Os dois centros que recebem doações em Mariana estão lotados. O que é arrecadado é distribuído nos hotéis para os desabrigados, e também levado até comunidades que foram parcialmente atingidas.

Voluntários de todo o Brasil ajudam a separar as doações, que também chegam de toda a parte. “Eu vi a tragédia pela televisão e vim pra cá”, conta Cristiane de Souza, 25 anos, radiologista de Belém do Pará. “Estavam precisando de gente. Acho que isso é o mínimo que a gente pode fazer quando está com tempo livre e pode ajudar”, conta ela, que trocou as férias pelo trabalho voluntário.

 

CartaCapital
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