Lola Aronovich: O assassinato de Sol não é caso isolado

Eu, uma professora universitária de meia-idade que não entende nada de games, recebi um e-mail do rapaz de 18 anos preso pelo crime

Lola Aronovich: O assassinato de Sol não é caso isolado

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Na última segunda-feira 22, ocorreu em São Paulo um crime hediondo que chocou o País. Um jovem de 18 anos, matou uma colega, Ingrid Bueno, apelido Sol, de 19 anos, jogadora profissional de e-sports. Havia um mês que eles tinham se conhecido, jogando online na internet. Ela foi à casa onde ele morava. E ele a matou usando uma faca e uma espada. Filmou seu corpo ensanguentado e, no vídeo, exclamou “Olha que maravilha!” Iria se suicidar, mas foi convencido pelo irmão a se entregar à polícia. E está preso. 

Às 23:09 da noite de segunda, recebi um e-mail assinado por ele (de quem eu nunca tinha ouvido falar), com o título “Um ato louvável de Asmodeus”, com quatro links – três de vídeos curtos em que ele se orgulha de ter assassinado Sol, um com um “livro” de 52 páginas – e o seguinte texto: 

“Boa noite Lola, aqui quem fala é o Flash, conhecido como Guilherme pelos mais íntimos, possuímos pensamentos divergentes, mentes diferentes, minha mente é completamente diferente da sua, eu respeito isso, pessoas são diferentes, no fundo adquirimos o mesmo objetivo, mudar as pessoas, você vive pra isso, espalha sua psicologia tosca e eu vivo pensando no quanto eu odeio a humanidade, eu sinceramente nesses últimos anos, andei me abalando com minha namorada Eduarda, ela não me compreendia, eu peguei um ódio forte pelas mulheres nesses últimos anos da minha vida, toda esse drama que elas passam, toda essa melancolia, eu sinto nojo e ódio disso, eu quero ficar longe, ser um homem seguro e esperto, não sei se isso será mais possível, porém eu deixo pra você o meu livro com todos os dias que passei, pensando, lá eu falo tudo sobre mim e o porque fiz o que fiz, sinceramente não foi em vão, pessoas irão aprender com isso, só basta você ter uma linha de raciocínio parecida com a minha, claro que você é completamente contra, mas mesmo assim, entenda o meu lado, não sou um desesperado, sou alguém que pensa e compreende.” 

No email, ele ainda agradece ao “Crazychan”, fala de sua (pistola) 9mm  – não encontrada pela polícia -, e promete “coisas novas”. 

Por que eu, uma professora universitária de meia-idade que não entende nada de games, recebi este e-mail?

Pode ser porque ele acreditasse que eu divulgaria sua obra. O mais provável, contudo, é que, como tantos frequentadores de chans (fóruns anônimos) misóginos, ele me conhecia de tanto ouvir seus amigos virtuais falando de mim – nunca positivamente.

Por ser ativista feminista e ter um blog, há pelo menos uma década sou ameaçada e atacada por rapazes de extrema-direita que odeiam mulheres, negros e pessoas LGBT. Odeiam o mundo. Quase sempre, esses garotos levam vidas miseráveis, sem estudos, sem emprego, sem namorada, sustentados pelos pais – mais especificamente, pela mãe. Sentem-se acolhidos em espaços tóxicos e anônimos, livres para compartilhar ódio e fantasias.

Uma fantasia recorrente é sequestrar uma menina, prendê-la num porão, estuprá-la e torturá-la até a morte. Só pela diversão, só pra demonstrar poder, só pra poder dizer “Olha que maravilha” para seus confrades. Outra é cometer massacres numa escola. Engana-se quem pensa que esses homens são todos jovens como Guilherme, ou ainda mais novos. Há muito marmanjo de 30, 40 anos. 

Eu li o “livro” de Guilherme. É uma bobagem genérica em que ele se diz uma pessoa boa, planeja um “ataque contra o cristianismo”, sem entrar em detalhes. Lamenta ser dependente da mãe, mas considera obrigação dela sustentá-lo. Deixa escapar seu rancor por não conhecer o pai biológico. “Se eu tivesse a capacidade de criar leis, uma das primeiras seria: Em caso de abandono de seu filho(a) você estará sujeito a pena perpétua a caminho da pena de morte. A justiça deveria exterminar todos os pais que abandonam seus filhos.” 

Também se vê uma enorme decepção amorosa, um ódio à humanidade (“Eu odeio profundamente essa humanidade, se eu tivesse a capacidade, eu queimava todos, isso é um sonho, ver todos os humanos queimando e gritando, quando eu penso nisso eu me sinto muito bem”), o apreço pelos “soldados” “nesta caminhada” (“Se eles tivessem alguns recursos, como por exemplo armamento pesado, de fato a nossa comunidade daria início a terceira guerra mundial, com o intuito de exterminar a humanidade deste planeta, nós iria matar sem dó e nenhuma piedade”), e sua insistência em afirmar que e é mentalmente são (“Cheguei a um nível magnífico onde consigo manter o controle e o equilíbrio entre o meu cérebro e o meu emocional”). 

Por que Guilherme matou Sol? Não sabemos. Talvez porque algum channer o desafiou a fazer isso. Talvez porque Sol “atravessou o seu caminho”, como ele disse. 

 

Os chans

 

Ontem, recebi um outro email “denunciando” que o tal Crazychan que Guilherme menciona seria “um grupo de whatsapp liderado por um adolescente de 14 anos.” À noite, um covarde me ligou para me ameaçar: se eu não tirasse a menção ao Crazychan do meu blog, ele iria me matar. Pedi pra falar com a mãe dele. Eu queria perguntar se ela sabe que seu filho passa os dias ameaçando mulheres na internet. 

Outra informação que tive, e que repassei imediatamente à delegada que investiga o caso, refere-se a um post publicado no Firechan, uma extensão do Dogolachan (o criador desse chan foi preso em 2018 e condenado a 41 anos de prisão por vários crimes como racismo, terrorismo, associação criminosa e pedofilia). 

Um tal de “Ghostfag” se apresentou como mentor de Guilherme, disse pensar que o jovem iria cometer um ato terrorista, e não matar uma “vadia e-girl”. De acordo com o “mentor”, Guilherme parecia apaixonado por Sol, mas iria matá-la caso ela “desistisse” de cometer o ato terrorista com ele. 

Ghostfag termina: “Por mais que os tempos sejam obscuros a palavra de Kyo segue com força total na mente dos nossos jovens dogoleiros! Não há judeu, feminista ou esquerdista que possa nos deter”. 

Quem é Kyo, alguém pode perguntar? Era o codinome de André Gil Garcia, que foi moderador do Dogolachan durante anos. Em julho de 2018, um mês depois da prisão de Marcelo, Kyo deixou um recado no chan que ainda moderava, afirmando que sua vida não valia a pena e que iria se suicidar. Ouviu em troca o coro de qualquer chan nesses casos: “Leve a escória junto”, ou seja: mate uma feminista, um negro, um gay. Também houve ofertas de vaquinhas para que ele viesse até Fortaleza me executar.

Na mesma noite, Kyo, 29 anos, saiu às ruas de Penápolis, interior de SP, onde morava com os pais, abordou duas moças que nunca tinha visto antes na vida, atirou numa delas na nuca, e se matou pouco depois. A jovem morreu depois de um mês.

 

Em julho de 2019, outra moderadora do Dogolachan, Caroline Dini, codinome Emma (ou Maria Dolores, quando dizia ser minha filha), matou sua amiga Elídia Geraldo na cidade mineira de Ubá. Caroline, que foi vítima de channers durante anos e até simulou seu suicídio para tentar escapar deles, quando ainda era menor de idade, sucumbiu a sua baixa autoestima e tornou-se um deles. Sim, existem mulheres misóginas capazes de matar outras mulheres sem qualquer motivo.

Guilherme, nos vídeos em que gravou se vangloriando do assassinato, usava a mesma máscara com desenho de caveira que outro Guilherme e um amigo usaram para realizar o massacre de Suzano, em março de 2019, em que cinco alunos e duas funcionárias da escola Raul Brasil foram mortos a balas e golpes de machadinha. O atentado foi planejado no Dogolachan.

Portanto, soa bastante óbvio que o feminicídio que Guilherme cometeu na segunda não foi um ato isolado. Todos esses nomes que citei são ou foram gamers, e também membros de chans, além de neonazistas e apoiadores fiéis e antigos de um presidente que prometeu (e está cumprindo) acesso ilimitado a armas de fogo. Mas, acima de tudo, eles são/eram misóginos. Esse era seu combustível, o que os move. E, enquanto chans não forem monitorados pela polícia, enquanto o ódio contras as mulheres não for combatido, meninas como Sol seguirão sendo mortas apenas por serem mulheres.

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Lola Aronovich é professora de Literatura em Língua Inglesa da Universidade Federal do Ceará e autora do blog feminista 'Escreva Lola Escreva'.

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