Sociedade

Luciano Hang: a alegoria máxima do movimento bolsonarista

Macaquinhos no sótão e uma cafonice em estado de arte, este é o bilionário condenado na Justiça que idolatra Bolsonaro

Embora não se possa menosprezar o grau de demência que leva um empresário a construir lojas de departamento com a fachada da Casa Branca e instalar Estátuas da Liberdade em suas portas, foi apenas a partir de 2016 que o processo de despirocamento de Luciano Hang o tornou apto à camisa de força. Hoje, a décima primeira pessoa mais rica do Brasil segundo a lista da Forbes – bilionário de número 1.057 no mundo – traja-se de terno verde-bandeira, gravata e lenço amarelos. “Por patriotismo”, garante usar cuecas nas mesmas cores, o que a reportagem de CartaCapital não pôde comprovar. As meias, no entanto, são verdade verdadeira: verdes com o calcanhar amarelo e, na altura do tornozelo, o bordado de si mesmo – um pequeno busto careca com orelhas de abano vestido com uma camiseta onde se lê “Véio da Havan”, o apelido pejorativo que, por inócuo lutar contra, adotou para si com galhardia. “Não chega a ser excêntrico”, refuta um famoso estilista ouvido por esta Carta certamente Capetal se sob o crivo de Véio da Havan. É tão somente “o horror”.

Aos 56 anos, o Véio nem tão velho assim é dono das Lojas Havan, um improvável caso de sucesso cujo faturamento anual atingiu os 7 bilhões de reais em 2018. Em 130 estabelecimentos espalhados sobretudo pelo interior do País, a Havan oferece cerca de 100 mil produtos nacionais e importados, de celulares a ferramentas de jardim, de pufes e banquetas a roupões e papéis de parede. A copiar a sede do governo dos Estados Unidos, já construiu mais de 1 milhão de metros quadrados, segundo informação da empresa. O mesmo modelo de negócio levou à falência Mappin e Mesbla, mas a Havan quer chegar a 200 megalojas até 2022. Há diferenciais a dar e vender, “preço, qualidade de atendimento” e tal. Nada, porém, que chegue aos pés de gesso da Estátua da Liberdade estacionada à porta, uma bizarrice sem tamanho. Quer dizer, em Brusque (SC), cidade-sede, ela tem 57 metros, 19 a mais do que o Cristo Redentor. É, pois, a maior estátua do Brasil.

A loja chama Havan, mas ostenta miniaturas da Estátua da Liberdade. / Foto: reprodução/Mídia Social

Luciano Hang não é apenas o mais serelepe apoiador de Bolsonaro, o primeiro grande empresário a subir ao Titanic do então candidato, hoje rumo ao iceberg com o mesmo Hang a dançar no baile. Véio da Havan é o bolsonarismo em pessoa. Sob sua lustrosa carcaça craniana não há o mais bege sinal de qualquer ilustração. Ao contrário, os macaquinhos pululam em seu sótão na forma de paranoias conspiratórias, inimigos imaginários, fantasmas do comunismo. “Conservador nos costumes e liberal na economia” – eis a senha para o crédito na mamadeira de piroca e o débito nos direitos do trabalhador. Como um Bolsonaro que tem por guia o “Brasil acima de tudo” ao mesmo passo em que bate continência à bandeira americana, o Hang patriota deixará aos arqueólogos do futuro 200 réplicas da Estátua da Liberdade. Some-se a esse conjunto a cafonice em estado de arte, e tem-se o Homem Bolsonarista reunido numa pessoa só.

Luciano Hang, que faturou 7 bilhões de reais no ano passado, quer inaugurar 70 novas lojas até o fim de 2022

Acrescente-se, ainda, o que não poderia faltar a este tipo, cujo hábitat natural são as redes sociais: 4 milhões de seguidores no Facebook, 2 milhões no Instagram, 330 mil no Twitter. À numerosa vara oferece pérolas como esta: “Temos que comemorar 1964 e 2018. Por duas vezes o Brasil venceu os comunistas”. Em outras oportunidades, dedica-se ao coaching: “Sempre pensei fora da caixa. Imagine construir uma megaloja em uma cidade pequena com fachada da Casa Branca e colocar uma Estátua da Liberdade na frente. Muitos me chamaram de louco e brega. Acredite no poder do marketing e não desperdice a ideia que pode mudar a sua vida”. Seu esporte preferido, no entanto, é fustigar o PT, mesmo que a golpes de uma enxada com CH: “Vai faltar cadeia se prenderem todos os petistas envolvidos em escândalos de corrupção pelo País. Como dizia um amigo meu, cada enchadada uma minhoca”.

Para conhecer o pensamento vivo do Homem Bolsonarista, deite-se por um instante nas redes de Hang. Sua peculiar ciência política considera comunistas o governador de São Paulo, João Doria, e o apresentador da Globo Luciano Huck. Bem, já pode se levantar. Não sem antes, no entanto, e apenas pela curiosidade mórbida de quem aprecia um acidente, se deixar levar pela série de vídeos em que Véio da Havan registra o encontro com o Napoleão de hospício Olavo de Carvalho, guru dos Bolsonaro, na longínqua zona rural da Virgínia. Vestido de Louro José (a coincidência com a plumagem embandeirada do papagaio de Ana Maria Braga foi anotada por Lula em entrevista recente), promove os livros do “filósofo” e de suas aulas a distância. De volta à realidade do Brasil, embora nem tanto, dedica-se a sortear 20 cursos anuais de Olavo. “Conto com você na luta contra o comunismo e o Foro de São Paulo.”

Como de resto, toda a tropa napoleônica está em quixotesca luta contra o moinho do “globalismo”, esse gigante inexistente. Seus jornalistas confiáveis, dos quais compartilha opiniões e entrevistas, são Boris Casoy e Willian Waack. Seu comunicador preferido, Ratinho. Seu ídolo, Silvio Santos. Sua tevê, Record. Não pense o incauto leitor que essa viagem na maionese ideológica tenha feito mal aos negócios de Hang. Foi o contrário. De 2017 para 2018, período em que se torna essa alegoria do bolsonarismo, suas vendas cresceram 40%. Motivo pelo qual parece disposto a acelerar na concepção de sua persona. No último dia 12, anunciou a substituição da frota que entrega as mercadorias da Havan por 300 “caminhões patriotas” pintados em verde e amarelo e com a inscrição “O Brasil que queremos só depende de nós”. Trajado outra vez de Louro José, inaugurou a figura do animador de 7 de Setembro, a quicar no asfalto como um pogobol enquanto a arquibancada do desfile militar em Brasília saudava o presidente: “Mito, mito, mito”.

“Previdência ou Morte”, gritou ao lado de Joice Hasselman. O empresário circula bem pelo círculo de poder, em Brasília e na mídia / Foto: Reprodução

A culpa é do PT. Sim, a culpa pela meteórica ascensão do Homem Bolsonarista é de Lula, exata e precisamente, diria o poeta golpista, de Lulinha. Ali por 2016, segundo o grupo de parentes do WhatsApp, o filho do ex-presidente era dono de um avião, uma Ferrari dourada e uma holding composta pela JBS, Friboi e… Lojas Havan, esta última em sociedade com a filha da ex-presidenta Dilma Rousseff. Desgostoso com os novos acionistas, Luciano Hang decidiu transformar-se no próprio garoto-propaganda de seu negócio ao lançar a campanha “De quem é a Havan?” Como seu marketing já se baseava nos “merchans” em programas populares como os de Ratinho, Luciana Gimenez e Celso Portiolli, passou ele próprio a frequentar os estúdios como convidado. Tendo gostado da brincadeira, tornou-se um dos maiores anunciantes privados do Brasil. Apenas no SBT, em 2018, contratou 50 milhões de reais em espaço para reclames, levando de lambuja o canal aberto para entrevistas em que jamais se pergunta, por exemplo, a respeito da condenação na Justiça catarinense por evasão de divisas.

Foto: Lourival Ribeiro/ SBT

Antes de Lulinha tomar posse na Casa Branca, Luciano Hang, creia, era uma pessoa discreta. Trabalhador da indústria têxtil da região, assim como seus pais, fundara a própria loja de tecidos num espaço de 45 metros quadrados em 1986. Hang entrou com o Ha, o sócio Vanderlei de Limas com o Van – e deu-se a Havan. “Não adianta você perder tempo e arrumar uma carga de melancia em uma carroça. Conforme a carruagem for andando, as melancias vão se mexendo”, ensina o Homem Bolsonarista em sua versão coach. “No dia a dia da sua empresa também é assim. Você vai ter que ajeitar os processos aos poucos. Comece e vá adaptando no andar da carruagem.”

Em 1999, as melancias da Havan foram flagradas se ajeitando na carroça em desacordo com as regras do jogo. Uma operação de busca e apreensão foi determinada pela Procuradoria da República em Blumenau. A empresa foi autuada em 117 milhões de reais pela Receita Federal e em 10 milhões pelo INSS. Por meio do Refis, a multa foi parcelada e o débito será quitado em 115 anos. Em 2004, o Ministério Público Federal propôs uma ação penal contra Hang e outras 13 pessoas por facilitação de descaminho, descaminho, falsificação, crime contra o sistema financeiro e a ordem tributária, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Condenado a 13 anos, nove meses e 12 dias de reclusão, além de multa de 1,2 milhão de reais, teve a pena extinta em 2008 pela 1ª Vara da Justiça Federal em Itajaí (SC), que julgou inepta a denúncia.

Na quarta-feira 18, Véio da Havan voltou a ser condenado e em definitivo. Desta vez por constranger funcionários a votar em Bolsonaro durante a gravação de um vídeo em que fala a uma pequena multidão de empregados sobre a possibilidade de uma vitória do PT: “Talvez a Havan não vai abrir mais lojas. E aí, se eu não abrir mais lojas ou se nós voltarmos para trás, você está preparado para sair da Havan? Você que sonha em ser líder, gerente, e crescer com a Havan, você já imaginou que tudo isso pode acabar no dia 7 de outubro?” Em maio passado, Hang adquiriu uma das maiores aeronaves particulares do mundo, o jato Bombardier Global 6000, ao preço de 250 milhões de reais. Vem somar-se a três helicópteros e três outros jatos. Foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral a uma multa de 2 mil reais. As melancias sempre se ajeitam na carroça.

“Em viagem pelo País em busca de novos terrenos para a instalação de lojas”, Luciano Hang preferiu não conceder entrevista à CartaCapital.

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